• Pr. Davi Merkh

Prega a Palavra (2 Tm 4.1-8)

Atualizado: Ago 20


Últimas palavras... Tendem a revelar os sentimentos profundos de uma pessoa enquanto expressam sua última vontade.

Dizem que P. T. Barnum, grande empresário, expirou depois de perguntar “Como foram as entradas hoje em Nova Iorque?”


A última palavra de Napoleão foi “Josefina...!”

Leonardo da Vinci ecoou o lamento de todo perfeccionista quando disse no leito da morte, “Eu ofendi a Deus e a humanidade, porque meu trabalho não atingiu a qualidade necessária.” Talvez as últimas palavras mais irônicas foram faladas por General John Sedgwick em 1864, na Guerra Civil dos Estados Unidos. Advertido para não se expor demais enquanto mirava o inimigo de um morro alto, ele respondeu, “O inimigo não conseguiria acertar um elefante a essa dist...!” Foi atingido por uma bala de um sniper e faleceu.

O estudo de últimas palavras de grandes homens e mulheres da Palavra de Deus também revela muito sobre suas paixões e a vontade de Deus para nós:

Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15b)


Estevão: “Senhor, não lhes imputes este pecado” (At 7.60)


João: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20)


Pedro: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.”(2 Pe 3.18)


Jesus: “Ide, fazei discípulos” (Mt 28.18-20; cp Mc 16.15; Lc 24.46-48; Jo 20.21; At 1.8)

O Apóstolo Paulo também deixou últimas palavras, sob a inspiração do Espírito de Deus, que ressoam pelos séculos como as ordens de um grande general para um soldado fiel, o jovem ministro Timóteo:

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos,

pela sua manifestação e pelo seu reino:

PREGA A PALAVRA,

insta, quer seja oportuno, quer não,

corrige, repreende, exorta

com toda a longanimidade e doutrina (2 Tm 4.1,2)

Paulo poderia ter falado muitas outras coisas antes da sua morte. Ele poderia ter desafiado seu filho na fé a:

-alimentar os pobres

-construir edifícios

-melhorar sua autoestima

-inaugurar um movimento

-entreter audiências

-promover conferências de gerenciamento, administração e crescimento de igrejas

Mas sua preocupação principal, e o desafio final que dá ao jovem ministro Timóteo (e a nós), foi a dedicação à proclamação fiel da Palavra de Deus.

Prega a Palavra. Fácil dizer, difícil cumprir. Não consigo imaginar uma tarefa "debaixo do sol" que exija tanto de uma pessoa. Requer estudo diligente, criatividade, imaginação, autodisciplina, vigor físico, humildade, dependência do Espírito, ousadia, coragem e muito mais. Quando lembramos que representamos o Criador do universo perante homens pecadores, a pressão aumenta ainda mais. Que responsabilidade! Que privilégio ser arauto do Criador do universo em sua comunicação com suas criaturas! Por isso dizemos que aquele que proclama “Assim diz o Senhor!” deve fazê-lo com temor e tremor!

Ao longo dos séculos, as pessoas têm tentado substituir a centralidade da explicação e aplicação da Palavra de Deus (definição sucinta do que é “exposição bíblica”, ou seja, a pregação). Vivemos em dias em que novamente, alguns têm procurado suplantar a pregação simples da Palavra de Deus com outras técnicas mais populares. Como comenta o autor e pastor John Piper:

Pessoas marginais e desiludidas são atraídas para os experimentos que substituem a pregação. Normalmente, isso dura alguns anos. E depois morre. Enquanto isso, a pregação continua de década a década e de século a século. Por que? Porque Deus criou e designou esse único e ungido meio de ministrar Sua Palavra para a explicação e celebração da Sua glória e Seu valor.[1]

Quando o Apóstolo Paulo expressa essa sua última vontade no último capítulo da sua última carta, ele oferece pelo menos cinco razões porque devemos nos dedicar de corpo e alma à tarefa de proclamar as palavras vivas de um Deus vivo para pessoas carentes de vida.

1. Por causa da realidade do julgamento final. (1)

Conjuro-te perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino… (2 Tm 4.1)

De forma solene, Paulo leva Timóteo diante do Tribunal Divino, onde faz um juramento sério diante do Juiz de todo o universo. Essa preparação para a exortação central do texto (“Prega a Palavra”) faz com que lembremos de que TODOS terão que se apresentar diante de Deus e prestar contas da sua vida.

Os “vivos” são aqueles que creram na Palavra e abraçaram Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador. Para eles, o Tribunal (Bema) de Cristo será um momento de avaliação das suas obras para receber (ou não) galardões (2 Co 5.10; Rm 14.10-12; 1 Co 3.12-15).

Os “mortos” são aqueles que ainda não confiaram em Cristo Jesus para o perdão dos pecados. Se eles não se arrependerem, também serão julgados, só que diante do Grande Trono Branco do Senhor (Ap 20.11-15). A pregação pode ser o meio de leva-los à vida verdadeira.

À luz da realidade desse encontro pessoal de TODOS com Deus, Paulo clama a Timóteo para pregar com urgência e compaixão, porque fazendo assim iria preparar homens e mulheres para seu encontro final com Deus. Cada oportunidade de compartilhar a Palavra de Deus em um devocional, culto doméstico, culto infantil, lição de Escola Bíblica, estudo em grupos pequenos ou pregação representa uma chance de equipar homens e mulheres, crianças e adultos, para o momento em que comparecerão diante do seu Criador. Nada pode ser mais importante que isso.

2. Por causa da suficiência dinâmica da Palavra (2)

Prega a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta

com toda a longanimidade e doutrina (2 Tm 4.2; 3.15,16; 2 Pe 1.3)

A segunda razão porque Paulo exorta à dedicação e proclamação fiel da Palavra é porque ela é suficiente para realizar de forma dinâmica tudo que Deus espera.

A ordem central do texto, “Prega a Palavra”, emprega um termo que significa “declarar, anunciar, manifestar” (κήρυξον). “Pregar” não se restringe ao púlpito. Como o próprio Paulo fez, a Palavra pode e deve ser anunciada de casa em casa assim como em plataformas públicas (At 20.20). Somos chamados para anunciar as palavras do Senhor e não as nossas. Fujamos do nosso “achômetro”! Anunciemos com fidelidade a Palavra de DEUS.

O termo “insta” (ἐπίστηθι) traz a ideia de urgência; como um soldado às ordens do seu comandante, estamos sempre atentos para oportunidades de declarar sua vontade aos combatentes.

Nem sempre será fácil. Como o profeta Jeremias, às vezes somos chamados a anunciar a Palavra de Deus diante de grupos hostis. Mesmo na igreja, essa “espada de dois gumes” (Hb 4.12) pode cortar tanto o ouvinte quanto o pregador. Por isso, o ministro de Deus tem que ser fiel, quer seja oportuno, quer não (εὐκαίρως ἀκαίρως, ou seja, “em bons tempos ou tempos ruins”), i.e. quando conveniente e quando inconveniente, quando bem recebido e quando não.

Aqui Paulo ressalta o tema da suficiência da Palavra que já ventilou ao longo da sua epístola. Ele motiva a proclamação da Palavra como o foco do nosso ministério porque a Palavra é suficiente e dinâmica para cumprir os propósitos de Deus. Alguns versículos antes, Paulo já havia lembrado Timóteo de como essa Palavra o fez sábio para salvação desde a infância e que ela é “inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça”. A Palavra nos equipa para toda boa obra e nos esculpe para sermos cada vez mais parecidos com Jesus (2 Tm 3.15-17).

O dinamismo e a suficiência da Palavra para efetuar transformação duradoura é enfatizado novamente no versículo 2: Ela corrige (ἔλεγξον), repreende (ἐπιτίμησον) e exorta (παρακάλεσον). Ela não volta vazia (Is 55.11) e nos fornece tudo que precisamos para uma vida piedosa (2 Pe 1.3).

De todas as tarefas ministeriais que podemos realizar, a principal é a proclamação da Palavra de Deus, seja em público, seja “de casa em casa”, sempre conforme os oráculos de Deus, para a glória de Cristo. Pedro ressalta a mesma ideia quando diz, “Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus... para que em todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (1 Pe 4.11).

3. Por causa da dificuldade dos últimos tempos (3,4)

Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos, e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.

Versículo 3 começa com mais uma razão (“pois”) porque devemos nos apegar à Palavra e não às nossas opiniões. Podemos resumir dizendo que devemos proclamar a Palavra de Deus HOJE porque amanhã será mais difícil! Paulo profetiza um tempo em que os ouvintes irão cada vez mais “empilhar” (ἐπισωρεύσουσιν) mestres conforme seus desejos malignos. Ou seja, farão uma “coleção” de mestres que dizem exatamente o que querem ouvir e não o que precisam ouvir. Sentirão um incômodo como se fosse uma coceira que precisa ser atendida (κνηθόμενοι τὴν ἀκοὴν – coçando o ouvido), como se “a voz do povo” fosse “a voz de Deus” (cp 2 Tm 3.1-5; 1 Tm 4.1-5; Cp Ez 34.1-12; Jr 23.25-32).

Se alguém achar que é difícil anunciar as palavras de Deus no mundo hostil que nos cerca, anime-se: Amanhã será mais difícil! Então, não espere! Dedique-se à ministração da única Palavra capaz de penetrar a escuridão de corações endurecidos pelo pecado.

É importante notar que quem estabelece a “agenda” da pregação é Deus, não o mundo. O Criador sabe as reais necessidades do ser humano, sejam “sentidas” ou não. Por isso pregamos TODO O DESÍGNIO DE DEUS, assim como o Apóstolo Paulo (At 20.20, 27) mesmo que o povo não goste e não queira. Claro que existe a necessidade de sabedoria humana ao escolher, com muita oração, os textos a serem expostos. Mas em vez de pular de texto em texto a cada semana, a pregação sistemática da Palavra de Deus, versículo por versículo, capítulo por capítulo, livro por livro, oferece a vantagem de expor o povo de Deus a toda a vontade de Deus. Evita-se assim o perigo do pregador ser tendencioso e bitolado no ensino da Palavra.

4. Por que fazendo assim cumpriremos cabalmente nosso ministério (5-7)

Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé (2 Tm 4.5-,7)

Mais uma vez, a solenidade dessas últimas exortações de Paulo nos chama à seriedade do ministério. Não somos humoristas fazendo stand-up diante de uma audiência que logo estará de pé diante do seu Juiz. Nosso foco não é entretenimento mas entendimento; não é diversão mas transformação. Claro que humor pode fazer parte do ministério da Palavra; há muitos textos bíblicos onde ironia e paradoxo provocam sorrisos nos leitores (veja Jo 12.10; Pv 11.22; Ex 2.9). Mas “ser sóbrio em todas as coisas” (νῆφε ἐν πᾶσιν) contrasta com o que os falsos mestres faziam quando se entregavam às disputas fúteis, novidades e palhaçadas.

Para cumprir cabalmente nosso ministério, precisamos pregar a Palavra até o fim. Paulo emprega quatro metáforas que juntas descrevem uma vida desprendida e totalmente gasta (leia-se: investida) em prol da pregação do Evangelho. Esse é o “trabalho de evangelista”, que inclui a pregação do Evangelho tanto para vivos como para mortos (Rm 1.15) e mesmo em meio às aflições. Cada metáfora nos estimula a seguir o exemplo de Paulo, que foi fiel até o fim. O ministério fiel dos “veteranos” pregadores da Palavra nos inspira e motiva a completar nossa corrida:


-de deixar nossa vida ser como uma libação (σπένδομαι), ou seja, uma oferta líquida em que nada sobrava para o ofertante (veja Fp 1.27);

-de enfrentar corajosamente a partida (τῆς ἀναλύσεώς) desse mundo, assim como um barco saindo do porto, sabendo que quem maneja bem a Palavra da verdade não será envergonhado quando alcançar o porto celestial (2 Tm 2.15);

-de combater o bom combate (ἀγῶνα ἠγώνισμαι), uma referência a uma grande batalha ou luta atlética. Paulo havia “deixado tudo em campo” e podia voltar ao vestiário sem nenhuma dúvida se ele poderia ter dado um pouco mais;

-de completar a carreira (τὸν δρόμον τετέλεκα), ou seja, de perseverar na maratona

cristã (cp At 20.24; Hb 12.1,2).

Mais uma vez, as últimas palavras do Apóstolo nos encorajam a persistir fielmente na ministração da Palavra de Deus e não a nossa. Essa é a chave de um ministério aprovado por Deus. Seremos avaliados não pelo número de talentos que temos (Mt 25.14-30), o tipo de serviço que desenvolvemos (Mt 10.40-42) ou o tempo de ministério (Mt 20.1-16) mas, sim, pela perseverança (Hb 10.35.36; 1 Co 9.24-27; 15.58) e pela fidelidade (1 Co 4.1,2; Mt 25.21,22; Lc 16.10-12).

5. Por que existe um galardão guardado para os servos fiéis (8)

Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda (2 Tm 4.8).

O parágrafo termina com uma última motivação para uma vida dedicada à proclamação da Palavra de Deus: Existe um galardão não somente para Paulo ou Timóteo, mas para todos os que fielmente ministram a Palavra à luz da volta iminente de Jesus! (1 Co 15.58; Hb 6.10).

Mais uma vez, lembramos da exortação que Paulo fez no capítulo 2: “Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Somente o ministro aprovado pode amar a vinda de Jesus! (cp. 1 Jo 2.28; 1 Co 9.27). Para isso é necessário “manejar bem” essa Palavra. “Manejar bem” traduz uma única palavra original (ὀρθοτομοῦντα) que traz a ideia de “cortar direito”, semelhante ao que acontece quando enfiamos os dedos para abrir um ponkan e entregamos os gomos para serem saboreados.. Significa “abrir” a Palavra de tal forma que seu sentido é entendido e aplicado pelos ouvintes – que é a essência da “exposição bíblica” e a proclamação da Palavra.

A maneira de explicar e aplicar a Palavra pode variar muito, de cultura a cultura, de época a época, de idade a idade. O que não muda é a essência de repartir a Palavra de Deus para o povo de Deus para que Deus seja glorificado.

Por isso pregamos a Palavra! Pregamos a Palavra quando aconselhamos. Pregamos a Palavra quando evangelizamos. Pregamos a Palavra nos cultos domésticos. Pregamos a Palavra quando confrontamos amigos e inimigos. Pregamos a Palavra quando lecionamos. Pregamos a Palavra quando confortamos os enlutados. Pregamos a Palavra quando explicamos e aplicamos a Bíblia semana após semana no púlpito.

Podemos resumir o texto dizendo que O servo de Cristo anuncia a Palavra de Cristo até seu encontro com Cristo!

Prega a Palavra. É a última palavra do Apóstolo Paulo, mas a primeira palavra para quem quer manejar a Palavra de Deus e completar fielmente seu ministério.

[1] John Piper, Expository Exultation, (Wheaton, IL: Crossway), p. 308.

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