• Pr. Davi Merkh

O Evangelho Faz Toda a Diferença (Monólogo de Filemom)


Charis kai eirene – ou seja, graça e paz! Fui convidado para compartilhar a história da minha jornada com Deus.

Para muitos de vocês, eu talvez seja um desconhecido. Meu nome é Onésimo. Minha história encontra-se no livro bíblico chamado FILEMOM, que era meu patrão. Você se lembra? “1,2 Tessalonicenses, 1,2 Timóteo, Tito, FILEMOM. O livro da Bíblia com o nome dele fala mais de mim do que dele.

Eu nasci na época da glória do Império Romano. Por um lado, foram tempos únicos na história do mundo. Avanços incríveis na tecnologia, no transporte, na comunicação e na política--como vejo entre vocês hoje. Tempos de prosperidade para muitos. Por outro lado, tempos difíceis para muita gente que não era cidadão romano. Inclusive para mim. Minha profissão qual é? Sou –ou melhor, eu ERA--escravo.

Um terço do império da minha época era constituído de escravos. Nós éramos os verdadeiros “PT” —Pau para todo Trabalho. A economia do império dependia de nós, e muitos dos nossos senhores nos tratavam razoavelmente bem. Éramos administradores, professores, tutores, babás, secretários executivos. Mas não éramos livres.

Nasci nessas condições. Meus pais eram escravos. Meus avós também. Todos nós servíamos a uma das famílias tradicionais de Colossos, a família de Filemom. O nome que me deram, “Onésimo”, significa “útil” ou “benéfico” —uma previsão do padrão pelo qual eu seria avaliado durante todo o decorrer da minha vida—pela minha utilidade, ou não. Uma ferramenta e não uma pessoa. Um fazer humano mais que um ser humano.

Não é que Filemom, a sua esposa Áfia ou seu filho Arquipo me tratassem mal. Dentro dos padrões da época, Filemom era um homem justo, correto, mas também muito esperto. Só que, depois do seu encontro com o homem que também mudou para sempre o rumo da minha vida – Paulos – Filemom tornou-se muito mais bondoso e compassivo. Foi numa viagem a negócios para Éfeso que os dois - Filemom e Paulo - se conheceram. O patrão voltou para casa um homem diferente, dizendo-se agora seguidor de um tal de “Cristos”, chamado Jesus - um judeu rebelde que havia sido cruelmente crucificado 30 anos antes, mas que alguns diziam ter ressuscitado dos mortos.

De minha parte achei que tudo não passava de mito. Charlatanismo. Era incrível que meu patrão, normalmente um homem sábio, fosse enganado desse jeito. Mas, ele mudou, sim, e a partir daquele momento, eu percebi que uma nova oportunidade de sumir daquele lugar tinha chegado para mim.

Por anos eu havia me irritado debaixo desse jugo de escravidão. O ar fresco e intoxicante da liberdade me seduzia diariamente, até não aguentar mais. Eu tinha que me libertar, custasse o que custasse.

Finalmente, o dia chegou. O patrão pediu que eu fizesse as compras da semana no Mercado Central, como de costume. Só que, dessa vez, as compras seriam bem maiores. Haveria na casa do mestre, no próximo domingo, uma grande festa “ágape”, ou seja, uma “festa de amor” junto com sua “ecclesia” ou seja “igreja”, os chamados “irmãos”, com quem se reunia no primeiro dia de cada semana. Filemom me entregou o dinheiro para comprar tudo que seria necessário.

Hoje, tenho vergonha de admitir, mas fiz algo que ninguém de minha família jamais tinha feito. Peguei aquele dinheiro, juntei algumas das minhas coisas, dei tchauzinho para o Mercado e não parei até chegar ao Porto de Éfeso. De lá, consegui passagem num navio rumo ao melhor lugar de todo o império para um escravo fugitivo se esconder - Roma! Roma, o centro da civilização, com centenas de milhares de pessoas, escravas e livres, e ninguém que me conhecesse, ninguém que pudesse me identificar. Eu viveria minha vida no anonimato, finalmente livre.

E não deu outro. Tudo funcionou como planejado. Foi uma aventura inesquecível até chegar na cidade dos sete morros, Roma. Fiquei boquiaberto diante das construções, das ofertas exóticas do Mercadão, mas, acima de tudo, vendo o povo. Nunca tinha visto tanta gente de tantos lugares do mundo em um só lugar. Quanta confusão! Nada melhor para alguém como eu, que queria desaparecer no anonimato para sempre. Eu tinha boca e eu cheguei a Roma, finalmente livre, ou como eu pensava.

Uns três dias depois, enquanto procurava emprego como “chapa” no Mercadão, quase trombei com a pessoa que jamais esperaria ver naquele lugar – Tíquico - um colega de Colossos, que se reunia na casa do patrão com aquele grupo de “irmãos”. Não sei quem ficou mais assustado, eu ou Tíquico. Mas ele se recompôs mais rápido que eu. Segurou no meu braço, fitou-me e perguntou, “Onésimo, o que você está fazendo aqui?” Comecei a gaguejar, mas antes de conseguir formular a resposta, ele sussurrou, “Fique quieto, e venha comigo.” Eu não tive escolha - precisei acompanhá-lo, para não arrumar confusão.

Passamos rapidamente pelas barracas dos camelôs, daí pelas avenidas estreitas da cidade até uma casa de esquina, aonde entramos. Depois que meus olhos se acostumaram com a escuridão da sala, defrontei-me com um grupo de pessoas ao redor de um homem algemado, que liderava uma reunião. Estavam cantando. Parecia mais um encontro daqueles “cristãos”. Também havia soldados romanos no grupo, e alguns estavam cantando. Pior ainda, vi no canto da sala um outro conhecido, Epafras, um dos líderes da igreja de Colossos, também ali, e algemado. Percebi que eu havia saltado da frigideira para o fogo!

Fiquei quieto um tempão, com Tíquico ao meu lado. Havia muitos cânticos. Depois, o homem algemado levantou-se e começou a falar desse tal de “Cristos”. (Já tinha ouvido de uma audiência cativa, mas era a primeira vez que vi um palestrante cativo!) E como o homem falava! No início eu não prestei muita atenção, por estar mais atento a uma oportunidade de fuga. Mas confesso que nunca tinha escutado palavras como aquelas. O homem acorrentado falava de amor, de graça e de perdão. Falava de vida eterna, da ressurreição dos mortos, de esperança e de fé. Falava de vida com propósito, da liberdade em Cristo, da igualdade de todos diante de Deus. Meu coração ardia aqui no peito. Era como se conhecesse minha vida inteira, todos os desejos mais íntimos do meu coração. O peso de todo o mal que eu havia feito na vida apertava meu coração a ponto de eu não aguentar mais. Foi aí que o homem nos convidou a abraçar esse Cristos, Jesus, como Salvador e Libertador das nossas almas, que se fez pobre para que nós fossemos ricos - aquele que sofreu em nosso lugar, morreu para nos salvar e ressuscitou ao terceiro dia. Com coração quebrantado, não resisti. Caí de joelhos, arrependi-me do meu pecado, e lancei minha vida, meu destino eterno, nas mãos de Cristos.

Tíquico e Epafras me abraçaram. Um jovem chamado Timóteo também. Depois, conheci homens chamado Lucas, Marcos, Aristarco e Demas, irmãos em Cristos. Por fim o homem que pregou também me abraçou. Descobri que o nome dele era Paulos! Era o mesmo homem que havia transformado a vida do meu patrão em Éfeso. Por um instante vacilei, por ser reconhecido como fugitivo por tantos amigos e conhecidos do patrão. Pensei comigo mesmo, “Agora estou frito.” Mas por alguma estranha razão, já não me importava mais com isso. Pela primeira vez em minha vida, eu estava realmente livre.

Epafras, Tíquico e Paulo conversaram longamente sobre toda essa “coincidência” estranha. Me fizeram mil perguntas. Contei-lhes tudo. Oramos juntos. Depois me convidaram para permanecer com eles na casa alugada, onde Paulo e Epafras estavam detidos, e onde Paulo aguardava uma audiência perante o Tribunal de César. Que paradoxo - o prisioneiro de Cristo Jesus, que era realmente livre, me libertando, a mim, que me achava livre, mas estava preso pelo pecado!

Os dias se passaram. Aquela casa parecia mais um ponto turístico do que uma residência. As pessoas entravam e saíam, ouviam Paulos falar do que ele chamava de Sagradas Escrituras sobre Cristos. Alguns discutiam com ele. Outros se derretiam em lágrimas diante dele, arrependidos. Até os soldados - com troca de sentinela a cada 8 horas - gratos pela diversão e por se livrarem da sua vida monótona, envolviam-se nas discussões. Eu, por minha parte, absorvia tudo, e crescia na minha nova fé.

Também trabalhei na casa. Não por obrigação, mas por querer. Paulo, grande mestre, erudito doutor, me tratava como igual! Então eu trabalhei como nunca, agora como livre e motivado pela graça. Arrumava a casa. Preparava as refeições. Fazia as compras no Mercado. Paulo se tornou como um pai para mim. Senti dele um carinho, um amor, um perdão incondicional. Pela primeira vez na minha vida, senti-me fazendo jus ao significado do meu nome Onésimo – eu era útil!

O apóstolo - pois era assim que o chamavam, um “enviado por Jesus” - era incansável. Mesmo tendo mais de 60 anos e cicatrizes em todo o corpo - marcas de muito sofrimento por Cristos - o homem não parava. Ora pregando, ora intercedendo por amigos e conhecidos no mundo inteiro, ora sonhando com uma viagem para Espanha, ora escrevendo cartas para as igrejas espalhadas em Éfeso, Filipos, e até mesmo na nossa cidade, Colossos. Cartas lindas sobre nossa posição e vida digna em Cristos.

Para mim, aqueles dias poderiam ter continuado para sempre. Mas um dia, Paulo me chamou de lado e disse, “Onésimo, não está certo você continuar aqui comigo, diante de tudo que aconteceu entre você e seu patrão, Filemom. Escrevi-lhe uma carta, e gostaria que você a levasse de volta para ele, na companhia de Tíquico. Sei que não será nada fácil, e poderá até lhe custar a vida, mas é o que Jesus quer.”

Eu sabia que ele tinha razão. E concordei. Mesmo assim, tremi nas bases. Ele mesmo entregou em minhas mãos as despesas da viagem. Como ele confiava em mim! Nunca mais trairia tal confiança! No próximo dia partimos, refazendo o caminho daquela minha primeira viagem de emancipação, só que agora eu era verdadeiramente livre.

Depois de várias semanas, chegamos em Colossos. Você tinha que ver a expressão no rosto do patrão quando chegamos em casa. Tíquico conversou com ele em particular, e depois entreguei-lhe a carta. Ele começou a ler, em voz alta. Eu não conseguia conter minha alegria enquanto ele lia…

Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e o irmão Timóteo, ao amado Filemom, também nosso colaborador, e à irmã Áfia, e a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que está em tua casa, graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Dou graças ao meu Deus, lembrando-me, sempre, de ti nas minhas orações, estando ciente do teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus e todos os santos, para que a comunhão da tua fé se torne eficiente no pleno conhecimento de todo bem que há em nós, para com Cristo. Pois, irmão, tive grande alegria e conforto no teu amor, porquanto o coração dos santos tem sido reanimado por teu intermédio. ordenar o que convém, prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, agora, até prisioneiro de Cristo Jesus; sim, solicito-te em favor de meu filho Onésimo, que gerei entre algemas. Ele, antes, te foi inútil; atualmente, porém, é útil, a ti e a mim. Eu to envio de volta em pessoa, quero dizer, o meu próprio coração. Eu queria conservá-lo comigo mesmo para, em teu lugar, me servir nas algemas que carrego por causa do evangelho; nada, porém, quis fazer sem o teu consentimento, para que a tua bondade não venha a ser como que por obrigação, mas de livre vontade. Pois acredito que ele veio a ser afastado de ti temporariamente, a fim de que o recebas para sempre, não como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo, especialmente de mim e, com maior razão, de ti, quer na carne, quer no Senhor. Se, portanto, me consideras companheiro, recebe-o, como se fosse a mim mesmo. E, se algum dano te fez ou se te deve alguma coisa, lança tudo em minha conta. Eu, Paulo, de próprio punho, o escrevo: Eu pagarei — para não te alegar que também tu me deves até a ti mesmo. Sim, irmão, que eu receba de ti, no Senhor, este benefício. Reanima-me o coração em Cristo.

Certo, como estou, da tua obediência, eu te escrevo, sabendo que farás mais do que estou pedindo. E, ao mesmo tempo, prepara-me também pousada, pois espero que, por vossas orações, vos serei restituído. Saúdam-te Epafras, prisioneiro comigo, em Cristo Jesus, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores.

A graça do Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito.[1]

Quando terminou, todos nós estávamos chorando. Filemom me abraçou. Senti-me como o filho pródigo que voltara para casa. E não acreditei que Paulos havia assumido minha dívida para com Filemom! Que exemplo de Cristo, tomando nosso lugar na cruz! Que exemplo de perdão e desprendimento!

Alguns dias depois disso, Filemom chamou uma reunião de todos da casa. Anunciou-nos que, a partir daquele momento, éramos pessoas livres. Oferecia-nos nossa emancipação incondicional. Só que, para aqueles que os aceitavam, propunha novos termos de emprego. Poderíamos ficar com ele como funcionários enquanto queríamos.

Quanto a mim, não demorou muito, e Filemom me enviou de volta para Roma, para ser o atendente particular de Paulo, até que ele fosse libertado e pudesse chegar em Colossos e ficar num pequeno apartamento que Filemom preparara.

E pensei comigo mesmo, “Quanta mudança o Evangelho faz! Antes eu era escravo, agora livre. Morto nos delitos e pecados, agora vivo em Cristos. Antes um ladrão, hoje um irmão. Antes inútil, agora útil. Uma vez culpado, agora perdoado. Uma vez réu, agora indo para céu. E se eu fosse perdoado, como não perdoar a outros?”

E essa é a minha história. Quanta “coincidência! Quanto perdão! Quanta graça! Quanto amor! Quanta diferença o Evangelho faz!

Sabe, essa pode ser a sua história, também. Quanta diferença o Evangelho já fez em sua vida? Na sua família? Você é útil para o Senhor? Você é um perdoado por Cristos? Estende esse mesmo perdão que já recebeu aos outros? Vê todas as pessoas como iguais, ou pratica favoritismo? Você vê pessoas pelo que fazem por você, ou pelo seu valor eterno? Bens materiais valem mais para você do que almas eternas? Entende que passará toda a eternidade com seus irmãos em Cristo, e trata-os de acordo?

O Evangelho realmente transforma o inútil em alguém útil para o Reino de Deus. O Evangelho – Cristos -faz toda a diferença.

A graça do Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito. Amém.

[1] ARA © 1993 Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados.

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