• Pr. Davi Merkh

A Universidade de Descanso (Sl 131)

Atualizado: Ago 6


Como professor, sempre gostei de dar provas. Espero que não seja porque quero ver a angústia no rosto dos meus alunos. Pelo contrário: entendo que provas são uma excelente oportunidade tanto para o professor como para o aluno revelar o quanto aprenderam da matéria.

O Salmo 131 oferece um vestibular para o que chamo “A Universidade de Descanso” para o povo de Deus. Se você responder “Sim” a qualquer uma das perguntas a seguir, você é candidato para matricular-se nesta universidade divina:

1. Você luta com ansiedade, preocupação ou medo?

2. Às vezes você sofre de insônia, com sua mente correndo a todo vapor?

3. Você tem dificuldade em parar e descansar, por conta de tantas atividades e responsabilidades que tem?

4. Você reluta em dizer “Não” quando outros solicitam tarefas a você?

5. Você é perfeccionista? Tem dificuldade de admitir falhas quando outras pessoas criticam ou corrigem algo que você fez?

Salmo 131 é um dos salmos mais breves, simples e lindos em todo o hinário de Israel. Embora seja rápido de ler, talvez seja um dos mais difíceis a viver.

SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar;

não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.

Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma;

como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe,

como essa criança é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.

Contexto

O título do Salmo diz, “Cântico de Degraus” ou “Cântico de Romagem”. Faz parte da coleção de Salmos 120-134, cantados enquanto o povo de Israel subia para uma das três festas obrigatórias da Páscoa, Pentecostes e de Tabernáculos em Jerusalém. Os peregrinos em caravanas cantavam esses hinos, que entoam sobre a proteção de Deus na viagem (Sl 121), a cidade amada de Jerusalém (Sls 122, 125, 128), a importância do lar (Sls 127, 128) e a esperança do povo em Deus (Sls 130, 131).

O sobrescrito do Salmo 131 também afirma que Davi o escreveu, sendo então como uma mini-autobiografia ou testemunho da vida dele, em que ele reconhece como Deus acalma aquele que confia nEle.

Vários títulos têm sido sugeridos para esse salmo: “O Segredo de Paz Interior” (Anderson); “Salmo de Confiança e Humildade” (Leupold); “Harmonia de Humildade” (Wyrtzen); “Crescimento na Graça” (Schofield); “Calma em Deus” (Bíblia Anotada); “A Humildade do Salmista” (Bíblia Século XXI).

A Universidade de Descanso do Salmo 131 oferece duas matérias que culminam na mensagem do Salmo, que é “O verdadeiro descanso só vem quando descanso no Senhor.”


I. Primeira Matéria: Princípios de Entrega (Sl 131.1)

SENHOR, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar;

não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.

O Salmista-Professor começa apresentando seu currículo. Só que, diferente de muitos no mundo acadêmico, que listam credenciais e diplomas, ele destaca o que ele NÃO era e NÃO fez. Como parte do seu testemunho, afirma que ele havia aprendido a abrir mão de ambição pessoal e toda a atividade frenética que caracteriza pessoas inquietas, ansiosas e auto-preocupadas. O verdadeiro descanso só vem quando entregamos nosso “ego” e descansamos no Senhor.

O salmista abnegou-se do seu orgulho e da ambição. A palavra traduzida “soberbo” também foi usada para descrever o Príncipe de Tiro que “elevou seu coração” contra Deus, dizendo, “Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento” (Ez 28.2, 5, 17). Muitos acham que o texto se refere ao próprio Satanás. Orgulho, soberba e arrogância nasceram no céu quando Satanás, o “anjo da luz”, quis colocar seu trono acima do trono de Deus. Mas têm seu destino no inferno.

A segunda parte do versículo explica em que sentido o salmista havia entregue seu orgulho ao Senhor. Ele deixou de ser ambicioso, à procura de posição, poder e privilégios além daquilo que o Senhor queria lhe entregar.

Não é errado sonhar grandes sonhos, desde que sejam os sonhos do Senhor e para Sua glória. Quando o foco está em nós mesmos, nossa projeção, fama, reputação e performance, ultrapassamos os limites. Esse sonho transforma-se em pesadelo que pode ferir a muitos e roubar a glória do Senhor (Sl 115.1). Como os construtores da Torre de Babel, o grito de guerra do ser humano ambicioso é “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegeu até aos céus, e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra” (Gn 11.4). Nabucodonosor, o rei que se tornou boi (Dn 4.30ss) e Herodes, que foi comido por vermes (At 12.21-23), descobriram a opinião divina sobre o orgulho e a ambição humana.

Salmo 75.4, 5 ecoa essa ideia:

Digo aos soberbos: ‘Não sejais arrogantes’; e aos ímpios: ‘Não levanteis a vossa força. Não levanteis altivamente a vossa força, nem faleis com insolência contra a Rocha.’

Orgulho e ambição têm algo em comum: Ambos são egocêntricos. O orgulho se gaba de algo que eu fiz ou sou. A ambição se promove pelo que fará ou será. Ambos roubam meu descanso, pois EU preciso proteger ou projetar minha imagem a todo custo.

Encontramos exemplos bíblicos positivos e negativos do que o salmista ensina sobre a entrega do ego e o descanso no Senhor. Jacó foi um homem ambicioso, sempre enganando e manipulando os outros para conseguir o que Deus havia lhe prometido dar pela graça. Passou anos de sua vida como fugitivo, lutando com Deus e com os homens sem nunca encontrar o verdadeiro descanso nas promessas do Senhor.

O próprio Rei Davi, autor desse salmo, aprendeu a esperar pela bênção do Senhor, especialmente depois de ter recebido a promessa do trono, mas sendo constantemente perseguido pelo orgulhoso e ambicioso Rei Saul. Davi recusou usurpar para ele, no tempo dele, o que Deus queria lhe entregar depois. Conseguiu descansar na soberania e graça de Deus.

Muitos entre nós seguramos uma máscara dourada em que tentamos projetar uma imagem impecável diante dos outros. Mas com tempo, descobrimos que aquela máscara é pesada demais. No fim, só causa desgaste e exaustão. Defendemos nossos “direitos” e nossa reputação. Mantemos uma imagem de perfeição. Reagimos mal a qualquer crítica. E ficamos decepcionados conosco mesmos quando não atingimos o alto (e inalcançável) padrão que estabelecemos para nós mesmos. Deixamos de entregar nosso ego para encontrar o mesmo descanso no Senhor que Jesus nos oferece:

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11.28-30).

II. Segunda Matéria: Esperança Avançada (Sl 131.2,3)

Depois da primeira matéria “Princípios de Entrega” na Universidade de Descanso, o salmista nos matricula em uma segunda que podemos chamar “Esperança Avançada”.

Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma;

como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe,

como essa criança é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no SENHOR, desde agora e para sempre.

O texto começa com um contraste forte: “Pelo contrário”. O lado oposto do orgulho e da ambição é uma dependência não de mim mesmo, mas do Senhor. Exige verdadeira humildade reconhecer que EU não posso, mas Ele, sim: Confia no Senhor de todo teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento (Pv 3.5).

Encontramos nesses versículos uma das mais lindas figuras de linguagem em toda a Bíblia. Davi compara seu descanso no Senhor ao descanso de uma criança nos braços de sua mãe. Quando diz “fiz calar” usa um termo que se refere à terraplenagem de um campo desnivelado (Is 28.15). Tem a ideia de tornar algo “liso”. Podemos pensar em ondas do mar que de repente são acalmadas (Mc 4.37-41). Davi descreve a agitação de um espírito frenético que de repente encontra descanso.

O salmista ilustra a ideia descrevendo sua alma como uma criança desmamada, que encontra repouso e segurança nos braços da mamãe. Note que ele não se compara a uma criança mamando, mas desmamada; ou seja, sendo satisfeita não pelo leite que a mãe lhe oferece, mas pela própria mãe. A criança desmamada encontra descanso no que a mãe É, não no que a mãe DÁ; é a própria mãe – seu caráter, sua história de fidelidade e provisão amplamente demonstrada – que acalma a criança agitada.

Todos nós já temos visto crianças assim, talvez dormindo no colo da mãe em meio à agitação de um ônibus ou trem do metrô lotados. O salmista não nega a realidade de agitação, caos, angústia e preocupação ao nosso redor. Mas sugere que existe bonança em meio à tempestade, um porto seguro, um lugar de descanso. Temos um bom Pai que nos acolhe e em Quem podemos descansar. Para encontrar descanso, precisamos correr até Ele e descansar em Seus braços, confiando em Seu caráter, Sua fidelidade e Sua provisão. Ele é honrado e glorificado, assim como os pais de uma criança que pula na cama deles em meio a uma tempestade, quando corremos até Ele em meio às tribulações da nossa vida.

Versículo 3 conclui com uma exortação para esperar no Senhor, somente no Senhor. Embora direcionada especificamente para Israel, podemos extrapolar a ideia para o “povo de Deus”. Esperamos no Senhor quando confiamos nEle, descansamos nEle e O aguardamos para nos dar o que Ele acha necessário e no momento oportuno. Curiosamente, nunca nos formamos dessa escola de descanso; continuamos matriculados “de agora para sempre”.

Quando lutamos com ansiedade, insônia, angústias e preocupações; quando somos tentados a segurar aquela máscara dourada, projetando e protegendo uma imagem “perfeita”; quando sofremos diante de críticas ou imperfeições, precisamos lembrar o que disse A.W. Tozer: “Ficar decepcionado consigo mesmo significa ter acreditado em si mesmo.” Muito melhor seria matricular-se na Universidade de Descanso e aprender a entregar nosso “ego” e esperar unicamente no Senhor. O verdadeiro descanso só vem quando descanso no Senhor.

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