29 O Sinal da Aliança (II) Gênesis 17

O Sinal da Aliança (II)

Gênesis 17

Introdução: Segundo o livro de recordes mundiais de Guiness, Hetty Green era a pessoa mais miserável na história do mundo. Morreu em 1915, deixando uma herança avaliada em 95 milhões de dólares.  Ela comia aveia fria porque era despesa demais esquentá-la.  Seu filho teve que sofrer uma amputação de uma perna desnecessária, porque ela desperdiçou muito tempo procurando uma clínica gratuita.  Ela era rica, mais escolheu viver como uma miserável.  Era tão insensata que antecipou a sua própria morte por discutir o preço do leite desnatado.  Sua identidade como rica não modificou sua conduta pobre.

Contexto. Em Gn 17, descobrimos que a nossa riqueza como filhos de Deus deve afetar, sim, nossa conduta. Infelizmente, muitos cristãos sofrem de amnésia espiritual—não sabem quem são, nem o que tem em Cristo Jesus.   Gn 17 é a terceira vez que Deus vai ao encontro de Abrão para esclarecer algum aspecto da Promessa (Gn 12.1-3, Gn 15, Gn 17).  A promessa está cada vez mais detalhada, cada vez mais graciosa.  Elementos são acrescentados.  O que encontramos neste capítulo é a resposta do povo de Deus à graça de Deus!  É a graça dele que nos motiva, que nos inspira, que nos impulsiona.  Não somos dirigidos por culpa, mas graça.  Não somos motivados por religião, mas por relacionamento.   Não somos subjugados, como escravos, mas submissos, como filhos.  Como Pr. Mendes sempre destaca, as bênçãos que recebemos nos tornam cada vez mais devedores à graça de Deus.  Trabalhamos, não por culpa ou obrigação, mas por alegria e gratidão.

Transição:  Vamos descobrir neste texto quatro responsabilidades em resposta à graça de Deus. O texto se divide nestas duas partes. Vs. 4 começa “Quanto a mim” (os privilégios) e vs. 9 diz, “De sua parte” (NVI), as responsabilidades. Embora a promessa seja garantida pela Palavra de Deus, uma aliança incondicional, existem implicações na vida e fé do cristão. 

Grandes privilégios de aliança com Deus

implicam em grandes responsabilidades de intimidade com Deus.

I. SANTIDADE: Uma Vida de Comunhão (17.1,2)

A primeira resposta à graça de Deus é uma vida de comunhão com Deus que leva para uma vida santa diante de Deus.  Você não pode andar na luz sem perceber as manchas que o pecado produz.  Quem anda com Deus vive constantemente “ligado”com Deus—como hoje as pessoas ficam “ligadas” com o telefone celeular.  Os torpedos, mensagens, e conversas constantes refletem como deve ser nosso relacionamento com Deus.  Mas essa vida de comunhão também implica numa vida de santidade.  A palavra “perfeito” no texto é a palavra “íntegro”—não perfeito, mas todas as contas acertadas.  O telefone celular que nos mantém ligados com Deus também tem uma mini-câmera—Deus vê tudo que fazemos, e esse fato nos motiva a uma vida de santidade.  

Ilustração: Mendigo no restaurante... “Posso voltar a comer o lixo?”  (Quem tem a possibilidade de um banquete celestial não quer a porcaria do inferno.

II. DIGNIDADE: Uma Nova Identidade (17.3-8, 15-22)

Em resposta à revelação divina, Abrão adora a Deus (3).  Nesta altura Deus revela mais detalhes sobre Seu plano de abençoar Abrão, e como sinal da aliança, muda os nomes daqueles envolvidos.

Os nomes são mudados para representar sua nova identidade (1,4,5).

Nomes são muito importantes neste capítulo, pois representam novas revelações sobre o caráter de Deus e seus “negócios” com homens.  Existe um novo nome para cada pessoa envolvida na aliança, representando uma nova identidade ou pelo menos perspectiva de vida ou caráter: Deus, Abrão, Sarai, Isaque. No vs. 1, Deus é conhecido como:-O SENHOR (Yahweh), o Deus da aliança, fiel; -Deus Todo-Poderoso (Shaddai), ou seja, o Deus alto (da montanha), forte e suficiente.  Ele é capaz de cumprir Suas promessas! Ele é SUFICIENTE.  Abrão, não precisa “dar um jeito” ou “quebrar galho” para Deus, como tentou fazer em Gn 16.

“Abrão” significa “Pai exaltado, e provavelmente olha para trás, para o pai de Abrão, Terá.  Mas agora, a perspectiva da promessa é outra, e olha para frente.  Abraão vem de duas palavras que trazem a idéia “Pai de uma multidão”. Sarai/Sara = princesa (15,16).  A mudança de nome nas Escrituras representa uma mudança de identidade e destino.  Por isso, algumas religiões até dão um novo nome quando a pessoa se batiza.  Representa uma nova identidade.  A nova identidade implica numa nova dignidade.

Ilust.: É assim com nossos nomes familiares.  A conduta dos filhos e bis-netos, gostando ou não, reflete nos pais e avós.  Penso, por exemplo, no meu sogro e sogra e o nome “Cox” (43 anos no Brasil).  O nome representa uma tradição familiar, valores familiares, e cada descendente tem o privilégio e a responsabilidade de viver conforme a dignidade dese nome.

Ilust.: Alexandre o Grande (Mude seu nome, ou mude seu comportamento).

Vs. 9 “De sua parte” ou “quanto a você”...traz a idéia da dignidade como sócio, parceiro da aliança.

Agora, Abrão terá que comportar-se  baseado nesta nova identidade. Ele e seus descendentes serão propriedade exclusiva de Deus, uma nação de sacerdotes (Ex 19.6). Haverá implicações para sua família: Ismael, o primogênito, o único filho, passará para segundo plano. Note nos vss. 17-20 que Abraão defende o direito de Ismael como herdeiro, mas Deus deixa claro que Isaque, o filho que ainda iria nascer, é o filho da promessa.  Abraão terá que ajustar sua vida conforme o fato de ser pai de muitas nações.

Aplicação. Existem lições muito importantes para nós.  A mudança da nossa identidade por Cristo implica em mudanças de comportamento também.  Não sou mais o que era (veja 1 Co 6.9-11). Quem eu sou determina o que eu faço.  Para o cristão, o fato de sermos novas criaturas em Cristo (2 Co 5.17) muda tudo.  As exortações éticas/morais baseiam-se no fato da nova identidade, da graça de Deus.  Eu não sirvo a Deus para ser amado por Deus.  Sirvo porque sou amado.  Não contribuo para receber, mas contribuo porque já fui abençoado.  Não trabalho para receber uma graça merecida, mas trabalho pela graça não merecida mas que já recebi.  Tudo muda com essa perspectiva!  Sou cada vez mais devedor à graça de Deus!

Ser “cristão” significa ser um “pequeno Cristo”, um representante de Jesus, alguém em quem a vida de Cristo está sendo vivida (Gal 2.20): Sou crucificado com Cristo, logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.  A realidade desta identidade deve transformar radicalmente minha vida!

A nova aliança em Cristo provocou mudanças no nosso coração.  Não sou mais o mesmo. Não sou mais da sarjeta.  Não como lixo. Sou filho de Deus.

"Em Cristo" designa a nossa posição: Onde Ele está, nós estamos

define o nosso privilégio: O que Ele é, nós somos

descreve as nossas posse: O que Ele tem, nós temos

determina a nossa prática: O que Ele faz, nós fazemos.     

Aplic.: O que te motiva na vida cristã?  Graça ou culpa?  Relacionamento ou religião? Submissão ou sujeição? Medo ou amor?  Ser filho, ou escravo?  Trabalhar por quê ou para quê 

III. FIDELIDADE: Uma Vida de Lembrança Contínua da Aliança (17.9-14, 23-27)

As alianças (promessas) divinas normalmente vem acompanhadas de sinais (vs. 11 “sinal”).  O sinal serve como lembrança das promessas e obrigações do pacto.  Talvez pelo fato de que o ser humano é muito esquecido, que nossa tendência é de reclamar, resmungar, e não lembrar como Deus tem sido presente em nossas vidas, Ele ordena a lembrança da Sua fidelidade através de sinais da aliança.

Por exemplo, depois do Dilúvio, nos deu o Arco-Iris.  Quando resgatou o povo de Israel do Egito e instituiu a Constituição (10 mandamentos), colocou lembranças dentro da arca da aliança.  No NT, Jesus instituiu batismo e, especialmente a Ceia do Senhor, como memoriais ou sinais da aliança, nossa nova vida na Nova Aliança.  São lembranças constantes ou repetidas de que temos uma aliança com Deus, que Ele é fiel.

Circuncisão foi dada como o sinal da aliança.  Embora não fosse único para o povo de Israel (os árabes, por exemplo, também praticam a circuncisão, só que, como rito de passagem, de moço para adulto, Deus estabelece essa prática como uma lembrança contínua do pacto que Ele mesmo “cortou” com Seu povo. 

O queé circuncisão?  A palavra significa “cortar (“cisar”) em volta, ao redor  (“circun”)”.  É um procedimento em que parte da pele no pipizinho do menino é cortada, normalmente nos primeiros dias de vida, deixando, assim, uma marca contínua na pele.Parece algo muito estranho.  Porque Deus usaria esse sinal?

1)    Seria uma lembrança contínua da aliança “cortada” por Deus com Seu povo—uma forma de auto-maldição (cp. 15.17): “Seu eu não for fiel...que eu seja cortada da comunidade de Deus”.

2)    Seria um ato de consagração de pureza moral. (As outras culturas usavam a circuncisão como rito de passagem no início da puberdade, representando a potência sexual do jovem.  Mas para o povo de Israel, o significado foi mais na ordem de purificação, separando um membro do corpo muito envolvido em imoralidade e idolatria).  Um ato exterior que representa uma realidade interior (Dt 10.16,30.6; Rom. 2:28-29; cf. Rom. 4:11Jer. 9:26; Ezek. 44:7-9).; cp. A A Nova Aliança.  Jr 31.31-34; Rm 2.28-29; Rm 4.9-12; Gl 6.15).  Mostraria que o povo de Deus era propriedade exclusiva de Deus, separado para Deus—“serei o seu Deus” (7b, 8b)

3)    Representaria a promessa de um herdeiro, a semente—só Deus pode suprir o que precisamos (lembrança: Deus é suficiente, Deus é fiel); Representaria a inclusão dos filhos na aliança (nota a ênfase em gerações e descendência—9, 10).  A aliança era com os pais E os filhos.

Parêntese: Porque só homens?

*São os representantes da raça.                                         

*Sinal da liderança masculina (Deus os responsabiliza pela transmissão da fé.)

*Sinal da origem e transmissão do pecado e da promessa.

Aplicação: Deus ainda nos chama para lembranças contínuas da aliança que temos com Ele em Cristo.  Celebramos a fidelidade dEle sendo fiéis a Ele.  Essa fidelidade manifesta-se em:

            *gratidão         *obediência     *sem reclamar, resmungar, guardar mágoas.

Parêntese: Como aplicar a idéia da lembrança contínua da aliança hoje?  Há debate sobre o sinal da Nova Aliança.  Os aliancistas (presbiterianos) entendem que as promessas feitas para Abraão foram CONDICIONAIS e PERPÉTUAS somente se o povo obedecesse os termos (andar com Deus, ser perfeito e praticar a circuncisão, ou seja, consagração total a Deus).  Para eles, Israel foi infiel, e por isso perdeu os benefícios da aliança.  Mas a igreja tomou o lugar de Israel, e herdou as promessas ESPIRITUALMENTE.  Diriam que o batismo é o novo sinal da participação da aliança, e por isso batizam infantes, mostrando que pertencem à aliança, à comunidade da fé.  Mesmo assim, é necessário ter fé (depois) para o rito externo representar um fato interior.

De fato, a posição é lógica e coerente, uma vez aceitas as premissas básicas sobre israel e a Igreja.  Mas, será que a aliança era “presente de índio”, que Deus pegou de volta?  Será que a igreja é Israel?  Será  que as promessas são espirituais/figurativas? 

Um problema é que o batismo não é uma lembrança contínua, como circuncisão, e não é explicitamente associada como sinal da Nova Aliança.  Além disso, nunca é praticado na Bíblia com infantes como circuncisão. 

Batistas e outros cristãos têm uma outra posição.  Entendem que as promessas feitas para Abrãao foram INCONDICIONAIS E PERPÉTUAS baseado na fidelidade de Deus; as condições (andar com Deus, ser perfeito, etc.) são respostas esperadas à graca de Deus e que possibilitam o pleno desfruto das promessas.  Deus sabia que Israel seria infiel, e não oferece uma promessa oca.  A igreja é, de fato, da família de Abrão no sentido espiritual, mas nem por isso herda as promessas feitas para Abrãao.  Entendo que o sinal da Nova Aliaça é a Ceia do Senhor, uma lembrança contínua de que Jesus instituiu um novo pacto em seu próprio sangue .  A Ceia do Senhor, assim como circuncisão, traz uma lembrança contínua do que foi feito por nós.  É identificada como sendo o sinal da nova aliança no sangue de Jesus (1 Co 11.25 Este cálice é a nova aliança no meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim).

Parêntese: [Circuncisão foi o sinal da aliança entre Deus e a família de Abraão.  Embora ainda seja praticada por várias culturas, e tendo alguns benefícios médicos, não há nada nas Escrituras que exige a prática para o cristão hoje.  Não somos participante da aliança de Deus com Abraão, a não ser pelo fato de que somos abençoados pela vinda de Jesus na família dele.  O que Deus requer de nós é circuncisão de coração, ou seja, uma atitude de transformação do nosso interior, porque pertencemos a Cristo.  Assim, a circuncisão de coração está relacionada à Nova Aliança, feita no sangue de Jesus.]

IV. CONFORMIDADE: Resposta Imediata, Inteira e Interna à Vontade de Deus (23-27)

Note que Abraão não hesitou em cumprir a ordem do Senhor.  Vss. 23-27 relatam a obediência imediata dele, em conformidade com os termos da aliança.  Abrão foi fiel aos termos da aliança.  É isso que Rm 12.1,2 nos desafia: E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

            -Foi uma resposta imediata (no mesmo dia) (23): caracterizava a vida de Abraão (cp. Gn 12.4, 21.14, 22.3 e o sacrifício de Isaque...ese homem pisava na bola às vezes, mas não tem como questionar o coração obediente dele, que tanto honrava a Deus.  (Quantas vezes, sabemos que Deus quer que façamos algo, mas demoramos.)  Obedecer quando quer é fácil.  Mas, e quando não quer?

            -Foi uma resposta inteira (27): Abraão circuncisiou a TODOS, assim como Deus havia ordenado.  Posso imaginar a resposta de todos, mas o exemplo do velho patriarca falava mais alto... com 99 anos.  Imagine quando tentou convencer seu filho de 13 anos....seus servos...Mas não havia nenhuma negociação, nenhum meio termo.

            -Foi uma resposta interna, de coração.  Na última análise, é só isso que vale diante de Deus.  A circuncisão só vale como rito externo quando acompanhada pela atitude de quebrantamento interno.  Esse fato está implícito no texto, mas realmente faz parte deste ato, como outros textos deixam claro:

            Dt 10.16 Circuncidai, pois, o vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz.

            Rm 2.28-29 Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne.  Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.     

O que é circuncisão de coração?  É a idéia de consagração humilde e total a Deus, e que envolve um espírito quebrantado, dependente, comprometido com Deus.

Aplicação: 

1) Será que temos um coração circuncidado?  Humilde? Quebrantado?  Ciente da fraquea, e totalmente consagrado a Deus?  Ou arrogante....nunca pede perdão, aponta dedo no nariz dos outros, critica e reclama?

2)    Que padrão estamos deixando para nossos filhos?  Será que estamos ensinando um padrão de

obediência ou de desobediência, ensinando auto-suficiência, independência, ou de compromisso total com Deus?

3)    Que exemplo estamos deixando de obediência nos desafios constantes de obediência?

            *Dízimo e oferta                    *Instrução no lar                  *Comunicação direta

            *Disciplina dos filhos*Ansiedade                             *Evangelismo

Aplic.: Nunca podemos esquecer de que somos o povo da aliança, propriedade exclusiva de Deus.  1 Pe 2.9 nos lembra que somos um povo comprado, como propriedade exclusiva de Deus.  Somos motivados pela graça, não por culpa; relacionamento, não religião; submissão, não sujeição, amor, não medo.

Conclusão:

Hetty Green tinha uma fortuna e escolheu viver como miserável.  E nós?  Temos uma aliança com o Criador do universo, que derramou o sangue do seu filho por nós, para que fossemos feitos filhos de Deus.  Como, então, viveremos?  Comendo lixo?  Como soldados covardes, desonrando o nome de Cristo, ou dignos do nome “cristão” pela dependência dEle?

4 respostas à graça de Deus que fez uma nova aliança conosco:

1)   Santidade (comunhão constante com Deus)

2)   Dignidade (um novo nome, uma nova identidade)

3)   Fidelidade (aos termos da aliança, ao Deus da aliança)

4)   Conformidade (Obediência imediata, inteira, interna)

Idéia: Grandes privilégios de aliança com Deus implicam em grandes responsabilidades de intimidade com Deus.