61- Os Botões da Blusa e o Culto (Maio 2004)

OS BOTÕES DA BLUSA E O CULTO

Será necessário tratar de um assunto como este? Será que todos não sabemos o que significa o culto? Que relação há entre os botões da blusa e o culto.

 

Preste atenção: Ao abotoar uma blusa com 10 botões, se você abotoá-la colocando o primeiro dos botões na segunda casa, e assim sucessivamente, quantos erros você terá cometido ao chegar ao último botão? Um ou dez?

 

Isto vale também para o culto que prestamos a Deus. Alguns cometem erros fundamentais, sendo um deles a elaboração de cultos agradáveis aos incrédulos, crendo que o motivo de se reunirem aos domingos, ou seja lá que dia for, é a evangelização.

 

Ao meditar no Salmo 66, aprendemos muito sobre o louvor e o culto. Aprendemos que nossa preocupação deve ser agradar o grandioso Deus. Tudo o que fazemos e dizemos tem de ser agradável a Deus, ou seja, o Senhor está ciente até do que se passa no íntimo daqueles que ofertam pequenas moedas; Ele se deleita com a alegria que demonstramos na administração de nossos talentos e em tudo que fazemos. Não basta adorar a Deus publicamente, mas é preciso a adoração pessoal. O culto na igreja não substitui o relacionamento pessoal com Deus. Para cultuar, temos que ter consciência que nos aproximamos DELE unicamente por meio de Jesus Cristo, com confiança exultante, mas também com reverência e temor. Culto é encontro com o Sagrado e a consciência de que pecadores falhos adentram a presença do Totalmente Outro, para render-lhe graças, confessar, pedir e ouvir.

 

No versículo 2 encontramos a síntese do culto: “Cantem louvores ao seu glorioso nome; louvem-no gloriosamente”. É louvor ao nome do Senhor e a glorificação da sua pessoa. Nada na Bíblia indica que devemos afagar as emoções dos incrédulos, antes, o culto é para Deus, para exaltar seu nome e honrá-lo, não para nós, para nos sentirmos bem. Deus é o centro do culto, não nós. Os descrentes, estando em nosso meio, devem descobrir que estão na companhia daqueles que têm como objetivo principal glorificar a Cristo. Nem sempre haverá conforto. Pode haver repreensão, chamada ao arrependimento, ao compromisso, focando uma faceta nossa que não agrade a Deus.

 

Observem o que o salmista diz no versículo 16: “Venham e ouçam, todos vocês que temem a Deus; vou contar-lhes o que ele fez por mim” (v. 16). As grandezas de Deus devem ser mostradas para que o mundo creia. O culto não é um show direcionado às pessoas, como se elas fossem consumidoras exigentes que necessitam de uma excelente atenção, um ótimo produto, um perfeito entretenimento, e quando não acontece assim, reclamam ao Procon. O culto deve mostrar o que Deus significa para nós e o que fez por nós,  e não o que nós podemos fazer por Ele, se é que podemos.

O culto é também uma ocasião de agradecermos a Deus por ouvir nossas orações (v. 20). O salmista se alegrou porque Deus ouviu sua oração. No culto, antes de pedir, devemos nos lembrar que deve haver gratidão. Que maravilha sabermos que Deus nos ouve, que não cultuamos uma divindade distante, mas um Deus pessoal, empático e simpático, que se relaciona conosco e, no dizer de Jesus, dá coisas boas aos seus filhos: "Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir peixe, lhe dará uma cobra? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem” (Mt 7.9-11).

Não podemos também permitir que simbolismos vãos, para não dizer simpatias místicas, ou idéias de troca com Deus contaminem nosso culto. Deus ouviu o salmista não porque ele fez alguma corrente de fé ou deu uma oferta para que orassem por ele em algum lugar especial, ou porque comprou aquele patuá evangélico. Deus o ouviu porque ele se purificou (vv. 18,19): “Se eu acalentasse o pecado no coração, o Senhor não me ouviria”. Nossos pecados impedem nosso relacionamento com Deus: “Vejam! O braço do SENHOR não está tão encolhido que não possa salvar, e o seu ouvido tão surdo que não possa ouvir. Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá”. Nosso culto é agradável e aceitável, e nossas orações são ouvidas quando estamos com nossos corações purificados dos nossos pecados. Antes e durante o culto devemos confessar nossos pecados e pedir perdão.

 

Com tudo isso, não quero dizer que não devemos ser sensíveis às necessidades dos incrédulos, que precisam conhecer a graça e o amor de Deus, e a nova vida que Ele oferece em Jesus Cristo. Devemos exalar a fragrância do perfume de Cristo todos os dias (2 Co 2.14-17), na escola, no escritório, em casa, entre amigos. O que não podemos é mercadejar a palavra de Deus. Nos nossos cultos, caso haja algum incrédulo em nosso meio (1 Co 14.23-25 – observe que Paulo usa o tempo subjuntivo – uma possibilidade de haver algum incrédulo, uma vez que o culto era para crentes), ele deve ser recebido com amabilidade, cortesia e atenção. O que não podemos é mudar o centro do 0culto, de Deus para o homem.

 

O culto deve ser reverente, mas não carrancudo; culto deve ser respeitoso, mas não fúnebre. Nossa adoração deve ser simples, espiritual, espontânea, calorosa, reverente, caracterizada por orações espontâneas também, com músicas de mensagem profunda, usando todos os talentos e instrumentos, sendo o seu clímax, seu ponto alto, a pregação expositiva da Palavra de Deus.

 

O salmista conclui o salmo de maneira admirável, extasiante: “Louvado seja Deus, que não rejeitou a minha oração nem afastou de mim o seu amor” (v. 20). Quando cultuamos, Deus é louvado, nossas orações são ouvidas e seu amor renovado em nós.

 

Se você respondeu dez à pergunta do início, acertou. Um erro fundamental no começo compromete todo o restante.

 

Seja nosso culto ocasião de provar a presença de Deus, na companhia de outros fiéis, para que nossa vida seja fortalecida por ele.

 

De quem presta atenção para não abotoar o paletó errado,

 

Pr. Silas Arbolato da Cunha

                                                                                                                                                         Maio/2004