47- Balanço (Janeiro 2005)

BALANÇO

No final do ano, as empresas e lojas normalmente fazem o chamado balanço, que é um demonstrativo contábil dos valores do ativo, do passivo e do patrimônio líquido de uma entidade jurídica, relativo a um exercício social completo.

 

Eu também parei para fazer um balanço da minha caminhada na igreja, aí vai sua publicação, espero que ainda dentro do prazo...

 

Cresci numa igreja pequena do interior de São Paulo, e certamente isto teve uma influência muito grande na formação de minha visão de igreja. Assim como diz Philip Yancey num de seus livros, eu aprendi a olhar o mundo pelos vitrais coloridos da igreja: ela ditava o que eu devia crer, em quem devia confiar e como me comportar. Sentíamos-nos protegidos contra o mundo que nos assustava lá fora.

 

Aprendi muitas coisas lá, algumas que devo fazer hoje, como estudar seriamente a Palavra, e outras que não devo fazer, como

ter uma visão separada de vida. Vivi muitos anos uma religião baseada em coisas externas. Estudávamos a graça, mas vivíamos pela lei, falávamos de amor, mas éramos apáticos.

 

Vivia um cristianismo longe de Cristo. Havíamos criado uma sub-cultura que embotava nossa fé, nos esvaziava de humildade e escondia de nós nosso ministério no corpo de Cristo. Fazíamos muitas coisas: acampamentos, reuniões, visitação, tínhamos ponto de pregação, etc.. Experimentávamos o poder de Deus sem, contudo, experimentar a presença de Deus. Isto se parece um pouco com o que aconteceu com o povo de Israel (Ex 32.34; 33.2,3) – o Anjo iria com o povo, mas o próprio Deus não. Isto parece confuso e incoerente, mas se Deus fosse com eles, Sua presença iria consumi-los por causa da obstinação, murmuração, desobediência, cobiça e indiferença. Comecei a aprender que é possível experimentar o poder de Deus sem experimentar a presença de Deus. Comecei a aprender que podemos fazer muitas coisas em nome de Deus, buscar orientação de Deus para os nossos planos, mas não cumprir os planos de Deus.

 

Tenho visto o uso de vários tipos de “véu” ainda: o véu da comiseração, da justiça própria que sempre está a acusar outros e não olha para suas próprias fraquezas, o véu da sensibilidade que nos afasta de tratarmos o pecado para não “magoarmos” as pessoas, o véu da operosidade que esconde quem de fato somos o véu da frieza que nos faz guardar nossos sentimentos e lutas, o véu da perfeição e do sucesso para sermos aceitos. Descobri que este padrão é uma grande mentira satânica.

 

Tenho aprendido que a experiência da presença de Deus é proporcional a nossa consciência da graça que apazigua o coração, dá descanso à mente, nos faz ver a nós mesmos cobertos e justificados pela mão de Deus, pelo sangue do Cordeiro, e que nos assegura que há um lugar junto a Ele, sem medo, sem pânico, sem pavor. A graça nos abre a porta para a presença de Deus. Não são nossos feitos, não é nossa função no corpo, não é com sacrifícios, não é com nosso serviço a Deus, não é com conhecimento. É tudo pela graça.

 

Tenho descoberto também que a igreja é um lugar para se descobrir talentos ou para enterrá-los. Nós os enterramos quando temos medo de perder posição ou status, quando há feridas provocadas por relacionamentos, quando lutamos para ganhar e não para prescindir, quando dizemos que estamos servindo, mas na prática nos servimos da igreja para nossas realizações.

 

Tenho aprendido ainda que o melhor do passado não é referência para o melhor do futuro (Ec 7.10), quando se está na presença de Deus. Deus sempre tem coisas novas e, à medida que nos aprofundamos na intimidade com Ele, experimentaremos a grandiosidade do Seu amor.

 

E o saldo é positivo, pois tenho aprendido que Deus, e somente Deus, tem as qualificações para ajudar-me a enfrentar o caminho escorregadio entre o amor pelo próximo e amor por mim. E na luta por fazer o amor funcionar, a igreja é só o começo.

 

Não tenha a sensação que perdeu o ônibus. Este pode ser o momento do seu começo. Com Jesus nunca será tarde para fazer um balanço.

 

Do seu pastor e.... contador,

Silas Arbolato Cunha                                                                                                                   Janeiro/2005