• Pr. Davi Merkh

Casamento, Sexo e o Celibato (1 Co 7)

Atualizado: Mar 25

Para alguns, "sexo" é um palavrão. Quanto menos se fala, melhor. Para outros, a palavra "sexo" atrai como imã: Colocá-la na capa de uma revista ou em luzes de néon, chama a atenção de todos ao redor.


Vivemos num mundo de desequilíbrio sexual. Por um lado, sexomaníacos. Por outro, sexofobíacos. Há dois extremos: libertinagem e legalismo.


O sexo também gera controvérsias em círculos religiosos. Em algumas religiões, o sexo se justifica somente pela reprodução da espécie, como se fosse algo “sujo” fora deste propósito. Historicamente,


seitas e religiões pagãs têm feito do sexo uma parte integral de adoração aos deuses ou a um líder carismático. A igreja evangélica, apesar da sua teologia geralmente sã com respeito ao sexo, tem sofrido golpe após golpe contra seu testemunho justamente por causa da promiscuidade e imoralidade de alguns de seus líderes. Ou tem errado por omissão, gaguejando sobre sexo quando Deus fala clara e abertamente.


Uma situação semelhante, era o clima sexual “esquizofrênico” que existia na Igreja de Corinto. Como a nossa, era uma cultura extremamente sensual. As religiões falsas, idólatras e demoníacas da cidade promoviam prostituição cultual como forma de adoração aos ídolos. Sexo livre, prostituição, homossexualidade e mais, reinavam. O nome da cidade, “Corinto”, foi transformado num verbo para descrever perversão moral: “Corintizar” significava debochar.


Por outro lado, havia um grupo de cristãos naquela cidade, salvos, de moral, resgatados do lamaçal sexual, que repudiavam aquela velha vida. Alguns dos coríntios corriam o risco de levar o pêndulo para o outro lado. Estavam tendendo para um asceticismo que menosprezava a relação sexual, mesmo entre os casados. Reagiram contra os abusos sexuais, e corriam o risco de desprezar algo que Deus havia criado para o homem, algo bom, puro e santo.


1 Coríntios 7 foi escrito para corrigir essas tendências desequilibradas. Pois os leitores tinham dúvidas sobre uma sexualidade sadia numa cultura pervertida.


I. O Casamento não é para Todos (pois desvia atenção do Reino) (7.1,7)

Paulo começa respondendo uma pergunta enviada pelos coríntios: “Paulo, não seria melhor nunca casar?”


Sua resposta é clara e objetiva, mas reflete suas reservas: “Sim, é bom que o homem não toque mulher.” A frase “não toque mulher” é uma forma suave de dizer, “É bom não entrar num relacionamento conjugal com suas obrigações sexuais.”


Pode parecer estranho, quando lembramos do que Deus falou em Gn 2:18 e 24 “Não é bom que o homem esteja só . . . por isso, deixa o homem pai e mãe, une-se à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” Mas Paulo estava escrevendo em meio a circunstâncias bem específicas. Há pelo menos três fatores que influenciaram essa resposta, razões que devem ser consideradas por alguém que pensa no casamento.


São razões para não se casar:


1. A difícil situação corintiana (26, 27). Aparentemente, havia muitas dificuldades para os

crentes em Corinto. Perseguição, marginalização e pobreza. Mas à luz dessas dificuldades, Paulo aconselhou que as pessoas não assumissem novos estados civis que implicariam em vários ajustes e adaptações em meio a tribulação.


2. Liberdade para servir o Reino de Deus (7, 8, 32-35). A “solteirice” traz grandes

vantagens para quem serve o Reino. Os interesses dessa pessoa não estão divididos. De corpo e alma ele pode servir ao Senhor. Está livre para ir e vir, para estabelecer seus próprios horários, gastar seus bens, sacrificar a si mesmo, dedicar-se até a morte ao Senhor. Mas o casado tem outras obrigações, dadas por Deus, que acabam clamando por sua atenção.


3. O dom de Deus (7). O celibato não é a norma para o ser humano, muito menos para a

sociedade. A ordem divina de “multiplicar-se e encher a terra” (Gn 1.28) nunca seria cumprida a não ser que a maioria casasse e tivesse filhos. Gênesis diz: “Não é bom que o homem esteja só . . . por isso, deixa o homem pai e mãe, une-se à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” O casal casado reflete a imagem de Deus, justamente em seu relacionamento conjugal, em que dois-em-um refletem três-em-um. Isso é bom, puro e santo. É a norma. Mas há exceções. Exige um dom especial de Deus, o chamado “dom de celibato”.


A palavra “dom” usada aqui é a mesma usada quando a Bíblia se refere aos “dons espirituais” - uma capacidade sobrenatural, dada por Deus, para uma obra especial. É fruto da graça de Deus na vida de um indivíduo. Algumas pessoas têm o “dom” de celibato, outros têm o “dom” de casamento - “um de um modo, outro de outro.” A GRAÇA de Deus capacita um indivíduo para um ou outro estado civil. Por ser uma questão de “graça”, não podemos nem devemos reclamar do nosso estado civil. A graça dEle é suficiente para isso!


Paulo disse que ele gostaria que todos fossem como ele era, ou seja, solteiro. De fato, a maioria pensa que Paulo foi casado, mas que era viúvo, ou talvez que sua esposa não-crente havia o abandonado. De qualquer jeito, ele permanecia nesse estado para melhor servir a Deus.


Cabe aqui uma palavra de exortação. Casados, cuidado para não presumir que seus amigos solteiros são “pobrezinhos”. Que todos vivem esperando o dia que finalmente poderão se casar e serem “inteiros”. Que são desesperados, encalhados, não-desejáveis, ou que há algo de errado com eles. Sem saber, ferimos, essas pessoas pela nossa insensibilidade e falta de tato. Não devemos saír por aí, como cúpidos tentando casar todo mundo!


Cuidado, solteiros, para não viver sua vida procurando “a grama mais verde”. Paulo exalta o celibato, o estado civil de solteiro, especialmente quando a pessoa aproveita os anos de “solteirice” para investir no Reino de Deus! Invista esses anos preciosos em serviço desimpedido ao Reino de Deus. Aproveite esse tempo para desenvolver seus dons e suas habilidades, para ser uma pessoa cada vez mais atraente, mais piedosa, mais sensível, mais amável, não na esperança de um dia se casar, mas para ser um servo cada vez mais eficiente do verdadeiro Noivo, Jesus Cristo.


II. O Casamento Visa Evitar Imoralidade (para poder servir ao Reino de forma não dividida) (7.2)


Paulo reconhece que o “dom” de celibato não é para todos, e que na verdade talvez seja para a minoria. A maioria das pessoas tem desejos e impulsos sexuais tão fortes (dados por Deus!) que o celibato não é uma opção. Essas pessoas enfrentam uma luta diária para se manterem puros, especialmente numa cultura extremamente sensual em que somos cercados por tentações sexuais que nos preparam emboscadas o tempo todo.

Para esses, Paulo diz que devem procurar meios legítimos para resolver suas frustrações. 1 Coríntios 6.18 diz que devemos fugir DA imoralidade. Aqui, devemos fugir PARA o casamento.


Deus deu o casamento como a única expressão legítima, pura e santa de nossa sexualidade. “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito (coito) sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hb 13.4).


Deus é quem criou o sexo. Ao contrário da opinião popular, Ele não é um velho estraga-prazeres. Ele tem um plano para o relacionamento sexual, que não é só para procriação, mas também recriação.


É impressionante como o Inimigo, Satanás, perverte tudo que é bom. Os melhores presentes que Deus nos dá, ele tenta estragar. Usa dons espirituais para dividir igrejas. Usa a música para separar irmãos. Usa o sexo ilícito para sujar a imagem de Deus e causar culpa, doença e ressentimento.


Para evitar aberrações sexuais, e principalmente para evitar o estrago do testemunho da Igreja e do Reino, Paulo recomenda o casamento. O CASAMENTO NÃO É UM FIM EM SI, MAS UM MEIO PARA PROMOVER UM FIM, A GLÓRIA DE DEUS PELA EXPANSÃO DO SEU REINO. O que justifica o casamento aqui é o melhor serviço ao Reino de Deus, sem distrações, sem perversões, sem impureza. Case-se, não principalmente para satisfazer seus desejos sexuais, mas para poder servir ao Reino sem distrações. A ênfase não é tanto em direitos, mas responsabilidades. Não que exijo meu direito ao corpo do cônjuge, mas assumo a responsabilidade de usar meu corpo para agradá-lo. (Repare na igualdade inédita entre marido e esposa em termos sexuais. A mesma responsabilidade pertence a cada um.) Quando nos casamos, entramos numa aliança que tem como uma das suas condições o compromisso de fazer tudo possível para satisfazer os desejos legítimos sexuais do outro. Faz parte da aliança, e ferimos aquela aliança quando não satisfazemos regularmente os desejos do cônjuge.


Somos lembrados da fórmula bíblica que justifica o casamento: 1 + 1 > 2. O casamento justifica-se quando a soma das nossas vidas significa maior impacto para o Reino de Deus do que quando ficamos sozinhos. Por isso evitamos o jugo desigual (2 Co 6.14). O jugo desigual implica em serviço ineficiente, distraído, conflitante e competitivo. O casamento justifica-se quando duas pessoas são “auxiliadoras idôneas”, cada um complementando o outro, satisfazendo os desejos do outro, reforçando os pontos fracos do outro.


III. O Casamento Requer Mutualidade Sexual (para poder servir ao Reino de forma não dividida) (7.3-5)


Caso restasse alguma dúvida para os coríntios, Paulo levanta mais uma situação ligada ao casamento: O celibato dentro do matrimônio. A não ser em situações extremas e excepcionais, o celibato dentro do casamento é pecado!


Nos versículos 3 a 5, Paulo lida com desencontros e disfunções sexuais dentro do próprio casamento. Ele deixa claro que o celibato dentro do casamento é um desvio do plano de Deus.


1. A Ordem. “O marido conceda à esposa o que é devido . . .” Paulo usa termos fortes para deixar claro que existem obrigações de mutualidade no casamento. Uma vez casados, nossa primeira preocupação tem de ser o bem-estar do nosso cônjuge! O sexo no casamento não é um “mau necessário” para ser aguentado, mas um dom de Deus para ser desfrutado.


Alguns se casam por conveniência, ou egoísmo, procurando alguém para satisfazer suas necessidades. Mas casamento não é sobre achar a pessoa certa e, sim, ser a pessoa certa! Casamento não é um negócio “50-50”, mas “100-100”. O casamento cristão, assim como a vida cristã, é sobre DAR a nossa vida no serviço do outro, assim como Jesus, que “não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mc 10.45)


Por isso vs. 32-33 diz, “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa.” Alguns tiram esses versículos do contexto, e justificam uma vida de negligência do cônjuge em nome do Reino de Deus. Mas não temos essa opção. Uma vez casados, o bem-estar do nosso cônjuge toma precedência sobre outras questões do Reino de Deus. Não é uma questão alheia - o ministério entre cônjuges faz parte do ministério ao Reino de Deus!


2. A Explicação: “A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e, sim, o marido . . .” Quando nos casamos, abrimos mão da autonomia do nosso corpo. O casamento implica numa preocupação constante com os desejos sexuais do cônjuge. Como já vimos, é um dos fatores que justifica o casamento.


O princípio aqui vai além da mera satisfação sexual. Pressupõe um relacionamento de carinho, de afeição, de mútua preocupação. Alguns cônjuges têm usado o versículo 4 para justificar "sexo sob demanda", a qualquer hora, a qualquer momento. Mas esquecem do fato de que a ênfase do texto está na mutualidade da intimidade -que cada um esteja pensando no bem do outro, e usando (ou não usando!) seu corpo da maneira que mais agrade ao cônjuge.


Tanto a mulher quanto o homem devem ser sensíveis às necessidades e aos desejos do outro. Às vezes significa que a esposa se entregará ao marido, mesmo quando não está "a fim disso", e que o marido, de tempos em tempos, não insistirá numa relação sexual, a bem da sua esposa, e vice-versa.


Paulo não dá um cheque em branco para os maridos escravizarem sexualmente suas esposas. Às vezes esses desejos e obsessões pelo sexo surgem porque são alimentados por maus hábitos e vícios em pornografia e sensualidade. Ele não está advogando escravidão sexual, muito menos práticas sexuais que desumanizam, envergonham, ou causam nojo. A questão da MUTUALIDADE está em primeiro lugar.


Hoje existem centenas de livros e revistas oferecendo conselhos para melhorar sua vida sexual. Mas não precisamos ler todo esse material (muito lixo) para termos uma vida sexual sadia. A Palavra de Deus, sempre suficiente para tudo que precisamos, oferece conselhos básicos e essenciais para uma vida sexual sadia: “Perca-se na satisfação sexual do seu cônjuge!” Procure o bem do outro em primeiro lugar, e seus desejos serão satisfeitos. Satisfaça-se com o amor e a intimidade do seu próprio cônjuge, num contexto de mutualidade.


Provérbios 5.15-19 recomenda . . . “Bebe a água da tua própria cisterna, e das correntes do teu poço. . . Sejam para ti somente e não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores, e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias”. O Cântico dos Cânticos foi escrito para exaltar a beleza de amor romântico e sexual dentro do plano matrimonial de Deus. Estes textos certamente desmentem a ideia de que o sexo por prazer está fora da vontade de Deus!


3. Uma exceção: “Não vos priveis um ao outro, salvo talvez . . .”

Existe, de fato, uma exceção. Parece que alguns estavam caindo no erro do “celibato conjugal”. Paulo proíbe a prática: “Parem de fazer isso!” Mas ele admite uma situação em que o casal poderia praticar um “jejum sexual”. Estabelece quatro fatores que determinam quando e como:


a) por mútuo consentimento - Não é a esposa ou o marido que vai decidir unilateralmente que agora é hora de se abster de relações. Implícito aqui é o fato de que o casal conversa sobre seu relacionamento. Há abertura para discutir seus desejos, suas preferências.


b) Por algum tempo- a frase significa um tempo claramente delineado; não é algo em aberto, sem esperança de terminar, mas com começo e fim bem delimitados


c) Para vos dedicardes à oração - a ideia é que os dois vão focalizar em questões do Reino de Deus, seu relacionamento com Deus, talvez seu serviço do Reino. Concordam em não se juntarem durante esse tempo para poderem se dedicar de corpo e alma ao Senhor, COMO SE FOSSEM SOLTEIROS. Interessante a ênfase aqui em oração conjugal (cf 1 Pe 3.7) e sua prioridade na vida conjugal.


d) E novamente vos ajuntardes – esse tempo claramente delineado tem seu fim numa celebração sexual. O casal se encontra novamente, e desfruta do seu relacionamento a dois.


4. A razão: “Para que Satanás não vos tente por causa da incontinência”. Mais uma vez, a razão citada tem a ver com o Reino de Deus. Se o casamento visa afastar a impureza, não permita que o próprio casamento dê brecha para Satanás. O “jejum sexual” dentro do casamento pode provocar maiores conflitos e tensões sexuais do que o celibato do solteiro porque a pessoa fica diante de um banquete, mas com mordaça sobre a boca!


Finalmente, vs. 6 indica que nem esse cenário é obrigatório, mas, sim, uma concessão. Ninguém é obrigadoa praticar o jejum sexual no casamento. É uma opção possível para aqueles que conseguem seguir essas diretrizes bem específicas.


Apesar de toda esta beleza no propósito de Deus para a sexualidade, temos que admitir que o sexo não é tudo na vida do cristão. Infelizmente, nosso inimigo, o "sedutor de todo o mundo" (Ap 12:9) tem alcançado suas maiores vitórias contra a igreja de Jesus Cristo justamente neste ponto. Temos engolido as propagandas, revistas, novelas e piadas sujas que o mundo (e, às vezes, a própria igreja) circula, barateando uma das mais sublimes e belas criações de Deus. O sexo tem seu lugar, mas não ocupa todo lugar! Devemos louvar a Deus pela sua sabedoria e bondade em criar o sexo. Podemos resumir a mensagem do texto dizendo que O relacionamento sexual sadio do casal casado ajuda a manter o foco no Reino de Deus.

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