Algodão Amargo

  Algodão Amargo (Eclesiastes 1:1-6:9) - I

Pr. Davi Merkh

Certa vez o pai de dois meninos, um otimista e outro pessimista, decidiu que tais perspectivas extremas poderiam prejudicar suas vidas.  Tinha que fazer algo para equilibrá‑las.  Então comprou cada brinquedo popular que podia, e colocou‑os no quarto do pessimista.  Depois  comprou  um caminhão cheio de esterco, que depositou na garagem para o otimista. 
    
Na próxima manhã, ele viu seu filho pessimista assentado no seu quarto, chorando.  "Porque você não está brincando com seus novos brinquedos?" ele perguntou."Papai,  tenho tanto medo que vou quebrá-los" ele lamentou. 
    
Então o pai, um pouco decepcionado, foi para a garagem, e observou seu filho otimista brincando na pilha de esterco: "O que você está  fazendo?" ele perguntou, incredo."Ó, papai" exclamou o filho, "Tenho certeza que aqui vou achar um cavalinho para mim em algum lugar!" 
    
Otimismo e pessimismo . . . são duas perspectivas extremas sobre a vida,  lentes coloridas através das quais percebemos e interpretamos toda a vida.  Certa vez alguém descreveu o pessimista como "Alguém que se sente ruim quando se sente bem, por medo de que vai se sentir pior quando se sente melhor".  Outro definiu o otimista como alguém que tem 3 filhos jovens e somente um telefone. . .     "O otimista dá risada para esquecer.  O pessimista esquece de dar risada. . . .O otimista inventou o avião; o pessimista, o pára quedas." 
    
Todos nos já passamos por momentos difíceis na vida, quando só pudemos enxergar o preto da vida. Tudo parecia errado, nada satisfazia.   Mas também já experimentamos os momentos de alegria em que tudo parecia "mil maravilhas".  Qual destas perspectivas estava certa--a pessimista, ou otimista? 
    
A resposta é "ambas" e "nenhuma".  "Ambas", porque sem dúvida a vida nos proporciona momentos alegres e tristes.  "Nenhuma", pois falta uma perspectiva mais equilibrada.  É esta perspectiva realista que encontramos num livro pouco entendido da Bíblia.  É um livro voltado para o jovem que gosta de pensar  sobre o significado da vida, sobre o paradoxo deste mundo de festas e  funerais.  Este mesmo livro tem sido atacado tanto pelo seu aparente "pessimismo" quanto pelo seu conselho "libertino-otimista" ("comer, beber e divertir-se").  A realidade é que este livro, o livro de Eclesiastes, nos presenteia com uma filosofia de vida prática, equilibrada e radical. 
    
Parte do problema é a maneira como Eclesiastes começa: "Vaidade de vaidades, vaidade de vaidades" diz o Pregador.  "Tudo é vaidade".  Quem introduziria um bestseller desta maneira hoje?   Mas esta tese do autor precisa ser entendida à luz do livro todo.  Descobrimos que "vaidade" é a conclusão do homem que olha para o mundo com a perspectiva "debaixo do sol", ou seja, com olhos humanos.  A frase se repete 33 vezes no livro, e revela a futilidade de "correr atrás do vento" (9x), deixando Deus do lado de fora do nosso universo.  Como autor Charles Swindoll explica, "Alegria horizontal não permanece!  Precisamos por em ordem nossa vida vertical!" 
    
O autor deste livro é identificado como "o Pregador", filho de Davi, rei em
Jerusalém.  O melhor candidato é Salomão, tido como o homem mais sábio na face da terra.  Mas se Salomão era tão sábio, como podia cometer tantas besteiras como ele mesmo descreve em seu livro?  Como podia escrever um livro como Eclesiastes, se de fato caiu em quase todos estas aberrações?   
    
A razão é simples:  De todas as pessoas que já viveram, Salomão tinha mais condições para descobrir se alguma coisa, qualquer coisa, era capaz de satisfazer o coração humano.  Ele era o primeiro grande "biólogo" (estudante de vida) que experimentava no laboratório de vida para descobrir uma fórmula para significado verdadeiro "debaixo do sol".  No capítulo 2:1-11 ele alista algumas destas experiências:  planos e projetos, fama e fanfarra, posses e poder.  Mas a conclusão depois de tudo isso era a mesma--"vaidade de vaidades!" 


 O termo "vaidade" ocorre 37x no livro e é traduzida de várias maneiras.  Seu significado em Is. 57:13 é "vapor", e isso nos dá uma dica à idéia aqui: "Vapor de vapores, tudo é um vapor".  Em outras palavras, "debaixo do sol" nada permanece ou satisfaz o coração humano.  Tudo é como "algodão amargo" comprado nas farras da vida.  No início parece doce, mas logo derrete e deixa um sabor ruim na nossa boca.  Comentarista Derek Kidner diz que a "vaidade" da vida sem Deus é como "um pouquinho de fumaça, uma rajada de vento, um simples sopro ‑ nada que se possa pegar com as mãos, a coisa mais próxima do zero."  

Vida sem Deus é assim--não faz sentido, não tem substância, não permanece e não satisfaz. (1:3-11).  Isso porque a vida (sem Deus) é composta de

     a.  Ciclos Viciosos (3‑7) (tudo continua, menos o homem)

     b.  Insatisfação (8): (este mundo nunca nos satisfará completamente)

     c.  Nada Novo (9,10)  (tudo que é já foi e será outra vez)

    d.  Nada  Lembrado  (1:11) (dentro de poucas gerações tudo que era tão importante para nós será esquecido.  Dentro de 4 gerações provavelmente ninguém debaixo do sol lembrará do meu nome, muito menos as coisas que achei tão significativas.  

Por que a vida sem Deus é vazia?  Salomão responde a pergunta no capítulo 3, vs. 11: "Deus pôs a eternidade no coração do homem"!  Em outras palavras, existe um buraco-tamanho-Deus no interior do homem, e somente um relacionamento com o Criador é capaz de preencher este vácuo (12:1).  Como Agostinho disse séculos atrás, "Senhor, tu nos fizeste para ti mesmo, e o nosso coração não descansa, até que descanse em ti."   

"Salomão tentou espremer o suco de significado das pedras secas de vida debaixo do sol, mas não conseguiu nada que realmente dava 'vida em abundância'" (McGee) Este fato nos leva a reflexão: O que realmente vale a pena nesta vida?  Para que estou gastando minha energia, meu talento, meu dinheiro?   Se tudo debaixo do sol, sem Deus, será esquecido, qual a razão de viver?   Como devemos viver?  A resposta?  Olhar por cima do sol!  Precisamos examinar nossas vidas para determinar se estamos fazendo investimentos eternos, ou simplesmente brincando no esterco de um mundo condenado, esperando achar algo que realmente valha a pena.  Precisamos fazer investimentos  que permanecerão para sempre: 

    Na Palavra de Deus            

    Na Pessoa de Deus            

    No Povo de Deus 

Podemos resumir a mensagem desta parte do livro da seguinte maneira:"Debaixo do sol há  dor de infernoMas o temor do Senhor traz valor eterno" 

Em outras palavras, para não terminar sua vida com  mãos cheias do vento mas um coração vazio, é necessário adquirir um relacionamento íntimo e pessoal com Deus através do seu Filho Jesus Cristo.  Só esta perspectiva realista e "por cima do sol" é capaz de dar significado para a vida.  Se não, estaremos tão desequilibrados como o otimista ou pessimista.  No fim, ambos  descobrirão que suas bocas estão cheias de algodão amargo. 

Perguntas para Discussão 
1)  Avalie esta declaração: "A vida não examinada não vale a pena ser vivida."
2)  Você já experimentou a frustração de pensar que havia criado algo novo, só para descobrira verdade de Ec. 1:9 "O que foi, é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol."  Como que uma perspectiva correta de Deus pode ajudá-lo?
3)  Faça uma lista das "experiências de vida" feitas por Salomão em 2:1-11, e procure exemplossemelhantes no mundo atual.  Por quê estas coisas não satisfazem?
4)  Leia o poema sobre "Um Tempo para Tudo" em 3:1-14.  Como que "tempos determinados" poderiam nos desanimar?  Como que a perspectiva "de cima do sol" (divina) ajuda (veja 3:14)?
5)  Um desafio: À luz de 3:11 e 14, que tipo de investimentos devo fazer com minha vida?  Cp. Sl. 90:10,12