• Pr. Davi Merkh

Ainda que Tudo Falte, Confie no Senhor! (Panorama Habacuque)


Imagine que estamos no ano seiscentos e nove antes de Cristo. O lugar? O sul de uma nação perto do Mar Mediterrâneo. O homem? Para o mundo ele não é ninguém, sem importância, insignificante. Mas ele é um crente em Deus. Mais do que isso, ele é um porta-voz de Adonai, um embaixador de Deus a seu povo Israel. Mas ele tem um problema - está numa "crise-da meia-idade" na sua fé.

O profeta está cansado - cansado de sua incapacidade, cansado de anunciar julgamento contra o seu povo, cansado de clamar "Perigo" - mas ninguém escuta, ninguém responde, ninguém crê nele. Ele está cansado, mas também está desanimado. Ele quer transformar seu mundo, quer ter uma vida de impacto. Entretanto, às vezes ele pensa que tem mais raiva do pecado do que o próprio Deus. Onde está o juízo? Onde está o julgamento contra a maldade? Onde está Deus num mundo confuso e cheio de pecado?

Agora estamos no ano 2020 depois de Cristo. O lugar? Um país ao lado do Oceano Atlântico. O povo? Para o mundo, talvez, sejam sem importância, insignificantes. Mas eles são crentes no Senhor Jesus. Mais do que isso, eles são porta-vozes dEle, embaixadores de Cristo ao povo brasileiro, e ao mundo. Eles querem ser usados para transformar e edificar o mundo. Mas eles também têm um problema - estão numa crise na sua fé.

Este povo está cansado - cansado da sua incapacidade, cansado de lutar contra o mal dia e noite, cansado de se sentir derrotado. Eles leem os jornais. Assistem as notícias. Veem o mundo por todos os lados: pessoas correndo para a destruição enquanto tapam os ouvidos. Pessoas que vivem para o próximo prazer, a próxima bebida, o próximo Carnaval. Pessoas que fariam qualquer coisa para ganhar mais um real.

Os resultados do pecado estão por todos os lados no mundo. O crime está em todo lugar, cada dia pior. A AIDS está se espalhando pelo mundo. Crianças inocentes são assassinadas no ventre das mães. Os ricos estão ficando mais ricos, mas os pobres estão cada vez mais pobres. Os jovens podem comprar drogas na escola ou na esquina. Corrupção continua sendo a praga de todos os governos. É difícil achar um bom casamento por causa de divórcio e infidelidade. E qual a diferença que este povo de Deus faz?

Transformar este mundo? Muitas vezes este povo quer se esconder, ou colocar sua cabeça na areia, talvez ir para uma ilha tropical - qualquer coisa para escapar da realidade de sofrimento e de pecado ao seu redor. Ou, se eles não querem se esconder, talvez queiram chamar fogo do céu contra os que estrupam crianças pequenas, ou roubam o dinheiro do povo. Transformar este mundo? Parece uma tarefa impossível.

No meio de todas estas coisas, há uma outra pergunta que perturba mais ainda. Onde está Deus? Por que Ele não faz nada? Onde está o juízo? Onde está o julgamento? Onde está Deus no mundo confuso e cheio de pecado?

O profeta Habacuque é um dos profetas menores. Os profetas menores têm mensagens tão relevantes como o jornal nacional. Se isto é verdade dos profetas em geral, é mais ainda para este livro. Parece que o profeta assistiu as últimas notícias do nosso tempo!

Mas Habacuque é um pouco diferente dos outros profetas. Geralmente eles falam com o povo sobre Deus. Mas Habacuque fala com Deus sobre o povo! Os outros explicam o "porque" do julgamento de Deus. Habacuque pergunta "Por quê?" para Deus. O profeta queria que Deus desse um jeito no povo. Mas Deus queria dar um jeito no profeta.

Este livro ecoa a literatura de sabedoria do Velho Testamento - livros como Jó, Eclesiastes, Provérbios e vários Salmos que lutam com as perguntas maiores da vida: "Porque o justo sofre?" Porque o perverso prospera? Porque o mal existe? Porque Deus não faz nada? Chama-se o problema de "teodicéia", ou, literalmente, a questão da justiça (do grego, dikaios) de Deus (gr.: theos). Será que Deus é justo? Será que Ele é bom? Será que Ele é amor? Podemos justificar os atos de Deus neste mundo e universo caóticos?

Este é o "problema do mal": Há muitas formulações do problema, mas alguns aspectos são fundamentais e clássicos, e todos são encontrados neste livro. A questão da presença do mal parece incompatível com a existência de Deus, pelo menos o Deus que nós cristãos adoramos.

1) Se Deus é soberano (onipotente), pode acabar com o mal

2) Se Deus é santo (bom), teria que acabar com o mal

3) Mas Deus não acabou com o mal

4) Portanto, Deus não deve ser soberano, ou Ele não é santo, ou Ele não existe.

Estas perguntas teológicas são altamente práticas! É aqui que a teologia usa os mesmos chinelos que a gente. Isso porque todos nós sofremos, e questionamos "Porque?" para Deus. "Porque nasci neste lar desestruturado?" "Porque Deus me amaldiçoou com esta aparência, com este físico?" "Porque Deus não curou a minha mãe daquela doença?" "Porque eu nunca consigo pagar minha mensalidade?" "Porque?"

Panorama do Livro

Nos profetas nós quase sempre encontramos dois temas fundamentais:

1) Condenação do povo, em termos da Aliança Mosaica, e dos inimigos do povo de Israel, em termos da Aliança Abraâmica

2) Consolação (na forma de julgamento contra os opressores, e pela soberana proteção e restauração do povo de Deus

No livro de Habacuque, descobrimos esse dois temas, mas numa forma diferente, um pouco mais sutil. Em Habacuque, entramos na sala do profeta, e ouvimos sua conversa com o próprio Deus a respeito do caráter de Deus e do Seu povo. O livro se divide da seguinte maneira: Há dois ciclos de debate, cada um focando uma reclamação do profeta, e terminando com uma resposta de Deus. No final do livro, capítulo 3, descobrimos a resolução das dúvidas do profeta numa belíssima oração de submissão.

Vamos seguir, então, os dois ciclos de debate do profeta, e tentar chegar à solução do conflito e à resolução das dúvidas dele. No caminho nós vamos aprender mais uma lição sobre como depender do amor-fiel de Deus em circunstâncias difíceis, com ênfase na palavra "fiel" ou "fidelidade".

I. Ciclo Um: Será que Deus é Soberano? (1:1‑11)

A. A Pergunta: Se Deus é SOBERANO (onipotente) por que não faz nada contra o mal? (1:2‑4)

A Situação em Israel (veja o reinado de Manassés: 2 Cr.33:1-6, 9): Os tempos foram caracterizados por idolatria­, imoralidade, feitiçaria, injustiça, maldade e violência. Mas, como explicar a inatividade de Deus perante uma sociedade corrupta?

-Deus soberano, mas indiferente?

-Deus soberano, mas insensível?

-Deus soberano, mas surdo?

No fundo, implícito no desafio ao caráter de Deus está a acusação de que o profeta se considera mais justo do que o próprio Deus. Pelo menos ele parecia ter mais interesse em resolver os problemas do seu povo do que Deus tinha! Implícita está a ideia: "Se eu fosse Deus o universo seria diferente."

B. A Resposta (a primeira ao problema do mal): Deus responde: "Eu estou fazendo algo incrível!" "Estou trabalhando até agora, mesmo não sendo percebido por seus olhos finitos!" (Ou seja, Deus iria julgar o mal, mas ainda não acertou as contas. 1:5‑11)

Para disciplinar o povo pecaminoso, Deus havia preparado os Babilônicos (veja a descrição, vss. 6,7)

O problema do profeta foi o fato de ter olhos finitos; ele sofria de uma miopia espiritual! Podemos comparar o universo a um tapete, sendo tecido por Deus. Mas nós seres humanos só conseguimos ver o avesso - um pouco confuso, até feio. Mas quando Deus terminar, tudo ficará no seu devido lugar.

Aplicação: O mundo hoje está cheio de crime, violência, roubo. A pergunta: Porque Deus não faz nada? Porque o justo sofre perante os opressores deste mundo?

Onde está Deus em tudo isso? A resposta, que recebemos pela fé, é que Ele está trabalhando - no avesso do tapete - e o julgamento certamente virá. Ficamos desesperados? Achamos que já perdemos? Não! Deus há de julgar. O justo prosperará. Deus está tecendo um desenho que não dá para acreditar.

Mas Deus usa estas experiências ruins para mais uma vez nos fazer olhar para ele. Em desespero, talvez. Quando nós mais clamamos para Deus mudar o nosso mundo, pode ser que o que Ele mais quer é nos mudar.

Mas esta resposta de Deus não foi suficiente para o profeta perturbado. Acabou por criar uma nova dúvida no coração do profeta, e talvez uma dúvida mais séria. É o segundo ciclo de debate entre o profeta e Deus.

II. Ciclo Dois: Deus é Santo? (1:12‑2:20)

A. A Pergunta: Se Deus é santo, como pode tolerar iniquidade em Seu Plano? (1:12‑2:1)

A Situação: (1.12, 13) O que o profeta antecipava não foi uma brincadeira. Quando ouviu a palavra "Caldeus" deve ter sentido um frio na barriga. Julgamento debaixo da mão cruel dos caldeus (babilônicos) significava sofrer as maiores barbaridades. Significaria, de fato, ter a cidade santa, Jerusalém, sitiada durante18 meses, em que ninguém entrava ou saia da cidade! Foi exatamente este tipo de julgamento que Deus advertia que aconteceria na Aliança Mosaíca (Dt.28:56,57).

Sabemos, pelo livro de Lamentações, das implicações para o povo de Deus deste castigo e da invasão dos caldeus (Jr.52:5,6 Lm.2:1­1,12,4:9,10). O povo teria que cozinhar seus cintos para sobreviver. Alguns comeriam seus próprios filhos, e até mesmo a placenta depois de um parto. O sítio foi uma situação horrível. E Habacuque reconheceu o fato de que seu povo sofreria todas estas injustiças debaixo de um povo infinitamente mais pecaminoso, mais cruel, mais idólatra, mais imoral do que ele mesmo. E isso foi demais para o profeta.

B. A Resposta: "MEU PLANO AINDA NÃO TERMINOU! (2:12-20): Espere!

Deus responde pronunciando 5 "Ais" contra Babilônia - o país que simbolizava os inimigos de Israel no mundo. Isso certamente traria con­solação ao povo. Vemos isso em outros livros de julgamento contra os inimigos de Israel como Obadias e Naum.

O problema com a formulação normal do problema do mal reside na questão de tempo. A resposta é que Deus AINDA não acertou as contas!

Aqui nós entendemos uma distinção muito importante, entre castigo e disciplina. Quanto ao povo de Judá, Deus o estava disciplinando, como um pai disciplina seus filhos. Depois, veio o abraço da consolação. Mas para os Babilônicos, não houve mais esperança. Não eram filhos, mas meros instrumentos nas mãos de Deus, a vara que Deus usaria para corrigir Seu povo. No fim, a vara seria quebrada e jogada fora.

Aplicacao: Todos nós passamos por crises de fé, em que ficamos decepcionados com o próprio Deus. Às vezes a nossa decepção nos leva a questionar e duvidar da bondade, santidade, e soberania de Deus. Observe bem: O texto nunca critica a expressão de dúvidas honestas, especialmente quando o profeta (ou os salmistas, nos salmos de lamentação) expressa-as com o intuito de resolvê-las com humildade, esperança e fé (2:1,20). Habacuque aqui está buscando entender e conhecer os caminhos de Deus; ele não está desafiando a Deus.

Posso imaginar algumas circunstâncias que nos levam a ciclos de debate como no caso de Habacuque. São ocasiões em que nós agimos como se fôssemos mais santos que o próprio Deus. Pensamos que seria tão fácil Deus "dar um jeito" e resolver a situação. Porque não?

Como devemos responder perante tais desafios? Já temos visto os dois ciclos de debate - as perguntas do profeta e as respostas de Deus. Agora chegamos à conclusão - a belíssima oração de submissão do profeta.

III. A Conclusão do Debate: Oração de Submissão (3:1‑19)

No final do segundo debate, em 2:20, o profeta já chega a uma solução. Não é uma solução de todos os seus problemas - seu povo ainda seria destruído pelo exército cruel da Babilônia. Sem dúvida ainda houve muito que o profeta não entendia. Mas as duas dúvidas principais sobre a Pessoa de Deus foram resolvidas. Ele reconhece, pelo menos implicitamente, a santidade de Deus e também a sua soberania. O Senhor habita no lugar "santo", porque Ele é santo, e o que Ele faz é santo, mesmo que não entendamos. Toda a terra cala-se diante dele, no reconhecimento da Sua soberania e poder. Não se fala nada perante a Pessoa que tem a Palavra final!

"O sempre presente "Porque?" é melhor respondido com o eterno "Quem?" (Blue)

"Estar debaixo do Senhor é estar sobre as circunstanc­ias" (Blue)

Perante isso Habacuque só tem uma resposta, a mesma resposta que encontramos em outros livros da literatura de sabedoria (Jó) - adoração e submissão! Esta é a solução do conflito entre o profeta e Deus.

Capítulo 3 é uma oração em que o profeta expressa sua confiança em Deus, em sua santidade e misericórdia, e na Sua soberania. É a declaração de fé do profeta. Tomara que seja nossa também.

A oração começa com uma declaração de confiança na Pessoa de Deus, justamente nas áreas onde anteriormente ele havia manifestado suas dúvidas! No vs. 2 ele termina dizendo, "Na tua ira, lembra-te da misericórdia". No início do livro, ele desafiava a ira de Deus contra o pecado. No segundo ciclo de debate, ele questionava a santidade e a bondade do Senhor. Mas na oração final, Habacuque apela justamente para estes dois atributos de Deus. Algo mudou no profeta! Está aprendendo a viver pela fé e não por vista.

Logo em seguida, nos vss. 3-16 o profeta recebe uma visão de Deus, em forma de uma teofania, que chama muita atenção para a soberania de Deus. Lembra-nos dos grandes atos de Deus no Êxodo, no deserto, na conquista, uma época em que o povo de Deus também sofria muito, e questionava o próprio Deus, mas em que Deus atuou de forma maravilhosa. Porém, o ponto alto da oração de submissão está no seu clímax, que é uma das expressões mais sublimes de fé de toda a Bíblia.

Mas antes, precisamos examinar o texto que precedeu toda essa oração de fé, a declaração de 2:4 "O justo viverá pela sua fé"

No contexto, o versículo nos dá uma resposta ao problema do mal. Uma das armas que Deus usa contra o mal é a própria vida de fé dos crentes! Nós combatemos o mal pelas nossas vidas retas, justas e fiéis! O justo (crente) se estabelece através de sua vida de fidelidade (firmeza, perseverança). Ele não vacila nas tempestades. Quanto maior a têmpora mas nos agarramos no Senhor!

Mas o versículo expressa mais que isso. Mostra a necessidade de um homem viver sua vida não adivinhando os propósitos de Deus neste mundo, mas descansando no Seu caráter já provado. Deus É bom. Ele É santo. Ele É justo, e soberano, e Ele mostra Seu amor-fiel. Baseado nisso, podemos viver uma vida de fé e fidelidade, e não por vista. Podemos viver acima das circunstâncias, sem ter todas as respostas, porque Deus é suficiente para nós. Podemos descansar sabendo que Deus acertará todas as injustiças.

Viver não por vista, mas pelas coisas invisíveis, é O DESAFIO da vida cristã. Seria bom lembrarmos de alguns outros versículos que expressam esta ideia: Hb.11:1 Rm.8:18 2 Co.4:17,18

Com este pano de fundo em mente, podemos "por os pés no chão" e ler cp. 3:16-19. Aqui descobrimos as implicações reais desta vida de fé. O que Habacuque descreve são as realidades de um sítio contra seu povo, a destruição total de tudo que valorizava. Mas não importava. Porque o profeta já aprendeu a viver não pelas circunstâncias, mas pela fé; não por vista, mas pelas invisíveis; não pela auto-suficiência, mas pela suficiência de Deus. Deus era tudo para ele. Podia descansar na sua bondade, soberania, santidade, e, sim, amor-fiel.

O livro que começou com desafio, termina com dependência; começou com frustração, terminou com fé; começou com reclamação, terminou com a solução das suas dúvidas.

Aplicações

1) Expressar suas dúvidas a Deus, mas resolver suas dúvidas em Deus

2) Examinar se está tentando manipular Deus nas orações; será que Ele está mais interessado em ME transformar, do que em transformar as minhas circunstâncias?

3) Viver uma vida que enfrenta e combate as forças do inimigo (do mal) através de uma vida santa, reta, e fiel

4) Viver com confiança no caráter de um Deus bom, santo, e soberano, e não pelas circunstâncias ao meu redor.

5) Em meio às dificuldades, espere e confie no Senhor!

Será que você está frustrado com a cena da peça em que está agora? Decepcionado com Deus e com suas circunstâncias? Você tem duvidado do amor-fiel de Deus em sua vida? Deus está trabalhando, embora talvez atrás da cortina . . . o trabalho dEle não terminou ainda! Este mundo não é nosso lar! Mas temos que viver esta realidade pela fé.

Deus e tão REAL na minha vida que eu posso viver pela fé, ainda que tudo falte? Posso viver não pelas circunstâncias, não pelas vistas, mas pela dependência total nEle? Deus é suficiente? É tudo para mim?

A Grande Ideia: Ainda que tudo falte, confie no Senhor! Ou talvez em outras palavras,

"Na hora de maior decepção, confie no Senhor."

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