Incerteza

Eclesiastes 6:10‑12:14 
 
    
  Conta-se a história de um homem que fazia compras num mercado de Damasco quando encontrou face a face com Morte.  Percebeu uma expressão de surpresa no rosto terrível do fantasma, mas o homem e a Morte se passaram sem falar.  Depois o homem assustado foi procurar um sábio para responder suas dúvidas. 
    
O sábio disse que Morte provavelmente foi para Damasco com a intenção de pegá-lo na próxima manhã.  O pobre homem ficou terrorizado, e perguntou se havia como fugir.  "O único jeito" disse o sábio, "é que você deveria andar a cavalo a noite toda para Aleppo, e assim escapar do fantasma." 
    
Então aquele homem fugiu para Aleppo - foi uma noite terrível, uma viagem que nunca fora feita numa noite só.  Quando chegou, entrou no mercado, se parabenizando por ter escapado da morte. 
    
Naquela hora, Morte aproximou-se dele e deu umas tapas nas costas.  "Com licença" ele disse, "mas vim procurar você. "Mas achei que te vi ontem em Damasco" exclamou o homem, pálido de medo. "Exatamente" disse Morte. "Foi por isso que fiquei assustado - porque disseram‑me que encontraria você hoje aqui em Aleppo." (T.H. White, Once and Future King) 
    
Você já percebeu como o homem faz de tudo para prolongar sua vida.  Dizem que certa vez a Rainha da Inglaterra, no leito da morte, ofereceu metade do seu reino para a pessoa que poderia prolongar sua vida por mais 5 minutos.  Infelizmente, conforme as últimas estatísticas, um em um morre.  Procuramos imortalidade, fazemos nomes para nós mesmos, mas ninguém escapa a realidade da morte.  Este fato deve nos preocupar--e frustrar!  Certamente frustrou e preocupou Salomão, autor de Eclesiastes. 
    
Na primeira metade do livro ele revela a insignificância e futilidade de vida vivida sem Deus "debaixo do sol".  Nada permanece ou satisfaz; tudo cai no esquecimento.  Isso, porque existe uma buraco-tamanho-Deus no coração humano que somente Deus pode preencher (3:14).   
   
Na segunda metade do livro, Salomão revela outra razão porque o homem precisa elevar seus olhos por cima do sol e estabelecer um relacionamento com seu Criador: Vida sem Deus é incerta!  Em outras palavras, a vida não vem num pacote com etiqueta que diz, "Satisfação garantida, ou sua vida de volta!".  O futuro frustra (porque não sabemos o que acontecerá), o perverso prospera (enquanto o justo sofre), e sem Deus não conseguimos decifrar o propósito de tudo isso!  Por isso precisamos achar em Deus a esperança de um futuro em que a justiça endireitará tudo que está torto. Mas esta é a resposta.  Primeiro precisamos encarar o problema.  E o problema é que nós seres humanos nos apoiamos em tudo, menos Deus.  Por isso Salomão dá mais um chute nos suportes de vida debaixo do sol, para fazermos olhar para Deus por cima do sol.  
  
   A.  A Frustração do Futuro: Não há garantias!   Salomão se frustrou pelo simples fato de que o homem não e Deus!  Não consegue interpretar, advinhar, ou predizer o futuro.  Não sabe o que será dele amanhã: 

"Quem sabe o que é bom para o homem durante os poucos dias da sua vida de vaidade os quais gasta como sombra? Quem pode declarar ao homem o que será depois dele debaixo do sol? . . .Porque para todo propósito há tempo e modo; porquanto é grande o mal que pesa sobre o homem.  Por que este não sabe o que há de suceder, e como há de ser, ninguém há que lho declare" (6:12, 8:6,7).   
   
Não sabemos com certeza o que acontecerá amanhã: se vem chuva ou sol, vitória ou derrota, alegria ou tristeza, vida ou morte (cp. 3:1-11).   Não dá para fazer tantos planos, porque o futuro tende a frustrar! (cp. Tg. 4:13‑15) 
  
Salomão acrescenta a frustração de não podermos predizer  resultados pois o inesperado muitas vezes acontece:  "
    Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes a vitória, nem tampouco dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes a riqueza, nem dos entendidos o favor..." (9:11) 
  
O grande lutador de box Mike Tyson morde a orelha do seu oponente e é desqualificado . . . os Estados Unidos perde para uma seleção america-latina no final de basquete . . . um desconhecido ganha a Fórmula 1 . . . são exemplos no mundo de esportes do princípio que Salomão experimentou na vida real.  Só que, na vida real, as conseqüências são mais graves, especialmente quando o inesperado inclui a morte: "O homem não sabe a sua hora.  Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira, e como os passarinhos que se prendem como o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles" (Ec. 9:12; cf. 8:8) 
  
Em outras palavras, morte é a grande dívida que todos têm que pagar (cf. 3:19‑21).  Em vão o homem tenta escapar seu destino.   
  
Esta semana experimentei este lado trágico da vida quando soube que o filho de 18 meses de um dos meus melhores amigos, um colega pastor, morreu afogado na piscina no quintal de sua casa.  O pequeno Seth saiu da casa sem ninguém perceber, e quando sua mãe foi procurá-lo já era tarde demais.  Numa questão de minutos seu filhinho se foi. 
  
Eclesiastes nos lembra de que cada dia pode ser nosso último. Debaixo do sol, isso leva ao desespero, à frustração, ou talvez a uma vida entregue às farras e festas. Mas quando olhamos por cima do sol, para um Deus soberano e compassivo, isso nos leva a investir nossa vida naquilo que nos sobreviverá.  No final do livro Salomão chega a esta conclusão. Mas antes, aponta para mais uma incerteza de vida debaixo do sol. 
   
   B.  A Prosperidade do Perverso 
  
Para quem tem olhos abertos, existe mais uma realidade debaixo do sol que frustra o homem--o fato de que muitas vezes o perverso prospera e o justo sofre.  Confesso que esta frustração e ira são minhas primeiras reações quando ouço notícias como a morte dos filhos do meu amigo.  Como pode Deus permitir tanto sofrimento para um pastor de uma igreja grande, homem consagrado, pai dedicado a sua família.  Por que ele e não o bêbedo que mora no mesmo quarteirão?  Por que não o criminoso ou assassino?   
  
Salomão viu isso, e conclui que também era vaidade:

"Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade . . . Ainda há outra vaidade sobre a terra: justos a quem sucede segundo as obras dos perversos, e perversos a quem sucede segundo as obras dos justos" (7:15, 8:14). 
   
Muito embora algumas "teologias" de prosperidade ensinem o oposto, o fato é que neste mundo contaminado pelo pecado coisas ruins acontecem com gente boa.  Conforme Eclesiastes (e o Novo Testamento também), adolescentes consagrados a Deus podem pegar câncer (como aconteceu com minha irmã) . . .  crianças inocentes morrem de leucemia (como aconteceu com o filho de missionários colegas). . .  mulheres crentes  podem ser violadas e contrair o vírus de AIDS (conforme relata uma amiga nossa). . . .  Mas talvez a ilustração mais trágica que já vi desta incerteza e injustiça na vida aconteceu alguns anos atrás enquanto uma família de 4 pessoas mais duas amigas estava indo para nossa igreja para um culto missionário.   Pai, mãe e suas  crianças pequenas estavam no carro quando de repente, passando por uma encruzilhada com luz verde, foram batidos por um carro da policia correndo mais 120 km/hora.  Matou os 6 na hora.  O Jornal nacional mostrou as Bíblias espalhadas na rua, e perguntou "Por que?"  Pior ainda, o outro veículo da polícia foi dirigido por um ladrão que havia roubado o carro e estava fugindo da prisão.  E como talvez você já imaginou, saiu do acidente sem feridas graves. 
   
Como explicar este e inúmeros outros casos da prosperidade do perverso e do sofrimento do justo?  Vamos fingir que não aconteçam?  Ou talvez colocar Deus numa caixa, domá-lo e subjugá-lo enquanto reivindicamos nossos direitos?   Não, todas estas são tentativas do homem debaixo do sol exprimir ordem e significado de um mundo contaminado pelo pecado.  A resposta tem de ser outra--olhar por cima do sol, para um Deus que há de corrigir todo mal, transformar maldição em bênção, e enxugar toda lágrima. Debaixo do sol, sem o fator "Deus", há somente desespero e frustração. 
   
A pergunta chave, então, é se posso confiar em Deus para endireitar o que está torto debaixo do sol? Confiarei nele a tal ponto de investir minha vida em coisas eternas? Seria bom refletirmos no velho cântico que nos faz elevar nossos olhos e encarar realidades eternas.  Só assim poderemos escapar de vez o fantasma Morte que nos espera em Aleppo: 
"Só uma vida, cedo passará
Só o que fizerdes por Cristo durará
Só uma chance pra fazer o seu querer
Dê a Cristo seu viver
Não ha nada que perder
Quando se tem só uma vida.” 

Perguntas para Discussão 
1)  À luz do livro de Eclesiastes e o ensino do Novo Testamento, qual o problema com a chamada"Teologia da Prosperidade".  Qual a verdadeira solução para o problema do sofrimento do justo?
2)  Quais as opções lógicas para o ser humano que enfrenta as injustiças e frustrações da vida, mas que não tem esperança em Deus?
3) Você pode lembrar de exemplos da "prosperidade do perverso" ou do "sofrimento do justo"? Como que você se sentiu perante tais injustiças?  Qual deve ser sua resposta?
4) Muitos citam Rm. 8:28 quando coisas ruins acontecem com "gente boa".  O que significa este versículo?  Como deve ser usado?  Como não deve ser usado?
5)  Um desafio: Leia Ecl. 12:1, 13-14.  Qual a conclusão de Salomão sobre o verdadeiro significado da vida?  Como aplicar esta conclusão à sua vida? Cp. 1 Co. 15:54