Qualificações Familiares do Líder Espiritual

Esse artigo é um estudo panorâmico mas académico da questão de qualificação familiar para liderança espiritual (pastor/presbítero/bispo e diácono).

As Escrituras deixam claro que o líder espiritual representa o Senhor diante de Seu povo. Enquanto não existe um “padrão duplo” entre “clero” e “leigo”, Deus requer que os líderes do rebanho dEle sejam homens de caráter digno, aprovado, sem “dívidas morais não acertadas” que poderiam ser usadas para denegrir o testemunho da igreja local na comunidade. Tanto o relacionamento marido-esposa como pai-filho servem como “campo de prova”; o homem incapaz de pastorear o pequeno rebanho da família não deve assumir um rebanho ainda maior, da família de Deus.

Introdução

Nenhum texto da Palavra de Deus fala mais diretamente sobre a vida familiar do líder espiritual do que as Epístolas Pastorais, mais notavelmente, 1 Timóteo 3 e Tito 1, onde as qualificações para presbíteros e diáconos são alistadas. Proeminente nestas listas são as qualificações relacionadas à família do líder. Tão vital é o bem-estar da família do ministro, que o Apóstolo Paulo dá posição de destaque à saúde familiar dele (1 Tm 3.1,2,4,5; Tito 1.6). Essas qualificações dividem-se em quatro categorias:

1) O relacionamento do líder espiritual com sua esposa como “homem de uma só mulher”

2) A hospitalidade do líder espiritual

3) O relacionamento do líder espiritual com seus filhos e

4) Qualidades de caráter da esposa do líder (especificamente, da esposa do diácono).

Antes de considerar cada categoria, cabe aqui fazer algumas observações gerais sobre os textos que tratam do líder espiritual e sua família. [2]
Observações Gerais

1) A preocupação principal dos textos é que o líder espiritual, como o representante de Deus e pastor do rebanho dEle, seja moralmente “irrepreensível”, ou seja, “inassolável”, “não atingido por acusações” (1 Tm 3:2, Tito 1:6, 7). Os termos usados, anepilhmpton (1 Tm. 3:2) e anegklhto" (Tito 1:6, 7) são sinônimos e significam “irrepreensível”—não necessariamente perfeição moral, mas uma vida sem “fios soltos” ou “questões não-resolvidas” (BAGD, 64,65). Ele não pode ser acusado por pessoas dentro ou fora da igreja de pecado que já não tenha sido confessado e resolvido. Essa qualidade de caráter serve como título ou “cabeçalho” sobre o texto, que todas as demais qualidades de caráter exemplificam (Mounce, 2000: 152).

2) As qualificações familiares do líder ocupam uma posição prioritária nas listas, constando como o primeiro item específico em cada lista a qualificação “homem de uma só mulher”. Ao mesmo tempo, o relacionamento pai-filho do líder e o item mais cuidadosa e detalhadamente explicado. Ele é alguém “que governa bem a sua própria casa”.

3) A razão pela qual relacionamentos saudáveis familiares são vitais como qualificações do líder espiritual segue o argumento de “menor ao maior” (1 Tm 3.5). Se o homem não consegue conduzir seu pequeno rebanho, como poderiar liderar a família maior, ou seja, a igreja? Essa pergunta norteia a seleção de homens para liderança, inclusive em questões e situações duvidosas. A pergunta que sobresai é: “Será que o homem dá evidências de ter pastoreado bem seu pequeno rebanho?”

4) As qualificações familiares para liderança eclesiástica não podem ser consideradas inclusivas, ou seja, não é obrigatório que o presbítero ou diácono seja casado pelo fato de que o texto diz que é “homem de uma só mulher”, assim como não é obrigatório que tenha mais que um filho pelo fato do termo tekna “filhos” estar no plural (“que tenha filhos crentes”—Tito 1.6; Mounce 2000, 158). Paulo sugere que o ideal para o ministério espiritual, pelo menos em algumas circunstâncias, é o celibato, mesmo que reconheça que o casamento muitas vezes é necessário (1 Cor 7:8,9, 25-26, 32-40).

5) Segundo Mounce (2000, 159), essas qualificações servem para dar parâmetros gerais, ad hoc (lit.: “para isso, para este caso”, ou seja, para executar determinada tarefa de ordenar líderes de cidade em cidade) para determinar a aptidão do homem para o ministério. Servem como guia geral, mas não são, necessariamente, uma lista exaustiva, uma vez que outras qualidades poderiam facilmente ser acrescentadas. Como guia, devem servir para avaliar o que caracteriza a família do líder. Por exemplo, o fato de que uma criança de 5 anos publicamente desobedece ou desrespeita o pai pastor uma ou outra vez não necessariamente o desqualifica da liderança. A pergunta chave é: O que caracteriza o relacionamento entre o líder-candidato e sua esposa e filhos?

6) Essas listas de qualificações devem ser entendidas de forma POSITIVA e não somente NEGATIVA. São qualidades de caráter produzidas pelo Espírito de Deus e que qualificam o homem para uma posição de liderança espiritual na igreja. Para Timóteo e Tito elas serviam como peneira para discernir quais candidatos em cada comunidade seriam mais indicados para liderar aquela congregação. em termos das qualificações familiares para a liderança espiritual, muitas vezes perde-se uma mensagem de esperança e amor, que Deus tem para a própria família do líder. O interesse divino não é DES-qualificar o homem de serviço espiritual, mas liberá-lo para poder resgatar sua própria família, assegurando seu destino eterno, antes de buscar um ministério diante das multidões. A lista de qualificações familiares dá “permissão” ao homem preocupar-se primeiro com os da sua casa, antes de ganhar o mundo (1 Tm 5.8). Alguns talvez considerem “injusto” o fato de algumas circunstâncias peculiares da vida aparentemente desqualificarem um homem para a liderança eclesiástica. Mas as listas fornecem padrões objetivos que ajudam a igreja a reconhecer aqueles que DEUS designa para a liderança, sem tornar os outros “cidadãos da segunda classe”.

7) É importante notar que o texto não responde uma série de indagações: O que deveria acontecer se um presbítero já em serviço de repente se mostrasse desqualificado em termos bíblicos? Teria que ser tirado do ministério imediatamente? Seria concedida uma licença temporária? E sobre a qualificação de ter filhos crentes (fiéis)? A partir de quantos anos? A expressão “que obedecem com todo respeito” se aplica mais para uma criança de 2 ou de 16 anos, ou ambos? E se o homem tem quatro filhos, três dos quais estão sob controle, mas o quarto parece ser, às vezes, insubordinado ou dissoluto? Onde traçar a linha em termos de obediência e respeito com um único caso de rebeldia? E com múltiplos casos? Na ausência de dados mais detalhados, podemos imaginar que a sabedoria bíblica, o bom senso, e o “espírito” por trás das listas devem prevalecer. O mais importante é que o testemunho do homem como representante de Jesus na igreja loca seja mantido para a glória de Deus, ou seja, que ele seja “irrepreensível” com um certo grau de liberdade local para cada congregação decidir as questões difíceis caso por caso, e com muita oração. Novamente, duas perguntas norteiam o processo:

a) O homem tem todas as suas contas “em dia”?

b) Ele se mostrou capaz de pastorear sua própria família?

8) A importância do líder espiritual como EXEMPLO para o rebanho se destaca (cp. 1 Pe 5.3). Mappes (2003: 216) destaca que ele é representante de Cristo o Supremo Pastor, e por isso a vida de Cristo deve se manifestar nele pela plenitude do Espírito (Ef 5.18).Com essas observações iniciais em mente, vamos examinar alguns aspectos das qualificações familiares do líder espiritual.
O Relacionamento do Líder com Sua Esposa

Muitas interpretações da frase “marido de uma só mulher” (mia" gunaiko" andra, literalmente, “de UMA mulher, homem”) em 1 Timóteo 3:2, 12 e Tito 1:6 já foram sugeridas. A frase não é comum, e por isso torna-se um pouco difícil. A posição enfática no grego do número “um” (“de UMA mulher”) destaca esse aspecto qualitativo de devoção total que o homem tem para com a esposa dele. Mas o que exatamente significa? Que ele tenha uma mulher de cada vez? Que case-se com somente uma mulher durante toda a vida? Que nunca se divorcie e recase-se?

Esta qualidade de caráter é o primeiro exemplo específico do que o Apóstolo quer dizer com a palavra “irrepreensível” (3:2), talvez pelo fato de que é justamente nesta área, acima de todas as outras, onde líderes parecem mais cair (MacArthur, 1995: 104). O líder espiritual deve sua inteira devoção, exclusiva e leal, a uma só mulher. Como Mounce (2000) comenta, “que é o primeiro item na lista . . . sugere que fidelidade conjugal seja algo muito sério” (170). Saucy (1974) sugere que esta característica seria “a primeira coisa que diminuiria a reputação irrepreensível do homem e a primeira coisa que deveria ser observada” (229-230).

À luz do contexto cultural por trás das Epístolas Pastorais, inclusive os cultos de fertilidade de Éfeso, a prostituição ritual (1-2 Timóteo; cp. 2 Tm 3:6) e a reputação suja dos cidadãos de Creta (Tito 1:12), a pureza moral certamente serviria como peneira eficiente para deternminar irrepreensibilidade. Fidelidade conjugal seria a prova de uma verdadeira conversão cristã para aqueles que estavam saindo de tal sociedade (Getz 1974, 29). Somente aqueles cujas vidas haviam sido purificadas da promiscuidade seriam aptas para a liderança da igreja.

Mounce sugere quatro interpretações para a frase “marido de uma só mulher”, e depois oferece uma avaliação (2000, 170-172):

1) Tem que ser casado

2) Não polígamo

3) Fiel (devotado) à esposa

4) Não divorciado e recasado

A prmeira opção, que TEM que ser casado, é pouco provável pelo fato de Paulo ter encorajado o celibato (1 Cor 7:17, 25-38). A segunda opção, “não polígamo”, também é improvável, pelo fato de que poligamia não parecia ter sido tão comum para justificar sua menção prioritária nas listas de qualificações. Além disso, a frase paralela “mulher de um só marido” aparece em 1 Tm 5.9 com respeito às viúvas, e há pouca ou nenhuma evidência de poliandria (múltiplos maridos) no primeiro século. A interpretação dada para “marido de uma só mulher” deve aplicar-se igualmente as duas frases, “mulher de um só marido”, e “homem de uma só mulher”.

As opções 3 (fidelidade conjugal) e 4 (não divorciado/recasado) são igualmente atraentes. Getz sugere que “Paulo está dizendo que o líder espiritual deve ser intimamente relacionado com somente uma mulher” (1974, 28). Um argumento contra opção 3 é que não trata-se de um critério objetivo ou mensurável (como medir “fidelidade ou devoção”?). Por isso, é mais difícil servir como “peneira” de liderança espiritual. Mas a quarta opção (não divorciado e recasado) seria um padrão objetivo e mensurável. Mesmo assim, a ênfase bíblica no coração (qualidade interior) do homem (opção 3) e não somente seu comportamento externo (opção 4) sugere que pureza sexual em todas as esferas (inclusive, pensamentos e ações) estejam envolvidas aqui (Mt. 5:27-30).

Pelo fato de que a opção 3 já engloba a opção 4, seria melhor concluir que “homem de uma só mulher” se refere à fidelidade e devoção exclusiva conjugal: o presbítero/diácono foi casado somente uma vez, nunca divorciado ou recasado, e apresenta sinais claros de fidelidade e compromisso total a sua esposa (MacArthur, 1995: 105).[3]

A idéia de ser “homem de uma só mulher” pode ser interpretada à luz de textos como Lv 21, certamente no background do texto, e conhecido pelo Apóstolo Paulo. A mensagem do texto de Levítico mostra que o casamento do sacerdote precisava refletir a santidade e imagem de Deus. Enquanto aquele texto proíbe o sacerdote de casar-se com mulheres de reputação dúbia (pressupõe-se a santidade e pureza moral do próprio sacerdote), o NT enfatiza a pureza sexual do próprio líder.[4] Mounce explica que “a falta de mais explicações quanto às posições de liderança no NT talvez sugira que fossem adaptações naturais daquilo que a igreja primitiva já sabia e aceitava (2000,165).

A advertência de Jesus que “Aquele que repudiar sua mulher . . . a expõe a tornar-se adúltera, e aquele que casar com a repudiada comete adultério” (Mt 5:31,32; cf. 19:9) também parece ecoar o ensino sobre casamento em Levítico 21 e 1 Timóteo 3, e sugere que fidelidade conjugal para líderes espirituais exclui a possibilidade de divórcio e recasamento.

Outra consideração chave envolve a nova vida em Cristo. Até que ponto o crente recebe uma “tábua rasa” depois da conversão? Se “as coisas antigas já passaram” e todas “se fizeram novas” (2 Co 5.17), isso significa que a vida antes de Cristo não tem influência alguma nas qualificações para liderança espiritual? Quando Paulo fala aos corintios acerca da promiscuidade prevalescente entre eles, ele os informa que os impuros, adúlteros, homossexuais, etc. não terão herança no reino de Deus. Mas ele acrescenta, “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados” (1 Co 6:9-11). Para Paulo, parece que eles foram algumas dessas coisas, mas não eram mais. Quando consideramos a probabilidade de que a promiscuidade caracterizava quase TODOS aqueles saindo do paganismo de Éfeso ou Creta, existe a possibilidade de que Paulo está mais preocupado com a reputação pós-conversão dos líderes da igreja. Sua mudança de vida seria um testemunho ao poder do Evangelho, mas sua vida passada seria um escândalo para seus vizinhos. Saucy sugere que a maior parte da membresia da qual os presbíteros em Éfeso e Creta seriam escolhidos vinha de contextos em que a imoralidade predominava (1974, 237): As características pecaminosas da sua vida que culminavam em pecado nestas áreas tinham que mostrar mudanças pela graça de Deus. Tudo isso levaria tempo e requereria, em alguns casos, longos períodos de observação e evidências de uma vida transformada” (Saucy 1974, 237-238).

O maior problema com essa interpretação é a natureza metafísica do casamento, seja entre crentes, seja num casamento misto, seja entre não-cristãos. Se a aliança conjugal é válida como expressão da imagem de Deus (Gn 1.27), e se o casamento do líder espiritual serve para ilustrar para o mundo a seriedade desta aliança, então mesmo a conversão de um homem não “anula” o fato de que uma aliança foi rompida e outra iniciada.

Finalmente, temos que entender que as Escrituras se preocupam com muito mais do que a letra da lei, pois focalizam o espírito por trás da pureza sexual. Jesus deixou claro que pureza sexual é uma questão de coração, e que adultério se comete primeiro no coração (Mt 5:27-30). Neste caso, a cobiça, (desejo sexual dentro do coração), e não somente o adultério (o ato físico), precisa ser considerada para qualificar o homem como “marido de uma só mulher.”Segue uma possível solução ao dilema levantado por essas considerações: Enquanto a nova vida em Cristo tira, de fato, o estigma da vida pecaminosa no passado, esta nem sempre remove as consequências do pecado. Quando os resultados de uma vida promíscua ou de um casamento anterior, continuam sendo uma realidade presente na vida do líder espiritual ou de sua esposa, esse fato aparentemente desqualifica o líder por não ser “irrepreensível” e “homem de uma só mulher”. Deste modo, ele não consegue refletir, de forma visível, a santidade do Senhor ou ser considerado “inatacável”. Por outro lado, se a experiência pré-conversão de qualquer cônjuge não incluir resultados visíveis e atuais, ele ainda pode qualificar-se para a liderança, desde que demonstre evidências de ser “homem de uma só mulher”, e sua esposa dê indicações de ser “mulher de um só homem.” [5]

Princípio: O casamento do líder espiritual deve exemplificar pureza moral e fidelidade mútua, sem divórcio e recasamento, evitando assim circunstâncias comprometedoras, cobiça, promiscuidade e indiscrição no trato com o sexo oposto.

O Lar-Abrigo do Líder Espiritual (Hospitaleiro)

1 Timóteo 3.2 e Tito 1.8 incluem “hospitaleiro” como uma qualificação do líder espiritual. Esse item automaticamente pressupõe algum envolvimento da esposa do presbítero em seu ministério. Será que essa qualidade ainda se aplica na escolha de líderes hoje?

Um fenómeno cultural está transformando famílias e o ministério. A hospitalidade como ministério do Corpo de Cristo é cada vez mais rara. Menos e menos pessoas estão dispostas a convidar outras a compartilharem uma refeição ou ficarem hospedadas em suas casas. Por que? Quais os fatores que limitam o exercício de hospitalidade hoje? Porque Deus considerou o ser hospitaleiro tão importante a ponto de incluir hospitalidade como marca do homem qualificado como líder espiritual da Sua igreja?

O termo grego “hospitaleiro”, filoxenon, é composto de duas palavras gregas que significam “amigo, amor” (filo") e “estrangeiro” (xeno"). Embora hospitalidade hoje talvez seja mais praticada com pessoas conhecidas, o termo e seu uso original certamente incluíam o cuidado e hospedagem de pessoas desconhecidas, usando o lar como centro de ministério e refrigério para ministros itinerantes do Evangelho e pessoas carentes.

Observações Iniciais

*Observe que se trata de mais uma qualidade de caráter relacionada ao lar do líder (cp. Ef 5.18-6.9). A primeira qualidade depois de “irrepreensível” é a exclusividade conjugal (“homem de uma só mulher”), e a qualidade de caráter tratada com mais detalhe é sua eficiência na criação de seus filhos (vv. 4,5).

*Hospitalidade normalmente caracteriza uma pessoa cuja vida é um “livro aberto”. *Esta qualidade de caráter é de importância suficiente para estar incluída em ambas as listas principais lidando com as qualificações para a liderança espiritual (veja Tito 1.8).

Contexto Cultural: Fatores culturais na igreja primitiva ajudam a explicar a importância de hospitalidade no homem de Deus. Hospitalidade foi um ministério estratégico na igreja primitiva por várias razões:

1) A perseguição dos crentes era muito mais comum do que hoje, levando ao desemprego, exílio forçado, vida “sem teto”. Números expressivos de crentes foram dispersos (cp. Tg 1.1, 1 Pe 1.1, At 8.1) e precisavam de abrigos e refúgios seguros enquanto estavam “em trânsito”.

2) Estradas e viagens eram perigosas por não haver redes de hotéis e hospedarias seguras (cp. Lc 10.25-37).

3) O ministério itinerante dependia de uma rede de igrejas-lares com hospedeiros dispostos a alimentar, hospedar e encorajar esses evangelistas em seus ministérios.

4) Igrejas-lar. As igrejas locais hospedavam-se nas casas dos membros, muitas vezes no lar do líder (veja Col 4.15, Rm 16.3-5, 1 Co 16.19).

Porque Hospitalidade Hoje?

Mesmo que a necessidade de hospitalidade hoje no nosso contexto seja diferente do que no contexto da igreja primitiva, ela continua sendo um ministério vital na igreja. Serve como peneira excelente para a avaliação da liderança de um homem e sua aptidão para o ministéro, pelas seguintes razões:

1) Deus exige hospitalidade (Rm 12.13, 1 Pe 4.9).

2) Jesus a demonstrou (Jo 13.1-17, 14.1-6).

3) Hospitalidade requer que abramos nosso lar, onde “somos o que somos”, e por isso expõe o coração do homem e da sua família (Ef 5.18-6.9).

4) Hospitalidade requer desprendimento, o compartilhar das nossas posses, e por isso também revela nossos tesouros e o que mais valorizamos (Mt 6.19-21—note que o homem de Deus não deve ser “avarento”—1 Tm 3.3).

5) Hospitalidade envolve toda a família. O homem de Deus deve recrutar, com grande sensibilidade, sua esposa e seus filhos, para ficarem no mesmo “time” de anfitriões (1 Tm 3.4,5).

6) Hospitalidade é uma ferramente excelente para treinar nossos filhos, que aprenderão que o mundo não gira em torno deles, e cujas vidas podem ser eternamente enriquecidas pelo contato com pessas carentes e com ministros itinerantes do Evangelho.

7) Hospitalidade oferece uma oportunidade para exercer piedade genuina, sem expectativas de recompensa, assim como alguns acolheram anjos (Hb 13.2; Lc 14.12-14; Tg 1.27).

8) Hospitalidade revela um coração contente (1 Pe 4.9).

9) Hospitalidade requer um coração altruísta (3 Jo 5-8, 9-10).

10) Uma vida de hospitalidade ajuda a qualificar a esposa do líder para o sustento no rol das viúvas no futuro, caso seja necessário (1 Tm 5.10).

Por essas e muitas outras razões, ser “hospitaleiro” ainda serve como ótima peneira do homem (e mulher) qualificados para um ministério mais abrangente que o próprio lar, que estende-se até a igreja.
Princípio: O lar do líder espiritual revela o coração dele e da sua esposa, junto ao estado real de sua família, e por isso serve como “peneira” para a avaliação de candidatos para a liderança da igreja.
O Líder Espiritual e Seus Filhos

Além de ser “homem de uma só mulher”, o líder espiritual autentica seu ministério no contexto do lar e na criação de seus filhos. Ele adquire experiência, credibilidade e autoridade pela maneira que pastoreia seus filhos e conduz os negócios do lar.

“Que governe bem a própria casa” (1 Tm 3:4a; cp. 3:12b “o diácono. . . governe bem seus filhos e a própria casa”) refere-se à maneira pela qual o líder preside sua família. A palavra “governe” (proistavmenon) refere-se a alguém que “está à frente, governando, dirigindo” a família (BAGD 707). Mounce (2000) sugere que a palavra retém um pouco do seu sentido original de “ir adiante” e “proteger e providenciar” (178). O líder espiritual deve ser capaz de liderar “bem” (kalw", em posição enfática no texto), com decência e ordem em contraste com caos e confusão (Mounce 2000, 178). Ele é reconhecido pela própria família como o líder deles.O texto paralelo, tratando do diaconato (3:12), diz “O diácono. . . governe bem seus filhos e a própria casa” (teknwn kalw" proistavmenoi kai; twn idiwn oikwn). Os termos usados são idênticos (3:4), com a exceção que os “filhos” são destacados e especificados (em posição enfática no original) como sendo os que são governados ou dirigidos.

O versísculo 5 levanta a pergunta retórica acerca da gerência da igreja e da família: “Se alguém não sabe governar sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” A palavra “governar” (prosth'nai) é a mesma usada no versículo 4. O princípio fica claro: primeiro, o líder espiritual “pastoreia” o rebanho menor, seu rebanho. Em seguida, ele expande sua influência para a família maior, o rebanho de Deus. MacArthur (1995: 116) observa que “o homem que serve como pastor deve demonstrar que ele consegue liderar pessoas para salvação e santificação porque é isso que ele já fez em seu próprio lar—que serve como modelo, um padrão para todos os lares seguirem.”

Esse homem aprende primeiro a cuidar do seu próprio rebanho para que possa cuidar da igreja. O verbo “cuidar” (epimelhsetai) aparece no Novo Testamento somente em Lucas 10:34-35 onde o Bom Samaritano cuida do homem ferido. Mounce sugere que o líder espiritual deve “governar bem sua própria família e a igreja, cuidando delas, talvez como alguém cuidaria de um amigo doente” (2000, 180).“Criando os filhos sob disciplina, com todo respeito” (1 Tm 3:4b). “Sob disciplina” é literalmente “em sujeição” (ejn uJpotagh' /BAGD 847). O termo se refere àqueles que se colocam debaixo da autoridade de outrem. Os filhos do líder reconhecem que ele é a autoridade principal em suas vidas, e eles respondem prontamente àquela autoridade com obediência bíblica. [6]

“Uma indicação da sua habilidade gerencial é a postura normal de seus filhos” (Mounce 2000, 179). A frase “com todo respeito” (meta; pash" semnothto"), significa literalmente “com toda reverência ou dignidade.” O substantivo semnothto" pode ser traduzido por “reverência, dignidade, seriedade, respeito ou santidade” (BAGD 747). Aqui, a frase pode significar:

1) que os filhos tratam seu pai com o respeito devido, ou

2) que o pai mantém toda “dignidade” no processo de treinar seus filhos (Mounce 2000, 179).

O contexto do versículo sugere que a atitude dos filhos está sendo analisada. Porém, a idéia de “dignidade” parece ser uma descrição mais apropriada para o pai do que para o filho, especialmente pelo fato de que um termo relacionado (semno") descreve diáconos (3:8), suas esposas (3:11) e os anciãos (Tito 2:2). Talvez a melhor opção seja entender que os filhos imitam as habilidades gerenciais dignas do pai através da sua atitude submissa e seu respeito pela autoridade dele. Em outras palavras, o líder espiritual qualificado conquista os corações de seus filhos (Pv 23:26), ganhando-os e elicitando deles obediência completa com respeito. Eles não zombam dele em particular, e muito menos em público. Eles honram-no, submetem-se a ele e não são rebeldes.

A expressão “Que tenha filhos crentes” (Tito 1:6b) pode ser interpretada em uma de duas maneiras. “Crentes” traduz pista, que também pode ser traduzido por “fiéis.” Os filhos devem ser 1) crentes ou 2) fiéis (leais e comprometidos, principalmente com Deus, embora também com seus pais, com a igreja, ou com suas responsabilidades--Mounce 2000, 388).

À luz das outras qualificações listadas para os filhos do líder, assim como o argumento de menor ao maior usado aqui (o lar como microcosmo da igreja), parece mais provável que a segunda opção (que sejam cristãos fiéis) esteja em vista: os filhos do presbítero devem ser crentes comprometidos. Este texto, então, vai além das qualificações alistadas em 1 Timóteo 3. Não é suficiente ter filhos sob controle. Eles também devem professar fé e ser ativos no viver dessa fé, sendo produtos da graça de Deus , do ensino fiel e disciplina paternos. Afinal de contas, este é o alvo do ministério, tanto no lar como na igreja—que todos sejam discípulos de Jesus Cristo (Mt 28.18-20).Mounce sugere que o particípio presente ecwn (“tendo” ou “que tenha”) restringe essa qualificação àqueles que ainda têm filhos morando em casa e sob a autoridade dos pais. Ele acrescenta que “o critério não está tão focalizado no caráter dos filhos, aonde quer que morem, mas na habilidade do homem em governar seu lar, e os resultados sendo vistos na vida de seus filhos” (2000, 388).

À luz do papel soberano de Deus em salvação, parece “injusto” a exigência de que os presbíteros tenham filhos crentes e comprometidos. Como poderiam “forçar” seus filhos a entrarem no Reino? A difícil questão da sobernia de Deus e a responsabilidade do homem não pode ser resolvida aqui. Basta dizer que as Escrituras dão amplo respaldo para a idéia de que Deus frequentemente “elege” os filhos de pais fiéis que diligentemente lhes ensinam as Escrituras e revelam a eles a condição decaída dos seus corações para levá-los ao Salvador (cf. Pv 22:6, Dt 6:4-9 e 1 Co 7:14, onde os filhos do casamento “misto” ainda são considerados “santos” ou “separados” ao Senhor). Mesmo assim, “essa seria uma exigência para o presbitério que fica fora do controle direto do pai” (Mounce 2000, 389).“

Alguém que tenha filhos . . . que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados (Tito 1:6b). O texto define ainda melhor em que sentido o líder é “irrepreensível”. Parece claro que os filhos do líder ainda estão na mira, embora alguns acreditem que o termo “não acusados de dissolução, nem insubordinados” refira-se ao próprio homem. “Dissolução” traduz aswtia". O termo aparece também em Ef 5.18 (bebedice que leva à dissoluçao) e 1 Pe 4:4 (excesso de devassidão) e na forma adverbial em Lc 15:13, 30 em referência ao filho pródigo que “dissipou...dissolutamente” (BAGD 119). A desconsideração de outros e a falta de autodisciplina do filho levam a uma vida incorrigível e “dissoluta”.“Desobediente”traduz “anupotakta” e refere-se a alguém que é “indisciplinado, desobediente, rebelde” (BAGD 76). Aparece novamente no mesmo capítulo com respeito aos “insubordinados” (1:10), isto é, àqueles que pervertem casas inteiras com seus ensinamentos falsos. Os filhos de Eli, Hofni e Fineas vêem à mente como exemplos de filhos dissolutos e desobedientes, que eventualmente desqualificaram seu pai da liderança espiritual (1 Sm 2:12, 10:27).

Princípio: O líder espiritual precisa ter sua própria casa sob controle, levando seus filhos à obediência reverente, fiel a Cristo, assim ganhando experiência, credibilidade e autoridade para poder pastorear o rebanho maior que é a igreja de Deus.

A Esposa do Líder Espiritual

Há muita confusão quanto à inclusão de qualificações de caráter para as “esposas” ou “mulheres” (Gunai'ka", 1 Tm 3:11) no meio da discussão acerca das exigências que governam a escolha dos diáconos (3:8-10, 12-13), especialmente pelo fato de que não existe uma lista semelhante descrevendo a esposa do presbítero. Quem são essas “mulheres”? Algumas opções incluem:

1) Esposas de diáconos

2) Diaconisas

3) Esposas de diáconos e presbíteros/pastores

A escassez de evidências bíblicas comprovando a existência de um ofício de diaconisa na igreja primitiva torna a segunda opção pouco provável. O termo “Gunaika"”, traduzido por “esposas” e não “mulheres”, sugere que sejam as “esposas dos diáconos”. A ordem do texto, que insere a discussão das esposas no meio das qualificações dos diáconos, sugere que são esposas dos diáconos e não um novo ofício (diaconisas) na igreja. Esse fato também tende a invalidar opção 3 (que descreve as esposas de presbíteros e pastores também). A primeira opção, de que trata-se das qualidades do caráter das esposas dos diáconos, parece mais provável. Mas, porque Paulo daria qualificações para as esposas dos diáconos e não para os presbíteros, que têm maior supervisão espiritual na igreja? Talvez pelo fato de que a área de serviço dos diáconos, diferente dos presbíteros, envolva um ministério prático, um contato mais direto, muitas vezes de casa em casa, em que suas esposas seriam particularmente úteis e até mesmo necessárias. Já o ministério dos presbíteros focalizava muito mais liderança e ensino espiritual (com a possível exceção da hospitalidade), atividades que não pertenciam as mulheres (1 Tm 2:11-15). Mesmo assim, essas qualidades de caráter das esposas dos diáconos teriam alertado Timóteo à importância do caráter das esposas de todos os líderes espirituais.

O texto, então, deixa claro que as esposas dos líderes espirituais, especialmente aqueles que estão envovidos em ministério pessoal e prático (talvez conforme o modelo de Atos 6, de casa em casa) também precisam de caráter irrepreensível. As qualidades alistadas para suas esposas são: “respeitáveis” (semna"), “não maldizentes” (mh; diabolou"), “temperantes” (nhfaliou") e “fiéis em tudo” (pista" en pasin).

Princípio: A esposa do líder espiritual (diácono) deve ter caráter nobre, que enriqueça o ministério do marido pelo comportamento discreto, respeitável e responsável.

ConclusãoAs Escrituras deixam claro que o líder espiritual representa o Senhor diante de Seu povo. Enquanto não existe um “padrão duplo” entre “clero” e “leigo”, Deus requer que os líderes do rebanho dEle sejam homens de caráter digno, aprovado, sem “dívidas morais não acertadas” que poderiam ser usadas para denegrir o testemunho da igreja local na comunidade. Tanto o relacionamento marido-esposa como pai-filho servem como “campo de prova”; o homem incapaz de pastorear o pequeno rebanho da família não deve assumir um rebanho ainda maior, a família de Deus. Tedd Tripp (2005: 48) resume:

O lar é um microcosmo da igreja. As qualidade da vida espiritual que dão credibilidade ao pastor em casa fornecerão a mesma medida de confiança às pessoas que ele serve na igreja. A vitalidade espiritual que permite que sua família siga com alegria sua liderança assegurará a igreja de que ela está em boas mãos. A vida familiar é, no entanto, muito mais do que apenas um local para mostrar habilidades pastorais. É a própria fornalha na qual estas características são forjadas.
 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Arndt, William F. e F. Wilbur Gingrich. A Greek-English Lexicon of the New Testament. Chicago: The University of Chicago Press, 1957 (1979).

MacArthur, John Jr. The MacArthur New Testament Commentary: 1 Timothy. Chicago: Moody Bible Institute, 1995.

Mappes, David A. “Moral Virtues Associated with Eldership”, em Bibliotheca Sacra, vol 160 (April-June 2003), 202-218.

Mounce, William D. “Pastoral Epistles” em Word Biblical Commentary, vol 46. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 2000.

Saucy, Robert L. “The Husband of One Wife”, em Bibliotheca Sacra, vol 131 (July-September, 1974), pp. 230-240.

Tripp, Tedd. “Ame Sua Família” em Amado Timóteo. São José dos Campos: Editora Fiel, 2005.

* Dr. David J. Merkh é professor do Seminário Bíblico Palavra da Vida desde 1987 e coordenador do programa Mestrado em Ministérios. É autor de vários livros sobre ministério familiar.

[1] Usamos o termo “líder espiritual” de forma abrangente para incluir tanto bispos/presbíteros/pastores e diáconos.

[2] O fato de que ele é “homem de uma só mulher” sugere fortemente uma liderança exclusivamente masculina na igreja (Mounce 2000, 159).

[3] À luz de Romanos 7.3, 1 Co 7.39 e 1 Tm 5.14, onde Paulo permite ou até mesmo encoraja casamento, parece mais provável que recasemento seria permitido depois da morte do primeiro cônjuge.

[4] Paulo certamente conhecia essas leis levíticas que governavam o casamento do sacerdote, e é mais fácil entender continuidade entre o sacerdote vetero-testamentário e o presbítero neo-testamentário do que o contrário, a não ser que Paulo qualificasse suas instruções.

[5] Note que Paulo não designou um ministério específico para os líderes espirituais voltado para as moças, como fez no caso dos moços, idosos e idosas (Tito 2:1-10). Talvez fosse uma proteção pastoral para evitar situações comprometedoras que poderiam danificar o testemunho do ministro e levantar dúvidas se ele realmente era homem de uma só mulher.

[6] Obediência bíblica pode ser descrita como sendo imediata, inteira e interna (de coração).