Natal Segundo Lucas: Um Berço Humilde

Natal Segundo Lucas: Um Berço Humilde

Pr. Davi Merkh 

"Underdog"—é uma gíria em inglês que literalmente significa "cachorro de baixo".  Traz a idéia de uma briga entre dois cachorros, em que um está ganhando e paira sobre o outro, ameaçando-o e rosnando.  A frase "underdog" normalmente aplica-se ao mundo de esportes--o time que aparentemente tem menos chance de ganhar o jogo é o “underdog”.  Algumas pessoas são habitualmente torcedoras pelo "underdog", provavelmente por que dá uma euforia todo especial, quando o inesperado acontece e o time favorito é derrotado.   

Foi mais ou menos isso que aconteceu nos Jogos Pan-Américanos em Indianápolis nos EUA quando Brasil ganhou dos EUA em basquete e trouxe ouro para casa.  

Deus também torce pelo "underdog”--os menos privilegiados, não-nobres, não-ricos, não-bonitos, não-famosos (1 Co 1.26-31).  Deus é um Deus do menosprezado, esquecido, fraco, pobre.   

Se existe um livro da Bíblia onde esta verdade fica muito evidente, é o livro de Lucas.  Lucas é o evangelho do indivíduo, do menosprezado, do "underdog".  É o livro em que Jesus é gente, o filho do homem, compassivo, que preocupa-se com indivíduos, pessoas que talvez o mundo esqueceu.  É o evangelho que conta histórias sobre um baixinho menosprezado chamado Zaqueu; sobre jovens rebeldes como o filho pródigo; sobre pessoas marginalizadas como o (Bom) Samaritano; sobre crianças, velhos e mulheres, pessoas na periferia da sociedade durante o ministério de Jesus. 

Mas se existe um evento na Bíblia onde a graça de Jesus se derrama sobre pessoas simples, humildes, e aparentemente insignificantes, é a história do primeiro Natal, o nascimento de Jesus, conforme registrado no livro de Lucas.  Tudo que cerca o primeiro Natal revela que Deus torce pelo "underdog".  Precisamos enxergar com novos olhos estes eventos natalinos e as pessoas envolvidas para realmente apreciar o fato de que Deus importa-se conosco. 

No Natal, a graça de Deus se derrama sobre pessoas simples e humildes de coração.  

Gostaria que olhássemos para 5 dos personagens principais envolvidos no nascimento de Jesus, no relato de Lucas, para descobrir um pouco do coração de Deus que tanto favorece o humilde de coração. . . 

1.  Maria (Lc 1:26-28, 38) 

Quem Deus escolheu para ser a mãe do infante Jesus?  Poderia ser sido Cleópatra ou alguma princesa de nobreza; talvez uma rainha, ou um membro da elite ou da alta sociedade; talvez a noiva de um senador romano; ou a esposa do sumo-sacerdote.   

Mas foi uma mocinha camponesa, simples, de Nazaré, vilarejo de, no máximo, 2000 pessoas, lugar desprezado do norte de Israel... 

Temos que ler este relato com novos olhos, e tentar imaginar como seria a história do primeiro Natal em nossos dias. Existem MUITAS diferenças culturais entre nosso contexto de vida e o Novo Testamento.   

Conforme estatísticas da Folha de SP, a mulher brasileira casa-se pela primeira vez entre 20 e 22 anos, e bem mais velha com cada degrau de escolaridade que sobe.  Mas na cultura judaica do Novo Testamento, uma jovem casava-se com 12 a 14 anos.  Na nossa cultura, a gravidez fora do casamento está se tornando algo normal.  Naquela cultura, baseado na lei do VT, a moça podia ser morta pela infidelidade e promiscuidade (Dt 22:20-21) antes do casamento. 

Como mulher, jovem, solteira, Maria não tinha praticamente nenhum estatus em Israel.  Mas foi ela que Deus chamou de "muito favorecida" (vs. 28) e bem-aventurada para todas as gerações. 

Precisamos reconhecer a incrível humildade das circunstâncias do nascimento de Jesus.  A própria Maria reconhece isso no "Magnificat", o hino de exultação que ela cantou junto a Isabel. (1:46-48a;  52,53).  Maria reconheceu sua própria condição simples, humilde.  Ela ecoa o princípio que encontramos em 1 Pd 5:5-7  "Rogo igualmente aos jovens: Sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a sua graça.  Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte."  (cf. Tg 4:6,7) 

Temos que reconhecer que a graça de Deus estende-se para pessoas consideradas simples pelo mundo!  Louvado seja Deus que Ele nos escolheu!  É isso que lemos em 1 Co 1:26-31. Nada em nós merece Sua graça, muito pelo contrário.  

2.  José (Lc 2:1-7; 24) 

Assim como no caso de Maria, não foi um membro da aristocracia que Deus escolheu para ser o pai terrestre do menino Jesus.  Não foi Herodes, nenhum senador romano ou membro nobre da alta sociedade que Deus encarregou com essa responsabilidade, mas para um pobre carpinteiro, com calos nas mãos e sujeira nos pés. 

Ao considerar a escolha de mais uma pessoa simples, José, para fazer parte do elenco do primeiro Natal, devemos notar o contexto cultural que faz parte do palco desse drama divino... 

Lugares Humildes.  Temos que lembrar que Israel naqueles dias era um lugar pequeno e insignificante no rol de nações daqueles dias.  Talvez hoje seria como Guiana Francesa ou Haiti o lugar do nascimento de Jesus—não Paris ou Nova Iorque. 

    1.  Nazaré era uma vilazinha quase esquecida no norte de Israel. Nunca foi mencionada no VT, nem nos escritos de Joséfo, historiador da época.  Natanael, discípulo de Jesus, exclamou uma vez sobre Nazaré, "De Nazaré pode sair alguma coisa boa?" (Jo 1:46).   

    2.  Belém: Talvez tivesse 2000 pessoas no máximo.  Miquéias 5:2 ressalta sua aparente insignificância: "E tu, Belém Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." 

    3.  A Manjedoura: Conforme muitas tradições, a manjedoura não passava de uma caverna cavada no morro. O filho de Deus nasceu no lugar mais humilde imaginável, e talvez colocado n uma valeta no chão para palha e alimento animal!  Ratos, moscas, aranhas, esterco, palha molhada e mofada, lugar escuro, animais . . . Porque Deus não permitiu que Seu Filho Santo nascesse num hospital esterilizado e limpo, em vez de uma favela fedida? Porque Ele queria que toda a humanidade, de “baixo” para “cima” identificasse com ele. 

"Num berço de palhas, humilde nasceu,

Jesus pequenino, sem ter nada seu.

Estrelas brilharam no pobre lugar

Que para o menino servia de lar." 

Profissão Humilde.

Embora sua profissão de carpinteiro fosse digna, foi relativamente insignificante.  José era trabalhado com braços forjados pelas horas cerrando, lixando planando madeira com ferramentas primitivas. Suas mãos ásperas cheias de calos sabiam trabalhar para poder alimentar sua pequena família. 

Ele era homem justo que vivia conforme a lei, mas também homem bom que, embora permitido pela lei, não queria envergonhar a Maria ou a família dela com um divórcio escandaloso (ou até mesmo a morte dela) pela aparente infidelidade de Maria. 

Tudo indica que era um homem pobre. 

   1) Não tinha condições de obter um quarto em Belém para sua esposa (dinheiro, para os que têm, abre portas mesmo quando não há lugar na hospedaria!)

   2) Não tinha condições para oferecer uma ovelha e uma pomba, mas somente duas pombas, na ocasião da apresentação de Jesus no Tempo (Lc 2:21-24)

   3) Provavelmente precisava receber os presentes dos magos para poder sustentar a família no Egito. Se há uma lição para nós, é que com Deus não há acepção de pessoas! (Tg 2:1-5) Não há celebração ou “culto” a personalidades famosas ou ricas, atletas, cantores, atores, etc.  Cada ser humano, cada pessoa, cada alma, tem valor infinito diante de Deus, pois cada um é um reflexo da SUA imagem (Gn 1.27, 9.6). 

3.  Os Pastores (Lc 2:8-17) 

Algumas pessoas costumam enviar um anúncio do nascimento de um bebê. Mas notem para quem Deus envia o anúncio do nascimento do Salvador do Mundo...para pastores menosprezados da redondeza! 

Os pastores provavelmente cuidavam dos rebanhos sendo preparados para sacrifício na Páscoa. Eles ocupavam as regiões ao redor de Jerusalém (Belém seria menos de 15 km de Jerusalém).  (O fato de que apascentavam à noite talvez signifique que era uma época fora do inverno . . . ).  Eram pessoas extremamente simples, geralmente pobres, muitas vezes menosprezadas pela "elite" da sociedade (talvez por não poderem participar de vários cultos religiosos por causa da sua imundícia ceremonial).  Mesmo assim, parecem ser homens piedosos, fieis. 

Provavelmente eram jovens.  Uma tradição do Oriente Médio ditava que o filho mais jovem cuidava dos rebanhos, especialmente quando a família também tinha uma fazenda.  Assim foi o caso do caçula (e futuro rei) Davi. 

É incrível pensar que os anjos apareceram para estes!  Não para os sacerdotes, levitas, fariseus e saduceus tão próximos em Jerusalém.  Não para o prefeito-administrador de Belém.  Não para Quirino governador da Síria, ou Herodes o Grande, ou César Augusto!  Não para ricos e nobres mas para os favelados fiéis de Belém! 

Assim podemos destacar algumas lições preciosas:1) A salvação de Deus estende-se para todos os homens, inclusive os mais simples, que Ele ama como quaisquer outros!2) Deus escolhe as coisas simples do mundo para confundir os “grandes” e para serem “troféus da sua graça” (Ef 2.1-10). 

4.  Simeão (Lc 2:25-35) e Ana (Lc 2.36-38). 

Diferente dos jovens pastores, Simeão foi um senhor de idade, piedoso mas insignificante para a maioria. Um homem que, diferente dos líderes políticos e religiosos da época, abastecidos e auto-suficientes na sua vida terrestre, esse homem esperava a consolação (salvação) de Israel.  Seus olhos estavam fixos no céu e não aqui na terra! Simeão reconhecia que era peregrino na terra. 

Da mesma forma, Ana era uma senhora de idade, que provavelmente tinha entre 84 e 105 anos (o texto pode ser lido para dizer que ela se casou com cerca de 14 anos, viveu 7 anos com o marido, e depois mais 84 como viúva; ou que simplesmente tinha 84 anos de idade.) 

Ana era uma mulher de adoração, totalmente dedicada ao louvor do seu Senhor.  Para o mundo, talvez, ela era "inútil".  Afinal de contas, não PRODUZIA nada de louvor—só ocupava espaço no Templo, adorando, jejuando e orando. 

Mas foi para esse “vovô” e essa “avó” que o Salvador do mundo foi apresentado. 

Infelizmente, quando valorizamos tanto a juventude, produtividade e atividade frenética, muitas vezes menosprezamos o que Deus mais valoriza: um espírito quieto, humilde, simples, que vive em comunhão constante com Deus.  Estes são os limpos de coração que verão a Deus; os humildes de coração de quem é o reino dos céus. Para esses Deus aparece. 

No Natal, a graça de Deus se derrama sobre pessoas simples e humildes de coração.  

Foi neste espírito que Jesus veio à Terra.  “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz (Fp 2:5-8). 

Jesus veio de forma humilde para dar graça aos humildes e permitir que o “underdog” fosse vitorioso.

"Num berço de palhas, humilde nasceu,

Jesus pequenino, sem ter nada seu.

Estrelas brilharam no pobre lugar

Que para o menino servia de lar."