• Pr. Davi Merkh

O Manifesto sobre Disciplina

Atualizado: 20 de set.


Manifesto Sobre Disciplina

Davi e Carol Sue Merkh

16 de dezembro, 2019


Diante da grande polêmica envolvendo questões sobre a disciplina de crianças, esclarecemos nossa compreensão do assunto à luz da Palavra de Deus. Para uma análise mais detalhada dos textos bíblicos relevantes, veja “A Família em Provérbios: Princípios de Disciplina” do nosso Comentário bíblico: Lar, família e casamento.[1]


A Situação Atual


*Reconhecemos, lamentamos e repudiamos a triste realidade de violência doméstica, maus tratos de crianças e adolescentes, abuso sexual, abandono e negligência.


*Entendemos que os governos do mundo têm como responsabilidade dada por Deus a proteção de seus cidadãos, inclusive as crianças; compreendemos a necessidade de leis inibindo práticas de violência, abuso etc.


*Ressaltamos a responsabilidade principal dos pais na educação dos filhos como garantido pelo Código Civil brasileiro, Artigo 1634 da Lei nº 10.406 de 10 de Janeiro de 2002 que diz:

“Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores:

I - dirigir-lhes a criação e educação;

II - tê-los em sua companhia e guarda;

III - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem...

VII - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.


*Percebemos, ao mesmo tempo, uma rejeição generalizada infeliz de práticas saudáveis de disciplina, inclusive corporal, por parte da sociedade em geral e da igreja, em particular.


*Entendemos que parte dessa rejeição deve-se a conceitos equivocados sobre a disciplina bíblica, à disseminação de conceitos humanistas contrários às Escrituras.


*Afirmamos a necessidade de uma perspectiva bíblica equilibrada, sábia e prática.


Textos Bíblicos Principais


A seguir, apresentamos alguns dos textos bíblicos principais que norteiam a questão de disciplina de filhos no lar. Embora a grande ênfase da Palavra de Deus recaia sobre o DISCIPULADO dos filhos, esses textos mostram a importância da DISCIPLINA no processo educacional no lar.


Filho meu, não rejeites a disciplina do SENHOR,

nem te enfades da sua repreensão.

Porque o SENHOR repreende a quem ama,

Assim como o pai ao filho a quem quer bem.

(Pv 3.11,12)


O que retém a vara aborrece a seu filho,

mas o que o ama, cedo o disciplina.

(Pv 13.24)


Castiga a teu filho, enquanto há esperança;

mas não te excedas a ponto de matá-lo.

[lit. “para matá-lo, não levantarás a tua alma”].

(Pv 19.18)


Homem de grande ira tem de sofrer o dano [lit. “multa”];

Porque se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo.

(Pv 19.19)


Os vergões das feridas purificam do mal,

E os açoites o mais íntimo do corpo.

(Pv 20.30)


Não retires da criança a disciplina,

pois se a fustigares com a vara, não morrerá.

Tu a fustigarás com a vara

e livrarás a sua alma do inferno.

(Pv 23.13,14)


A estultícia está ligada ao coração da criança,

mas a vara da disciplina a afastará dela.

(Pv 22.15)


A vara e a disciplina dão sabedoria

mas a criança entregue a si mesma [lit. “solta”]

vem a envergonhar a sua mãe.

(Pv 29.15)


Corrige o teu filho, e te dará descanso,

dará delícias à tua alma.

(Pv 29.17)


Visto como se não executa logo a sentença sobre a má obra,

o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal.

(Ecl 8.11)


E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira,

mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor

(Ef 6.4)


É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como a filhos); pois, que filho há a quem o pai não corrige? Mas se estais sem correção, de que todos se tem tornado participantes, logo sois bastardos, e não filhos. Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai dos espíritos, e então vivermos? Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que tem sido por ela exercitados, fruto de justiça. (Hb 12.5-11)



Credo


À luz dos textos bíblicos acima e diante de uma sociedade hostil à ideia de disciplina, afirmamos o que cremos à luz das Escrituras sobre disciplina no contexto do lar:


Cremos...

*Que a disciplina do pecado é uma das principais ferramentas que Deus usa para expor a natureza pecaminosa do ser humano e conduzi-lo até a salvação em Cristo Jesus (Pv 22.15; Pv 20.30).


*Que disciplina é necessária devido à natureza pecaminosa de TODA criança; a criança não nasce como uma tabula rasa que só precisa de treinamento positivo; a criança necessita de sabedoria que vem, em parte, da educação proativa e corretiva dos pais (Pv 22.15; Sl 51.5; Sl 58.3-5).


*Que disciplina bíblica tem o efeito principal de conceder sabedoria à criança – ou seja, de apontar e direcionar a criança “no caminho em que deveria andar” (Pv 22.6) de dar-lhe maturidade e a perspectiva do alto visando uma vida bem-sucedida da perspectiva divina (Pv 29.15).


*Que Deus ordenou que os pais fossem os principais instrumentos de disciplina na vida dos filhos (Pv 13.24; Ef 6.4).


*Que um mundo que “jaz no Maligno” (1 Jo 5.19) sofre das investidas satânicas para enganar os pais e privá-los da ferramenta de disciplina que expõe o coração e leva a Cristo (2 Tm 3.1-5).

*Que a falta de disciplina pontual leva à impunidade e, eventualmente, à destruição da sociedade (Ecl 8.11).


*Que disciplina sempre visa restauração e nunca vingança ou punição (Pv 29.15,17; Mt 18.15-20).


*Que a administração de disciplina corporal, assim como outras formas de disciplina, se restringe àqueles que a usarão de forma apropriada, sob medida, sem machucar, ferir ou prejudicar a pessoa sendo disciplinada e, sim, beneficiá-la (Pv 23.13,14).


*Que a dor, parte inerente e imprescindível do conceito de “disciplina”, deve ser administrada por pessoas responsáveis e dentro de padrões bíblicos e que pode ser uma grande bênção na vida da pessoa disciplinada (Pv 29.15).


*Que disciplina bíblica deve ser coerente, pontual (logo após a ofensa), restaurador e diligente (Pv 13.24).


*Que a disciplina bíblica deve ser PARTICULAR; seu propósito não é envergonhar a criança, muito menos expô-la de forma pública.


*Que a falta de disciplina por parte dos pais pode ser sinal de preguiça, indiferença, ignorância ou egocentrismo (Pv 3.11,12; 13.24).


*Que a falta de disciplina pode culminar na morte prematura do filho e até sua morte espiritual (Pv 19.18; 23.13,14).


*Que a decadência que prevalece no mundo atual, junto com a desobediência generalizada aos padrões bíblicos de educação de filhos, significa que muitos pais estarão equivocados na prática de disciplina e especialmente no exercício da disciplina corporal; por isso, torna-se necessário um treinamento e mentoreamento cuidadoso não somente sobre formas de disciplina bíblica como também princípios de discipulado familiar.


*Que a disciplina corporal deve ser exercida prioritariamente enquanto a criança ainda não desenvolveu uma capacidade de raciocínio abstrato para poder associar seus atos às suas consequências; ou seja, deve acontecer nos primeiros anos de vida.


*Que todas as formas de disciplina envolvem algum tipo de privação ou dor que sempre visa o bem da pessoa sendo disciplinada.


*Que a disciplina corporal deve ser administrada pelos pais, logo após a ofensa (e antes que eles mesmos fiquem irritados, irados ou fora de controle), através de um instrumento neutro, flexível e fino chamado “vara”, aplicada ao traseiro da criança (e não em outros membros do corpo menos “forrados”) sob medida, visando provocar um ardor temporário (sem deixar marcas ou contusões depois de alguns minutos) para alertar a criança ao perigo em que se encontra por causa do seu pecado.


*Que outras formas e medidas disciplinares têm apoio bíblico, inclusive e especialmente depois do desenvolvimento da capacidade da criança de associar pecado com suas consequências (raciocínio abstrato); esses métodos incluem:

-advertência (veja Gn 4.6, 7);

-admoestação verbal (Ef 6.4);

-multas e consequências naturais (Pv 19.19);

-a perda de privilégios (veja Gn 3.22-24);

-trabalho (Gn 3.17-19)

-restituição (Lc 19.8, cp Lv 6.2-5; Nm 5.5-7; Ex 22.9).

Resumo dos Princípios de Disciplina em Provérbios


Podemos resumir os princípios bíblicos de disciplina da seguinte maneira:

*A disciplina é uma expressão de amor.

*A disciplina tem que ser administrada com diligência e coerência.

*A disciplina visa restauração e correção, não punição.

*A disciplina segue instrução.

*A disciplina deve ser administrada com a vara nos primeiros anos da vida e com outros métodos depois.

*A disciplina é necessária por causa da natureza pecaminosa da criança.

*A disciplina corporal correta não prejudicará a criança.

*A disciplina pode levar a criança à fé e livrá-la do inferno.

*A disciplina dá uma vida tranquila e bem-sucedida à criança e aos pais.


O Processo de Disciplina


A Bíblia não traça os passos específicos que a disciplina bíblica deve seguir. Mas queremos sugerir elementos que podem e devem fazer parte, se não de todo caso de disciplina, pelo menos de muitas ocasiões em que a correção se torna necessária.


1. Ensinar os limites com ordens e proibições claras, em tom normal de voz e sem ameaça. (“Ameaça” significa uma consequência prometida que os pais não pretendem cumprir. Advertir o filho sobre consequências que ele pode esperar se continuar na desobediência não constitui uma ameaça. Veja Gn 2.16,17).


2. Esperar uma resposta verbal do filho (“Sim, mamãe” ou “Sim, papai”) depois de ter dado uma ordem. Exija obediência bíblica, ou seja, imediata, inteira (por completo) e interna.


3. Depois da ofensa, verificar com calma se houve mesmo desobediência e esclarecer a natureza da ofensa com a criança, em particular. Trabalhe a questão da raiz do pecado e não somente o comportamento (por exemplo, egoísmo, cobiça, ódio etc.). Essa é uma boa oportunidade para apontar para a Pessoa e obra de Jesus Cristo como solução para o problema do pecado em nós.


4. Explicar as consequências do pecado. Na medida do possível, essas consequências devem ser diretamente ligadas à ofensa, para que a criança associe o “crime” ao castigo. Quando isso não for possível, os pais devem providenciar explicações claras do motivo da disciplina.


5. Administrar a disciplina de forma apropriada, sem gritaria, ira ou excesso.


6. Verificar que a criança aceite a disciplina sem resmungar, espernear ou resistir. Permitir que ela chore, mas que expresse seu remorso ou tristeza de forma não escandalosa.


7. Esperar um pedido de perdão (e não “desculpas”; os pais terão de ensinar a diferença: Perdão se pede por ofensas propositais e pecaminosas; desculpas se pedem por acidentes. Eles também devem ensinar a importância de arrependimento e reconstrução de relacionamentos. O verdadeiro arrependimento virá acompanhado por restituição pelos danos provocados pela desobediência. Insista que seu filho restitua de forma justa os estragos de tempo, propriedade e reputação que provocou.)


8. Expressar seu amor pelo filho de forma apropriada (um abraço, um tempo juntos etc.).


9. Orar com seu filho.


10. Esquecer-se da ofensa e restaurar sua comunhão.


Sugestões


Podemos oferecer mais algumas sugestões práticas para os pais na disciplina dos seus filhos:

* Ensinar claramente os limites

* Distinguir entre irresponsabilidade (criancice) e rebeldia (pecado)

* Disciplinar rebeldia

* Ensinar quando houver irresponsabilidade

* Demonstrar amor e graça

* Não permitir que ele resista à vara, chore escandalosamente etc.

* Não permitir que ele responda de forma negativa ao ser disciplinado

* Disciplinar atitudes e não somente ações

*Ficar aberto para as explicações que ele der, desde que feitas de forma respeitosa

*Verificar que ele saiba aceitar correção ou se a criança sempre tem que ter a última palavra

*Aprender, você mesmo, a pedir perdão e aceitar correção quando necessário

[1] David J. Merkh, Comentário bíblico: Lar, Família e Casamento (SP: Editora Hagnos, 2019; cp. 18).

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