Da Mesada ao Salário

Da Mesada ao Salário

Pr. David J. Merkh

Disciplina financeira.   Mais rara que um diamante azul, e que vale muito mais.  Como educar os nossos filhos sobre princípios bíblicos financeiros?  Princípios que nortearão suas vidas pelo labirinto econômico do nosso mundo?  Gostaríamos de sugerir algumas idéias práticas para pais conduzirem seus filhos “da mesada, ao salário”.  São sugestões em forma de provérbios bíblicos parafraseados para a realidade familiar. 

1.  “Quem não trabalha, também não vai ao Shopping”.

Paulo advertiu aos Tessalonicenses “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Ts 3:10).  Certamente não privaremos nossos filhos do seu “pão diário”.  Mas podemos ensiná-los cedo na vida que, como membros da família, têm privilégios E responsabilidades.

Infelizmente, muitos pais erram por não ensinarem seus filhos como trabalhar.  Tudo é feito para eles desde o berço.  Mamãe guarda os brinquedos.  A faxineira arruma a cama.  O jardineiro limpa o jardim.  Papai concerta a bicicleta.

Muito privilégio e pouca responsabalidade é o caminho mais curto para criar um filho mimado e egoísta.  Por isso, insistmos que nossos filhos trabalhem em casa todos os dias.  Lavam louça.  Varrem o chão.  Tiram o lixo.  Arrumam a sala.  Não são escravos, mas aprendem cedo que numa família todos os membros cooperam para o bem do time.

Para nos ajudar na distribuição de tarefas, temos uma “escala de serviço” posta na geladeira, com todas as tarefas diárias na coluna esquerda e os dias da semana em cima.  As tarefas podem variar de dia a dia ou de semana a semana.  O que importa é que todos aprendam o valor de diligência e serviço bem-feito.

Também oferecemos oportunidades de trabalho para ganhar um dinheiro extra quando os filhos têm necessidades ou projetos especiais.  Assim aprendem a importância do trabalho e o valor relativo do real.  

2.   “Honra ao Senhor com as primícias  . . . da sua Mesada”

Pv 3:9 Honra ao Senhor com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda . . . .

As vantagens de uma “mesada” para os filhos são muito maiores que o custo que representa para os pais (desde de que não seja exorbitante—cremos que uma mesada  modesta seja o ideal para ensinar disciplina financeira aos filhos).  Uma mesada ensina  princípios bíblicos sobre finanças: que a primeira parte pertence ao Senhor, que devem poupar para o futuro, que não devem desperdiçar hoje o que precisarão amanhã. 

No início usamos um sistema de envelopes, em que depositávamos semanalmente ou mensalmente a mesada de cada criança.  O primeiro envelope foi chamada “OFERTA” e representava 25% da mesada.  Esse dinheiro foi destinado à igreja local, primeiro, e depois, para ofertas missionárias.  (Começamos com 25% para fugir da idéia de que cumpriram seu  “dever” quando deram o dízimo.)  Outro envelope foi para GASTOS NORMAIS (25%)—a criança tinha liberdade, dentro de limites, para usar esse dinheiro como quisesse.  O último envelope foi para POUPANÇA—50% da mesada—reservada para aquelas compras maiores e eventuais, que seriam feitas com planejamento e a devida perrmissão dos pais.

O maior valor deste sistema foi que os filhos aprenderam cedo como orçar o dinheiro, separar as primícias para o Senhor e planejar para o futuro.

3. “Quem toma emprestado . . . é servo do Papai”

Quase todos já sentiram a corda da dívida ao redor do pescoço.  Reconhecemos a verdade do provérbio que diz, O rico domina sobre o pobre, e o que toma emprestado é servo do que empresta. (Pv 22:7).  Mas como combater uma cultura consumista impulsionada pela filosofia “Pegue agora, pague depois”?

Já tivemos experiências positivas e negativas nessa área.  Certa vez um dos  nossos filhos TINHA que comprar uma bicicleta que estava em oferta.  Jurou que trabalharia em casa para nos pagar o dinheiro de volta, se pudéssemos emprestá-lo SOMENTE ESSA VEZ.  Resistimos, mas no fim cedemos.  A bicicleta encantou aquele filho durante uma semana, mas depois perdeu seu charme.  Sofremos durante os próximos meses lembrando aquele filho do seu compromisso, e motivando-o a cumpri-lo.. 

A diferença foi marcante quando nossa filha Keila, ainda com 4 anos de idade, queria muito ter uma boneca cara da coleção “American Doll”.  Essa vez insistimos que ela trabalhasse e poupasse até conseguir o dinheiro.  Keila trabalhou durante 3 meses fazendo pequenas tarefas extras ao redor da casa (na realidade, a “faxina” dela deu mais trabalho para nós, mas valeu a pena, pois todos nós aprendemos um princípio precioso).  No fim, ela conseguiu comprar sua própria boneca.  Hoje nossa filha ainda cuida da “Samantha”  com um carinho todo especial.  Valoriza o que lhe custou tempo, esforço e dinheiro.

Nesse processo aprendemos um outro princípio que temos implementado com os filhos (e conosco mesmos!).  Desencorajamos qualquer compra “impulsiva”.  Pedimos que as crianças esperem pelo menos uma semana depois de ver a propaganda ou encontrar na loja AQUELE brinquedo ou AQUELA roupa irresistível.  Impressionante como um pouco de tempo esclarece a visão consumista e dá força para resistir o “irresistível”!

4.  “Procure conhecer o estado . . . dos seus Brinquedos”

Qual o pai ou a mãe que não ficou irritado com uma casa que parece um campo de batalha?  LEGOS, bonecas, livros, meias, bolas de tênis, camisas,  e CDs espalhados pela casa como evidências de um ataque terrorista infantil.  Além da desconsideração que representa, principalmente pela mamãe, estabelece hábitos de descuido que podem ser muito prejudiciais mais tarde.  A boa mordomia começa na infância, primeiro pelo exemplo e depois pelo ensino dos pais.

Escrevendo num contexto agrícola, o autor em Provérbios alertou seu povo: Procura conhecer o estado das tuas ovelhas, e cuida dos teus rebanhos, porque as riquezas não duram para sempre . . .( Pv 27:23,24)

Não queremos que nossos filhos sejam materialistas, egoístas que nunca emprestam nada para ninguém.  Mas a boa mordomia exige que reconheçam que os bens não duram para sempre.  São empréstimos do Senhor, que precisam ser cuidados e administrados fielmente.

Encontramos uma maneira para nossos filhos reconhecerem o valor dos seus pertences, valorizarem a “preciosidade”  dos outros membros da família, e aprenderem uma boa mordomia.  Montamos uma “caixa de sobras” enquanto as crianças ainda eram pequenas.  No final do dia, passamos pela casa, depositando na caixa tudo que achamos fora do seu devido lugar.  Tudo que ficava na caixa passava a pertencer a nós, até que seu dono contribuísse 15 minutos de trabalho em casa.  (A criança não tinha a opção de NÃO trabalhar—havia um limite de tempo para “resgatar” seus pertences da “caixa de sobras”.)  Foi impressionante como aprenderam rapidamente princípios de mordomia.  Depois de pouco tempo não precisávamos mais usar a caixa.

5.  Quem é negligente  . . .  é irmão do desperdiçador. . . e pagará a conta de luz!

Perder peso e equilibrar o orçamento familiar têm algo em comum—há somente duas maneiras de atingir o alvo.  No caso do regime, precisa acelerar a “queima” de calorias, e diminuir as entradas.  Mas para as finanças familiares, a fórmula é o oposto: temos que aumentar as entradas e diminuir os gastos. 

Provérbios também nos ensina pelo menos uma maneira de diminuir os gastos: Quem é negligente na sua obra já é irmão do desperdiçador . . . (Pv 18:9).  O desperdício é ladrão invisível em casa.  Rouba de muitas formas, e a família sábia faz tudo possível para detectar seus furtos:  Não enchemos o prato com mais do que podemos comer; insistimos em trabalhos bem-feitos, e não “de qualquer jeito”; disciplinamos o tempo no telefone, no chuveiro, na Internet.  O “apagão” nos ensinou muitas lições de como realmente poderíamos melhorar como cidadãos e mordomos dos recursos naturais que Deus concedeu a todos nós.  O fim do “apagão” não deve significar que apagamos nossa boa mordomia.

Os pais podem ajudar os filhos a valorizarem esses recursos através de incentivos ou, se necessário, com pequenas multas por descuido.  Economias (por exemplo, na conta de luz) podem ser revertidas para uma conta especial—uma sorvetada ou passeio familiar especial.  Desperdício (por exemplo, uma criança sempre deixa a luz do seu quarto acesa) pode levar a uma multa de 25 centavos por ocorrência.  Se seu filho não se prepara durante a semana pela aula de piano (ou dança, karaté, ou inglês) então ele pode pagar a próxima lição.  Assim as crianças aprendem rapidamente (mais rápido que os pais!) a valorizarem e não desperdiçarem essas oportunidades e privilégios que Deus lhes deu.

Como pais, não queremos transmitir valores materialistas, ser “pão-duro”, muito menos criar um ambiente tenso em casa.  O alvo principal é preparar nossos filhos para o mundo real, e uma vida financeira disiplinada e responsável.  Quem colherá os benefícios no futuro somos nós,  os pais, pois um dia nossos filhos saberão fazer uma boa economia quando escolhem nosso asilo!