Jonas

 

                                                                                  O Paradoxo de Graça Estocada (Jonas)

Pr Davi Merkh

 

Certa vez, enquantonossa família estava viajando, nossa casa aqui foi arrombada. Não perdemos muito, mas ganhamos algumas conversas interessantes com nossos filhos.  Eu me lembro quando um dos nossos filhos falou o que ele faria se um ladrão entrasse de novo em nossa casa.  "Pai, se um ladrão entrar aqui, eu mato!" ele exclamou.  Tentamos explicar para ele que o ladrão era uma pessoa que precisa saber de Jesus.  Tínhamos a responsabilidade de apresentar Jesus para ele.  "Tudo bem, Papai" ele respondeu.  "Então, primeiro o senhor fala de Jesus para ele, e depois eu mato!"

 

Aquela atitude não é muito diferente do que tem acontecido ao longo da história do cristianismo.  A Inquisição, as Cruzadas, e mesmo a evangelização feita por aqueles que colonizaram o Novo Mundo foi mais ou menos assim. 

 

Masexiste uma história na Bíblia que mostra esta mesma atitude vindo de um profeta do Senhor.  O nome dele é Jonas, e a história dele tem muito a ver com a nossa.

 

O problema em Jonas é o que eu chamo o "paradoxo de graça estocada".  "Paradoxo" é uma figura de linguagem que une conceitos aparentemente incompatíveis.  Muitas vezes há uma contradição de termos, mas mesmo assim, entendemos o significado. Por exemplo, frase ou descrições como "amargo-doce", "um silêncio barulhento" ou "amigo secreto" refletem paradoxos compreensíveis.

 

Oparadoxo em Jonas é a "graça egoísta" ou "graça estocada”: Uma contradição de termos, que não faz sentido mas que entendemos melhor que gostaríamos de admitir.  Graça é dada para ser repartida!

 


Jonasexemplifica o paradoxo de graça estocada. O livro não é como os outros livros proféticos. Sua experiência é a mensagem.  A vida do profeta transmite o recado do livro. 

 

Para entendermos melhor a mensagem do livro, precisamos nos contextualizar dentro do seu contexto histórico e literário:

Israel. Opovo de Israel foi chamado para ser uma bênção para todos os povos da terra, para ser sal e luz, o farol do mundo atraindo pessoas para o único verdadeiro Deus.  Mas vez após vez, o povo de Israel deixou de assumir sua posição como embaixador de Deus às nações.  Na sua prosperidade, o nacionalismo, patriotismo, orgulho, e auto-satisfação o levaram a "estocar" a graça de Deus para si mesmo.

 

Nínive.  Israel não somente estocou a graça de Deus, ele a escondeu.  Ao longo da sua história chegou ao ponto de não querer que os odiados gentios descobrissem essa graça, especialmente os de Nínive.  Nínive era capital de Assíria, inimigo do povo de Deus, um país cruel, idólatra, imoral.  Quando Jonas foi chamado para IR para este povo tão sujo, tão nojento, ele preferia  morrer ou fugir para não ter que pregar.

 

Estrutura.  Neste livro de somente 48 versículos, compactos e objetivos, encontramos dois princípios em dois atos que poderão transformar as nossas vidas.  São as duas comissões do profeta nos cps 1,2 e 3,4.  Cada princípio se encontra num ato de duas cenas.  Um princípio trata da natureza humana egoísta, enquanto o outro revela o amor de Deus.  Precisamos entender ambos para podermos ir ao campo com a motivação certa. 

 

Mensagem:Deus quer que nós nos encontremos na pessoa de Jonas, e que vendo esta figura ridícula e absurda, vejamos a nós mesmos.  Neste livro o diamante do amor paciente, incondicional e perseverante do nosso Deus brilha contra o contraste do fundo preto do nosso egoísmo, indiferença, orgulho e apatia, Somente quando entendermos a natureza do coração do homem e o amor de Deus é que poderemos "ir"com a motivação correta. A culpa é um péssimo motivador. Missão é muito mais o amor de Cristo derramado no coração do crente do que uma "atividade crista"!   

 

A graça de Deus, Seu amor para conosco, é a única motivação que pode garantir mudanças radicais, mudanças permanentes em nossas vidas.  Vamos ver no livro de Jonas 2 lições preciosas, "princípios principais" para a obra de missões, que nos darão a base que precisamos para fazermos discípulos. 

 

 


I.  Primeiro Ato: A Tendência Natural do Homem é para Egoísmo e Indiferença Espiritual (Jonas 1,2)

Ex. 19:6, Gn. 12:1-3

 

A.  Primeira Cena: O Paradoxo da Graça Estocada (cp. 1)    

 

Precisamosentender o coração humano. O problema é que somos egoístas. Somos egocêntricos.  Durante toda  nossa vida a carne luta contra o espírito.

 

1.  O Princípio de Identificação:  O livro de Jonas é como um espelho, em que cada um de nós vê seu próprio reflexo.  Jonas nos apresenta o paradoxo da graça estocada para mim mesmo, e é justamente isso que Deus repudia.  Quando guardamos graça para nós mesmos, fica patente que nunca realmente a compreendemos.

 

O livro é extremamente irônico, justamente para “tirar sarro” da atitude egoísta do colecionador de graça.  Note algumas das ironias no livro:

a) Jonas foge de um Deus onipotente (1:3, 9)  (Tarsis está na direção oposta de Nínive.)  O problema é que a ortodoxia de Jonas foi muito melhor que sua “ortopraxia”! 

 

Também somos incoerentes.  Cremos que Deus vê tudo, sabe tudo, está sempre presente, mas isso não impede que tentemos fugir dele no nosso namoro, nos programas que assistimos, no tipo de conversa que temos quando pensamos que ninguém vê, nas coisas que fazemos “no escuro”.

 

b)  Todos no livro (mar, tempestade, marinheiros pagãos, peixe, ninivitas, os animais de Nínive, o sol, a planta, o verme,  etc.) obedecem a Deus, menos o profeta de Deus

 

Àsvezes o crente é assim também.  Você já teve a experiência de ter um colega de escola, ou talvez um vizinho, ou colega de serviço, que se converteu sem saber que você era crente, e de repente ele começa a falar de Jesus para você?  De repente você fala, "Mas José, eu também sou crente!" E ele responde, "Se você é crente, porque nunca falou para mim? Você me deixaria ir para o inferno sem falar de Jesus?"  Às vezes o povo de Deus é menos coerente que os “pagãos” ao nosso redor.

 

c)  Enquanto os marinheiros pagãos oram, o profeta de Deus dorme.  Mais uma vez o livro goza da fé sonolenta do crente.  Jonas dormia enquanto pessoas ao seu redor estavam um passo de uma eternidade no inferno.

 

Étão fácil isso acontecer.  Ficamos tão ocupados com nossa vida, trancados dentro no nosso mundo particular,  que nem percebemos as pessoas ao nosso redor. 

 

d)  Enquanto os marinheiros fazem tudo o que está ao seu alcance para proteger a vida do profeta, ele joga a vida deles em risco.

 

e) Enquanto os marinheiros fazem votos, Jonas quebra o seu (de ser um profeta leal, fiel a Jeová)

 

f)  O profeta prefere morrer a ver outros viverem.  Esta é o auge de incoerência.  Um momento, Jonas prefere ser jogado na água e morrer afogado do que pregar para os Ninivitas.  Logo depois, está orando da barriga do peixe por salvação. 

 

g)  O profeta pregador fica bravo quando vê uma cidade inteira tomar uma decisão ao lado de Deus.

 

Qual o ponto?  Jonas era incapaz de ministrar a graça de Deus aos outros, porque ele mesmo havia perdido a perspectiva sobre seu chamado, sobre a obra de Deus e a graça de Deus.

 

Isso nos ensina uma lição importante sobre a graça de Deus.  Não é para ser colecionada ou estocada, como antiguidades, ou selos, ou moedas.  Diferente que alguns investimentos, o valor da graça aumenta na medida em que ela for compartilhada com outras pessoas.  Quanto mais ela é repartida, mais preciosa fica.

 

Jonasprecisava aprender esta lição.  Precisava apreciar a graça de Deus derramada na vida dele, antes que ele fosse testemunhar para os outros.  Deus ensina esta lição na segunda cena do primeiro ato, em cp. 2.

 

B.  Segunda Cena: O Poder de Graça Soberana (cp. 2)

Jonas precisava entender que Deus nos ama, mesmo quando merecemos julgamento.  Sua bondade nos leva ao arrependimento.  Jonas foi um missionário ruim, que foi ao campo simplesmente para justificar a condenação dos ninivitas ao inferno.  Mas, quando ELE precisou da misericórdia de Deus, a história foi outra!

 

Veja o egoísmo na oração de Jonas, e quantas vezes ele se refere a si mesmo em 9 versículos do segundo capítulo—mais de 20 vezes! No ventre do peixe ele mesmo experimentou um pouco do que queria que acontecesse com Nínive.  Mas veja a conclusão da oração: "Ao SENHOR pertence a salvação!" (2.9)  Esta é a mensagem do livro!  Note que todos os capítulos terminam com salvação. Foi isso que Deus queria que Jonas entendesse!  Desde o Jardim, Deus está trabalhando para redimir seres humanos pela Sua graça.  A nossa tarefa, o nosso privilégio, a nossa oportunidade como crentes, é de sermos cooperadores com Deus nesta maravilhosa tarefa de resgatar homens.  Mas primeiro precisamos ver a nossa própria necessidade.

 

Deus nos persegue com laços de amor.  Deus nos ama tanto que não permitirá que fiquemos perdidos na rotina de uma vida sem propósitos.  Será que vemos o tremendo amor de Deus para conosco?  Será que encaramos nosso coração tão egoísta? Somente quando entendemos o que Ele fez por nós é que poderemos compartilhar a graça dEle para outros, motivado não pela culpa, mas pelo amor.

 

II. Segundo Ato: O Amor Sobrenatural de Deus é a Única Esperança para Egoísmo e Indiferença Espiritual (Jonas 3,4)

 

A. Primeira Cena: A Graça de 'Segundas Chances' (cp. 3)

 

Culpa é uma motivação fraca para missões/evangelismo.  Jonas foi um missionário com motivação errada.  Foi para Nínive para justificar a destruição deles.  Não queria sua salvação.  Queria promover sua própria reputação como pregador de fogo do que instrumento de reconciliação.

 

Quem de nós não faz a obra de Deus com motivação errada às vezes?  A graça de Deus fornece a motivação que precisamos.

 

1.  Uma Segunda Chance para Jonas (1)

 

Deus é um Deus de novos começos, de segundas chances.  Quando caímos, Ele nos levanta.  As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manha.  Grande é a tua fidelidade." (Lm 3.22,23 ) A graça de Deus foi mais que abundante na vida do profeta, quando deu-lhe uma nova chance de cumprir Sua vontade!

 

2.  Uma Segunda Chance para Nínive.  Deus nos chamou para plantar sementes, molhar plantas, e, às vezes, colher frutos.  Nunca sabemos quando Ele vai nos usar para transformar uma vida.  Evangelismo e missões constituem um processo.  Jonas não sabia o que o esperava em Nínive.  Mas, Deus, sim.  O povo da cidade perversa recebeu uma segunda chance.  Nosso Deus, que não quer que ninguém pereça, que não tem prazer na morte de ninguém, procura qualquer "desculpa" para derramar graça sobre o ser humano.  Devemos ser fiéis no ministério que Deus nos deu, pois nunca sabemos os resultados que colheremos.


 

B. Segunda Cena: O Amor de Deus pelos Perdidos (cp. 4)

 

Infelizmente, para Jonas, demorou ainda mais para “a ficha cair”.  Ainda estava cheio de si, da sua própria reputação, do seu ego.  Então Deus lhe ensinou mais uma lição sobre Seu amor pelos perdidos.

 

Nesta altura é interessante responder a pergunta, “Por que Jonas fugiu?”Por medo?  Não.  Muitos pensam assim, mas não foi por causa da crueldade dos assírios.  Jonas era um profeta em Israel, entre um povo rebelde.  Ele tinha coragem suficiente para enfrentar os ninivitas. 

 

Oproblema de Jonas foi egoísmo.  Ficava tão cheio de si mesmo que não enxergava as necessidades daqueles ao seu redor (veja 4:2).

 

Comoprofeta, Jonas zelava pela reputação dele.  Jonasnão queria ir para Nínive, porque sabia que Deus era tão bondoso, que provavelmente iria salvá-los, e as palavras dele cairiam para o chão.  Ele não queria proclamar condenação, só para ver Deus mais uma vez estragar a mensagem-- e sua festa!

 

Aoutra razão porque Jonas fugiu é porque ele não quis salvação para os inimigos de Israel. Ficou contente com sua própria salvação, mas não queria que os outros a encontrasse.  Ele queria a graça de Deus para si mesmo e para Israel, mas não para os outros.

 

Imaginemosum diálogo entre Deus e Jonas sobre essa questão de misericórdia e graça, depois do arrependimento dos ninivitas...

 

Jonas: Eu sabia que seria assim.  Este é o problema, Senhor.  O Senhor sempre dar uma segunda chance!  Estou até aqui com esta história de graça barata. O que quero ver é fogo--sabe, um Deus terrível. 

 

Deus: Mas Jonas, não foi assim que te tratei. 

 

Jonas: Mas foi diferente no meu caso.  Sou um dos escolhidos.  O Senhor sabe, Seu povo Israel.  O Senhor TEM que nos tratar bem.

 


Deus: Bom, sempre falei que julgamento deve começar com a casa de Deus. . .

 

Jonas: Bem, pode ser, mas também sou profeta.  Eu sou Seu homem, seu porta-voz.  A minha tarefa é pregar condenação.  Tua parte é mandar fogo...

 

Deus: Mas Jonas, você fugiu de mim. Você me desobedeceu, e ignorou os meus mandamentos. Sabe, Jonas, alguns dos anjos aqui ainda não entendem porque eu não mandei um tubarão te pegar.  Mas o amor que tenho por ti é muito grande.  E, Jonas, eu amo o povo de Nínive do mesmo jeito.

 

Noclímax do livro, vemos a ironia deste profeta tão incoerente.  Jonas está sentado fora da cidade, chorando por causa de uma planta que murchou, enquanto deseja a destruição de milhares de pessoas, muitas delas crianças, e animais, com valor inestimável. Imagino que esta cena fez um “replay” na mente do profeta centenas de vezes nos anos seguintes.  E deve ecoar em nossas mentes e nos nossos corações também, porque nós somos assim também.  Somos como Jonas!

*Temos mais compaixão do nosso jardim, do sistema de som, da nova bicicleta, do carro, dos nossos bichos de estimação, do que das pessoas perdidas ao nosso redor.

*Choramos muito mais sobre as novelas de TV, ou de uma baleia presa no gelo no Pólo Norte

 

Então, o que Deus espera de nós?  Podemos alistar algumas aplicações práticas tiradas do livro de Jonas:

*que sondemos nossos corações para ver a forte tendência para egoísmo e indiferença, e que clamemos para que Ele nos dê um coração sensível

*que nos mergulhemos no amor e na graça dAquele que dá a segunda e terceira e quarta chances

*que entendamos que Jesus ama as pessoas ao nosso redor tanto quanto nos ama, e que ele não quer que façamos uma coleção da Sua graça

*que sejamos sensíveis às inúmeras oportunidades de compartilhar o amor de Cristo aonde você formos.

 

Somente a graça sobrenatural de Deus é capaz de esquentar o coração do homem e motivá lo a compartilhar o amor de Cristo às pessoas ao seu redor!