Afiando o Machado

Afiando o Machado

(Abertura 35ª Conf. Miss. SBPV)

Prof. Davi Merkh

Conta-se a história de um jovem lenhador, forte, ambicioso, ansioso para mostrar sua grande habilidade em derrubar árvores.  Certo dia desafiou o campeão da firma, um senhor bem mais velho, a um concurso para ver quem derrubava mais árvores em um dia de trabalho. 

O jovem cortador começou atacando árvore após árvore com uma fúria jamais vista entre lenhadores.  O velho cortador também se aplicava à sua tarefa com toda a perícia que os anos de experiência haviam lhe concedido.  Mas o jovem deu risada quando lhe contaram que o velho lenhador parava para descansar de tempo em tempos  debaixo de uma árvore na floresta.  “É vitória certa para mim” pensou o jovem lenhador. 

Qual foi a surpresa quando, no final do dia, o jovem ofegante encontrou o velho lenhador tranqüilo, e com 2 vezes mais árvores cortadas que ele. Foi então que descobriu que em cada período de “descanso”, o velho e experiente lenhador estava afiando machado.

A moral da história: QUEM AFIA SEU MACHADO CUMPRE BEM SEU CHAMADO... 

Creio que essa história ilustra os dois aspectos principais do tema da nossa conferência missionária.  “Técnica e Dependência: Tenso Dualismo” diz respeito o equilíbrio que deve existir entre o preparo e o esforço humanos e a dependência divina na obra missionária.  Podemos dizer que ambos - o preparo técnico, e o descanso no Senhor da seara -“afiam o machado”. Foi o ex-presidente dos Estados Unidos, Abraão Lincoln, que disse certa vez, Se você me der 6 horas para derrubar uma árvore, vou gastar as primeiras 4 afiando meu machado. É essa idéia que encontramos nas observações sábias de Salomão em Eclesiastes 10.10: Se o ferro está embotado e não se lhe afia o corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito! 

Uma palavra de história: Em 1987, ano que chegamos no Brasil, COMIBAM reuniu 3000 pessoas em SP num evento que marcou uma transição entre América Latina ser um campo missionário para ser um celeiro missionário. Mas não foi o início da visão missionária brasileira.  Naquele ano, o SBPV já estava realizando sua 13ª conferência missionária! 

Missões têm sido uma marca dessa instituição desde sua fundação, quando Ari Bollback e Haroldo Reimer viram a necessidade de treinar BRASILEIROS para alcançar povos indígenas, ribeirinhos, centros urbanos e os confins da terra.  Cada ano a conferência tem destacado uma faceta do brilhante chamado “missões”.  Essa, a 35ª conferência, destaca o equilíbrio entre preparo e descanso, técnica e dependência. 

Nas Escrituras encontramos inúmeros textos que nos trazem equilíbrio nesta questão de preparo técnico junto com dependência do Senhor.  Existe uma linha tênue entre esforço diligente e descanso suficiente, entre habilidade e técnica humana e dependência da suficiência do Senhor. 

Nestas palavras de abertura, gostaria de sugerir um equilíbrio bíblico entre afiar o machado através de uma dependência do Senhor da seara, e o preparo necessário para se ter um machado eficiente na floresta do Senhor. 

I.             Afiamos o Machado pela Dependência do Senhor 

No movimento missionário é muito fácil cairmos num ativismo frenético como se tudo dependesse de nós. A urgência da tarefa chama todos que têm um coração realmente voltado para Deus, que bate como Seu coração bate pelos povos do mundo.  Mas se não tomarmos cuidados, entramos na síndrome do salvador no cavalo branco.  A obra do Senhor acaba tomando precedência sobre o Senhor da obra.  O urgente toma precedência sobre o importante.  Sendo assim, deixamos de lado tempo com o Senhor; descanso; tempo com a família. 

É interessante notar que a tensão entre “técnica” e “dependência” tem sido uma preocupação no movimento missionário brasileiro desde o início.  Naquele primeiro encontro COMIBAM em 87, foi produzida uma paráfrase de Zc 4.6 dizendo: “Não por dólares, nem por computadores, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”. 

Zacarias 4.6 Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.  (reconstrução do Templo) 

Jeremias 9.23,24 Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor. 

Sl 20.7 Uns confiam em carros, outros em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do Senhor nosso Deus. 

Sl 46.10  Aquietai-vos e sabei que eu sou o Senhor... 

Jo 15.5 Sem mim, nada podeis fazer... 

1 Co 2.1-5 Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus. 

II.          Afiamos o Machado pelo Preparo Adequado 

Mas não somos inativos neste processo.  Existe, sim, um esforço humano para preparar bem o machado e também o lenhador para realizar a obra do Senhor nos campos do mundo.  Encontramos o equilíbrio em textos como Fp 2.12,13 Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como realizar, segundo a sua boa vontade.  

A euforia de COMIBAM que deu ímpeto ao movimento missionário precisava amadurecer, para não enviarmos jovens despreparados, imaturos, inexperientes, sem machado, ou com machado cego, ao campo.  Imagine um estudante de medicina que, ao perceber a grande necessidade de atendimento de doentes, decide largar a escola de medicina para ir direto “ao campo”.  Cheio de boa vontade, disposição, e com sua faca mal-afiada em mãos, sai para salvar o mundo.  Mas, em vez de ajudar ele atrapalha a obra.  Em vez de salvar vidas, pode ser responsável pela morte de muitos. 

Ou pense num médico que nunca aperfeiçoa suas técnicas aprendidas na escola de medicina.  Nunca faz reciclagem.  Nunca , lê relatórios sobre novos procedimentos de atendimento dos pacientes.  Pratica medicina depois de 30 anos do mesmo jeito como fez quando saiu da escola.  “Funcionou no passado” ele pensa, “mudar porque?” 

Mas alguns levam o pêndulo para o outro lado.  Nunca param de afiar o machado.  No fim, ficam com uma lâmina totalmente gasta e inútil. Nunca chegam a lugar nenhum.  Já conheci alguns, inclusive que estudaram aqui, que só fazem um curso atrás do outro.  Bacharelado, mestrado, doutorado, pós-doutorado.  Curso de enfermagem, informática, inglês, mecânica, teatro e assim por diante.  Gostam do conforto dos estudos, do preparo, da falta de responsabilidade da vida acadêmica.    

Conforme o registro bíblico, Deus prepara bem os machados que serão usados em sua floresta. O preparo “técnico” não é desperdício de tempo! Pense comigo sobre o preparo de alguns grandes líderes bíblicos, que, no plano divino, passaram muitos anos “preparando o machado”: 

   Moisés: 80 anos de preparo, 40 no palácio de Faraó sendo educado para pensar que era alguma coisa; 40 anos no fundo do deserto aprendendo que não era nada; 40 anos aprendendo que Deus era tudo 

   Josué: Uma vida inteira como “Office-boy” de Moisés, até receber o bastão da liderança nos últimos anos de sua vida. 

   Davi: Anos a fio, esperando nos corredores, mas sendo treinado como pastorzinho, músico, atendente do rei, soldado, general até finalmente realizar a obra pela qual fora ungido muitos anos antes. 

   Jesus: 30 anos antes de assumir seu ministério de 3 anos.  Tanto tempo fazendo cadeiras e mesas, e o mundo a perecer!  Mas foi a idade em que o sacerdote no AT assumia seu ministério. 

   Paulo: O mesmo que falou que não dependia de eloqüência, teve uma formação formidável como vaso escolhido pelo Senhor.  DEUS NÃO DESPERDIÇA NADA NO PREPARO DOS SEUS SERVOS!           

   -Anos de aprendizagem na melhor escola rabínica da época, de Gamaliel           

   -Preparação técnica como fazedor de tendas para sustentá-lo na obra missionária pioneira           

   -Depois da conversão, mais 3 anos na Arábia, processando as verdades do cristianismo            

   -Apesar da sua dependência do Espírito e não da eloqüência humana, empregava todos os métodos lingüísticos disponíveis para garantir uma comunicação eficaz, inclusive lógica, citação de poetas e escritores contemporâneos, filosofia, metáfora, alegoria, e muito mais 

Gostaria de compartilhar algumas palavras de dois amigos missionários, ex-alunos, trabalhando em dois contextos totalmente opostos.  Escrevi para eles pedindo sua opinião sobre o tema da nossa conferência: Técnica e Dependência: Tenso Dualismo.  Representam dois campos bem distintos, mas clamam por obreiros com machados afiados!            

Curt e Marta Kirsch, MEVA, Roraima, entre os índios Yanomami durante quase 30 anos... 

Eu não tenho a menor dúvida de que quando se trata de missões trans-culturais, quanto maior a bagagem que a pessoa tiver e levar consigo, tanto melhor e mais bem preparada e sucedida ela será no seu ministério. Estudando...questões antropológicas há uma chance muito maior de se evitar os tais "choques culturais", não precisando passar muitas vezes por vexames ou situações constrangedoras. Um estudo lingüístico...facilita em muito o domínio de uma língua dessas...

Diria eu que seria imprescindível para alguém ir trabalhar num campo missionário trans-cultural esses dois fatores:

   Conhecimento cultural e Conhecimento lingüístico.

Esses dois aspectos são de vital importância para que uma pessoa se aculture e faça parte do povo que pretende alcançar. E, quanto maior for a identificação, tanto melhor será a propagação do Evangelho.

Além disso, quanto mais conhecimento e formação tiver, tanto mais útil será no trabalho.

Missionário não é aquele que não deu nada na vida, muito pelo contrário, para você ser missionário é preciso "ralar" muito para se tornar um dos melhores para exercer a tarefa especifica que Deus lhe chamou.            

Marcus Vinicius e Andrea, Pioneiros, Kirquistão, Ásia Central: 

Depois de 4 anos trabalhando na Ásia Central, gostaríamos de compartilhar um pouco do que temos visto em termos da necessidade e perfil dos missionários que...estão dispostos a deixar suas casas para levar o Evangelho a esse povo. Além do chamado de Deus, integridade e vida devocional, o missionário precisa desenvolver três áreas fundamentais. Poderíamos chamá-las de IPB. 

I

nglês. Antes de chegar a qualquer parte do mundo você precisa ter pelo menos um conhecimento intermediário da língua inglesa. Antes de você aprender a língua local é com o inglês que geralmente você vai se comunicar. Sua equipe também será constituída de missionários de vários países e ali o inglês será a ponte de comunicação. 

 

P

rofissão. Ter uma profissão secular é fundamental para o seu desenvolvimento no campo, pois é através dela que você geralmente vai ter contato com o povo e começar a construir relacionamentos. Outro fator importante é que um diploma universitário ou técnico vai viabilizar a sua entrada e permanência no país. Por razões óbvias, na maioria dos casos hoje, os diplomas de escolas teológicas não podem ser apresentados para justificar a sua entrada no país, portanto uma profissão secular é fundamental para a entrada no campo missionário.  

 

B

íblia. De maneira nenhuma podemos esquecer de uma boa formação teológica, pois o fruto dependerá da qualidade da semente que plantaremos na vida do povo que queremos alcançar....  

Conclusão: Termino com as palavras do nosso reitor, Carlos Osvaldo, no seu programa da conferência: Esta conferência nos trará o privilégio de conviver com gente de técnica apurada e dependência aprovada.  Não isole uma em detrimento da outra. Elas não são adversárias ou competidoras, mas companheiras nessa viagem cada vez mais empolgante que é fazer missões no século XXI.”   

Vamos enviar missionários à floresta do Senhor, com machados afiados e preparados, dependentes do Senhor e da SUA força.  Vamos aprender a cuidar bem do machado, cientes de que machado cego deixa um povo cego.  Assim, desenvolveremos uma técnica eficiente enquanto somos obreiros dependentes única e exclusivamente do Senhor.  Que Deus nos abençoe, e abençoe essa 35ª Conferência Missionária no SBPV. Se o ferro está embotado e não se lhe afia o corte, é preciso redobrar a força; mas a sabedoria resolve com bom êxito! (Ecl 10.10) 

A moral da história: QUEM AFIA SEU MACHADO CUMPRE BEM SEU CHAMADO...