14 - Princípios de Disciplina Bíblica na Igreja (1 Co 5.1-13)

Princípios de Disciplina Bíblica

1 Co 5.1-13

Pr. Davi Merkh

Uma das doenças mais temidas na história da humanidade chama-se lepra, ou, hoje, Hanseniese.  Em 1979 tive a oportunidade de pregar numa colônia de pessoas leprosas na África.  Defrontei com as conseqüências trágicas de uma doença que desfigura o corpo humanoo.  Descobri que, além dos danos provocados na pele pela bactéria em si, pior ainda são os resultados da insensibilidade nervosa.  Em outras palavras, a doença provoca uma dessensibilização que faz com que a pessoa se danifique e não sinta nada.  O texto que vamos estudar adverte contra uma doença que chamo de “Lepra espiritual”.  É uma insensibilidade ao pecado, uma tolerância do pecado, tanto na família como na igreja.  Trata-se de pecado não-disciplinado.  Quando não disciplinamos nossos filhos, nós os condenamos à insensibilidade ao pecado.  Quando não disciplinamos os membros da família de Deus, na igreja, os condenamos à doença contagiosa de lepra espiritual. 

O pai que não disciplina seus filhos, condena-os a serem disciplinados pelo mundo afora.  Quem não apanha em casa, debaixo da mão firme mas amorosa do papai e da mamãe, apanha lá fora, debaixo da mão muito mais severa e nem um pouco amorosa. 

O mesmo princípio aplica-se à família de Deus.  A ilustração predileta na Bíblia para a igreja é de uma família.  Assim como na família tem que haver disciplina se seus membros vão desviar-se do mal, também deve haver haver disciplina na igreja se seus membros vão temer a Deus e criar sensibilidade espiritual. 

Mas alguns rejeitam esse princípio.  Da mesma forma como alguns fazem campanha contra disciplina corporal na família, há daqueles que creêm que disciplina corporal, ou seja, disciplina aplicada pelo Corpo de Cristo, é a antítese da graça.  Mas revelam uma compreensão distorcida da graça de Deus.  Graça só faz sentido no contexto de justiça!  Onde não existe justiça, graça não faz sentido. 

Disciplina é um exercício de amor e graça, libertando o pecador da escravidão do pecado. 

Chegamos num texto polêmico em nossos estudos em 1 Coríntios que trata dessa última questão: disciplina na igreja (1 Co 5.)           

Contexto:  Tendo tratado de problemas mais “filosóficos” de divisão na igreja, nos cps. 5 e 6 Paulo fala sobre problemas bem mais específicos, dificuldades e desgraças na família de Deus. 

No final do cp. 4 Paulo adotou a atitude de um pai espiritual carinhoso, um pai que ama tanto seus filhos que não admite que fiquem sem disciplina e correção (4.14,21). Como Provérbios diz, “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo o disciplina” (Pv 13.24).  A igreja é uma família.  Por isso, 1 Coríntios 5 trata do difícil problema do que fazer com membros da igreja, a família de Deus, que vivem em pecado.  Como lidar com pecado na igreja local? 

Assim como muitas igrejas hoje, a igreja em Corinto havia optado pelo caminho mais fácil. Em nome da graça e da tolerância haviam decidido não fazer absolutamente nada para limpar a igreja do pecado.  Talvez pensavam que, pelo fato de que o espírito já era salvo, não importava o que faziam com seus corpos.  Talvez achavam que, uma vez que chegaram num patamar de compreensão espiritual da graça, tinham total liberdade para fazer com o corpo o que bem entendiam.  Talvez haviam caído no erro do “pré-modernismo”--uma vida sem absolutos, sem padrão, mas de tolerância total do pecado. 

Mas Paulo, quando ouviu o relatório de pessoas da casa de Cloe (1.13) não se continha.  Ele escreveu esses capítulos do livro justamente para corrigir idéias errôneas sobre a igreja, seu testemunho na comunidade, e o lugar de disciplina na família de Deus. 

Hoje vamos descobrir 5 princípios de disciplina para a família de Deus na igreja local.  Vamos descobrir que

Disciplina bíblica é uma questão famíliar que visa restaurar a reputação de Jesus e o pecador ao Senhor. 

I. Disciplina Bíblica Envolve Denúncia Pública e Apropriada  do Pecado (5.1-4)

 

Geralmente se ouve” --  a palavra traz a idéia de “chegou a esse ponto”; “de fato”;  “acredite eu ou não!”  Deixa claro que o pecado  foi abertamente ventilado na comunidade.  O testemunho da igreja estava em jogo, e com ele, o nome e a reputação de Jesus Cristo.   

As más notícias se espalham! 

A situação envolvia imoralidade.  A palavra pode ser abrangente, tratando de qualquer tipo de fornicação ou aberração fora do plano de Deus para a vida sexual.  Mas Paulo define o caso específico como sendo de incesto.   

“possuir a mulher de seu próprio pai”—Parece que alguém da igreja, um suposto irmão, estava dormindo com sua madrasta.  Sabemos que foi com a madrasta porque não diz, “com sua própria mãe.”  Também parece que ela ainda era casada com o pai dele, pois é chamada “a mulher de seu próprio pai”.  Alguns acham que houve divórcio ou morte do pai, mas não sabemos.  Mas, conforme lemos no VT, foi um ato de incesto, confusão e desonra ao pai (Dt. 27.20, 22.30, Lv 18.6,8). O que deixa o apóstolo ainda mais indignado é o fato de que, nem entre os gentios pagãos, alguém ousaria fazer tal coisa.  Códigos civis da época proibíam tal besteira.  Mas a igreja em Corinto ficou orgulhosa por esse exemplo de tolerância!  (Ler vs. 2) 

A denúncia de Paulo nos vss. que seguem deixa claro que pecado público, que envolve e denigre o nome de Cristo na igreja local, tem que ser tratado publica e abertamente.  O “cristão” é um “pequeno cristo” na comunidade, intimamente associado com Cristo e com a igreja local.  Somos vigiados pela comunidade ao nosso redor, gostando ou não!  Não adianta varrer os problemas debaixo do tapete, como tantas igrejas tentam fazer hoje—ignorar o problema, na esperança de que vá embora.  Quando um pecado afeta o bom nome de Cristo na igreja local, precisa ser tratado aberta e definitivamente. 

“andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar”—Em vez de confrontar o pecado e o pecador, em vez de lamentar (a palavra é forte, e traz a idéia de luto num velório, como se um membro da família tivesse morrido), eles andavam estufando seu peito como se fossem os “bons”!  Por algum deslize incompreensível, achavam que “o amor cobre multidão de pecados”—mas não pecados confessados e, sim,  abertos, públicos, e sujos!  E o tempo todo, o leproso estava contaminado o corpo, a família, da igreja local e o nome de Jesus! 

No VT: Eli, Samuel, Davi, pais de família que condenaram seus filhos à lepra espiritual por não confrontarem, corrigirem e disciplinarem seus filhos.  

Que fosse tirado do vosso meio . . .”  Como devia ser tratado esse pecado aberto, público? 

Vss. 2b-4 mostram o caminho da disciplina.  Parece muito duro, abrupto e até mesmo precipitado.  Por que Paulo não aconselhou 3 visitas na casa do ofensor?  Por que não seguiu os passos de Mt 18?  Por que ele não “paparicou” o pecador para ver se não voltasse à igreja?  A Bíblia não diz que não devemos julgar nosso irmão? 

Ao invés disso, Paulo julga o ofensor, e afirma que está fazendo isso dentro da autoridade do nome de Jesus (conforme o próprio Jesus faria).  Temos que entender que a Bíblia nos manda não julgar os motivos e as motivações do coração do irmão e do ministro do Evangelho.  Mas nos chama, sim, para julgar pecado, discipliná-lo, quando esse se encontra na família de Deus. 

A disciplina tem que ser severa, em casos de pecados graves, porque os resultados de não disciplinar são muito piores! 

Mt 18.15-20 diz que, quando o irmão peca “contra ti”, devemos primeiro abordá-lo particularmente, depois com uma testemunha, e finalmente para a igreja toda.  Gal 6.1 também nos instrui a abordar um irmão que for “supreendido” numa falha para corrigi-lo e restaurá-lo.  Mas repare que os textos tratam de pecado particular, ou inesperado, que ainda dá para resolver entre os dois, e que não envolve um líder da igreja (1 Tm 5.19,20).  Mas, em 1 Co 5, o ofensor já sabia que estava errado, mas pecava assim mesmo. 

Pecado aberto, claramente conhecido como pecado, mas repetidamente cometido por um suposto irmão, que não se arrepende, membro da família, merece uma disciplina imediate, severa e pública. 

Em 1 Co 5 Paulo lida com um pecado que envolveu o nome de TODA a igreja, um pecado suficientemente grave, em que o pecador não se arrependeu.  Paulo pula todos os passos de Mt 18 e vai diretamente para o único passo que, nesta altura, seria capaz de restaurar o ofensor e o nome da igreja!  Parece ser o caso quando se trata de pecado aberto, claramente conhecido como pecado, mas sem arrependimento, como no caso de imoralidade. 

(11) Alguns exemplos de pecados que merecem esse tipo de tratamento estão alistados no vs. 11: impureza (sexual), avareza (falta de ética nos negócios), idolatria, fofoca (maldizente), beberrice, roubo. Entendemos esse princípio na prática se não na teoria.  Imagine o pai chamando seu filho de lado e dizendo, “Filho, sei que nunca te falei.  Mas arrancar todo o cabelo da sua irmã não é coisa boa.  Agora quero que você se sinta nesta cadeira por 5 minutos, refletindo na vida.”  

Da mesma forma, existem casos na igreja que são suficientemente sérios que envolvem disciplina imediata e severa, para preservar a reputação de Jesus Cristo associada a igreja local. 

É interessante que Paulo vai um pouco além.  1 Tm 5.19,20 deixa claro que pecado na vida de uma figura pública na igreja, um líder espiritual, também precisa ser tratado abertamente, mesmo que o pecado fosse particular, justamente para que todos aprendam a seriedade do pecado e a responsabilidade de ser um embaixador de Deus diante dos homens. 

Uma palavra de cautela: Quando falamos em tratar publicamente o pecado, não quer dizer que vamos falar publicamente tudo que o pecador fez.  Ef 5.12 diz que é vergonhoso falar abertamente sobre algumas coisas que pecadores fazem aos ocultos.  Temos que tomar muito cuidado para não fazer do pecado uma isca atraente, uma curiosidade, ou um escândalo na igreja. 

 

II. A Disciplina Bíblica Visa Preservar a Igreja (5.1,2, 6-8)

 
A.      O Testemunho da Igreja (1-2)

A disciplina visa preservar o testemunho da igreja diante daqueles que estão fora dela.  Paulo deixa claro que o pecado se tornara público (1), que eles deveriam ter lamentado disso (2), e que a presença do pecado no meio deles iria contaminar a igreja toda (5,6).   

Temos que lembrar da posição da igreja no primeiro século.  Foi uma entidade totalmente inédita, desconhecida, considerada esquisita ou, pior, uma seita perigosa.  Qualquer boato ou crítica poderia prejudicar o testemunho de Jesus e condenar milhares para o inferno. O pecado na vida do crente não é uma brincadeira. Temos que ser zelosos pelo nome de Cristo, pois o destino de todos ao nosso redor depende disso!   

Somos faróis no meio de um mar em tempestade, a única esperança de vida para pessoas afogando no pecado.  Se a lanterna apagar, ou ficar suja, o que será deles por toda a eternidade?  Sujeira na igreja não é brincadeira, mas uma responsabilidade eterna! 

Paulo não tolerava aqueles que toleravam pecado aberto em seu meio! 

Assim como os pais precisam obedecer a Deus na disciplina dos seus filhos, os líderes da igreja precisam obedecer a Jesus na disciplina de seus membros.  Não temos escolha, a não ser que queiramos desobedecer a Deus.  Na disciplina dos nossos filhos fazemos isso.  Quando o filho erra, falamos, “O que Deus pede para mamãe (ou papai) fazer . . .?”  A resposta é “Disciplina”.            

B.  A Saúde (Purificação) da Igreja (6-8)

A disciplina também visa purificar a igreja e proteger os próprios membros de contaminação com o pecado. 

A lepra era (e é) uma doença contagiosa.  Por isso, nos tempos bíblicos, a pessoa leprosa ficava afastada dos outros.  Mas, não é uma doença facilmente contraída.  Exige contato prolongado e íntimo com a pessoa infeccionada.  Creio que é por isso que Paulo exige que o pecado seja tirado do meio dos irmãos, para não contagiá-los. 

Ler 6-8. 

A disciplina visa espalhar o temor a Deus no coração de todos (veja 1 Tm 5.19,20).  A presença de pecado abertamente tolerado pela liderança da igreja barateia a graça, anula a santidade e soberania de Cristo, e mina o propósito da igreja.  Outros pecadores serão influenciados.  Assim como um pouco de fermento na massa de pão eventualmente espalha para permear tudo, o pecado espalha quando tolerado na igreja.   O mau exemplo de um contaminará a outros.  Um fruto podre contaminará toda a cesta de frutos.  Um câncer não detectado e tratado irá espalhar pelo corpo inteiro.  Talvez por isso encontramos tantas igrejas doentias hoje.  Perdemos o hábito de disciplina bíblica e familiar na igreja. 

Mas disciplina bíblica, séria, graciosa, servirá como lição para os demais. Manterá a santidade providenciada pelo sacrifício de Cristo (vs. 8).  Assim como o irmão mais novo aprende quando vê seu irmão sendo disciplinado; assim como o simples em Provérbios pode aprender quando vê o tolo sendo disciplinado; da mesma forma a igreja aprende a correr do pecado quando vê disciplina bíblica levado à sério. 

Essa é uma das maiores carências que vejo na igreja hoje.  Nos EUA, praticamente não se ouve mais de disciplina na igreja local.  O medo de processos, litigios e mais é tão grande, que as igrejas não mais disciplinam seus membros.  Infelizmente, a igreja brasileira caminha na mesma direção. 

 

III. Disciplina Bíblica Restringe-se à Família de Deus (9-13) 

Paulo deixa bem claro que disciplina começa com a família de Deus, pelo menos com aqueles que têm algum vínculo com a igreja local. 

Ler 9-13

Na família, minha responsabilidade é disciplinar meus próprios filhos, não os filhos do vizinho.  Os pais deles é que têm que cuidar deles.  Já tenho muito trabalho cuidando da minha própria casa!  Da mesma forma, a família de crentes em Corinto foi responsável por disciplinar seus próprios membros, não os de fora. 

Havia uma dúvida entre os coríntios quanto a isso, por causa de uma carta anterior que o Apóstolo havia escrito, mas que não existe hoje.  Ele tinha comentado que, para manter o testemunho da igreja limpo, os crentes não deviam se associar com os impuros.  Mas ele nunca quis dizer que eles deviam separar-se dos impuros do mundo, mas dos impuros da própria igreja!   

Ironia: Nós nos separamos dos “pecadores do mundo” (que devem ser alvos de evangelismo) e não dos “pecadores da igreja” que são alvos de disciplina.  Disciplina começa com a casa de Deus!  Somos uma família, e a família cuida dos seus membros, advertindo-os e disciplinando-os para não caírem nas armadilhas do diabo.  Mas nós não nos separamos dos incredulous.  Ninguém espera que eles viverão a vida cristã.  Seu mau testemunho não afeta em nada a reputação de Cristo na igreja.   

Encontramos muitos cristãos hoje que ficam mais preocupados em limpar o mundo do que limpar a igreja!  Fazem marchas para Jesus, campanhas políticas, baixo-assinados e muito mais na tentativa de limpar a sociedade.  Outros afastam-se totalmente dos incredulous, e formam seus pequenos clubes evangélicos para não ter que lidar com a sujeira do mundo.  Mas Paulo diz que a limpeza deve começar na nossa casa, e não na rua!  Deus há de julgar os que são de fora, mas Ele deu para nós a responsabilidade de cuidar da nossa casa.  Disciplina é um negócio de família, para seus membros e não os filhos do mundo. 

IV. Disciplina Bíblica Envolve Separação Visando Restauração (5.2b, 5, 7a, 9-10) 

Mas o que é a disciplina bíblica?  O texto deixa claro que é exclusão dos benéficios da comunhão da igreja, visando uma restauração da reputação de Jesus e do pecador à comunidade. 

A.      Separação do Pecador

  5.2  tirado            5.5 entregue a Satanás            5.7  lancai fora  

5.11 nem comais             5.13 expulsai 

Trata-se de um ato formal, público, unânime da igreja local, em nome de Jesus (conforme a Palavra dEle e como Ele faria).  Mt. 18.18-20 diz que quando 2 ou 3 concordam sobre uma questão de discipina (como testemunhas) Deus estará no meio, afirmando a disciplina. 

Assim como a pessoa leprosa foi mantido à distância para não contaminar os outros, o pecador precisa ficar fora da comunidade local. 

Contexto: Naquele contexto, exclusão da comunhão da igreja foi muito séria.  As pessoas já haviam sido margenalizadas por terem aceito Cristo.  Seria difícil voltar para seus velhos amigos.  Ao mesmo tempo, diferente que os dias de hoje, não podiam simplesmente transferir sua membresia para a igreja na esquina.  Não havia outra igreja na esquina! “Fora” significava fora mesmo, exposto ao mundo, na esfera do diabo, sem amigos, sem apoio, sem comunhão, considerado como um leproso pelos irmãos da igreja.  Esse tratamento de choque foi feito justamente para fazer com que o pecador caísse em si mesmo, e sentisse tamanho burrice do seu caminho, e voltasse correndo para a comunhão e proteção da igreja.   

“entregue a Satanás”-- Paulo quer que o ofensor seja tirado do círculo de proteção e comunhão que é a igreja local, removido de debaixo do guarda-chuva de proteção divina da igreja, e colocado, exposto, às chuvas diabólicas.  O processo deve ser tão doloroso, tão prejudicial à saúde espiritual, emocional e física do homem, que mesmo sofrendo destruição física, sua alma encontrará salvação eterna.   

É difícil entender esse processo.  Mas sabemos que há disciplina física por pecado, às vezes levando até a morte (1 Jo 5.16,17, 19;1 Co 11.30;  Tg 5.13 ss.) 

Mateus diz que seria tratado com “publicano e pecador”, ou seja, alguém totalmente repudiado e rejeitado (não como alguns dizem, torcendo as Escrituras, que devia ser paparicado para atraí-lo de novo para a fé.)

B.  Restauração

 Ler 5.5.   Existe uma diferença entre castigo e punição. 

Na família, não punimos nossos filhos.  Não nos vingamos deles.  Não procuramos o mal, mas o bem deles.  Não procuramos envergonhá-los desnecessariamente.  Da mesma forma, disciplina na família de Deus visa restaurar seus membros para comunhão plena com a família e com Deus.  Não fazemos isso para machucar, envergonhar, ou ferir, mas restaurar.  Mas restauração envolve dor.  Por exemplo, Pv 19.19 diz, “Homem de ira tem de sofrer o dano, pois se tu o livrares, voltará a repeti-lo de novo.”   

Restauração acontece em dois níveis:

   1)      Restaurar a reputação de Jesus na comunidade local (1,2)

  2)      Restaurar o pecador à comunhão com Jesus e com a comunidade local (5) 

Aqui encontramos a graça de Deus.  Mesmo que um membro da igreja tenha sujado o nome de Cristo e da igreja local; mesmo que isso tenha prejudicado a reputação da igreja na comunidade; ainda existe esperança para o pecador.  A disciplina bíblica visa preservar o testemunho de Cristo na comunidade, mas também visa restaurar o pecador.  Queremos punir.  Queremos nos vingar pela vergonha que causou a nós, à igreja e a Cristo.  Mas temos que perdoar, quando há arrependimento genuíno. 

2 Co 2.5-11 é um texto importante na discussão.  Na disciplina bíblica, tem que haver eqüilíbrio.  Somos severos, públicos e imediatos na disciplina, mas também somos graciosos e imediatos na expressão de amor quando o pecador arrepende-se.   Satanás também pode usar o excesso de disciplina para derrubar a igreja e seus membros.  Não sabemos se a mesma situação está em vista em 2 Co 2, mas o princípio se aplica. O que constuti arrependimento genuíno?  À luz de 1 Co 5 e 2 Co 2, além da experiência de disciplina no contexto do lar, quero sugerir que envolve:

   1)      Confissão do pecado (dizer a mesma coisa que Deus diz sobre ela, sem desculpas)

   2)      Humildade em pedir perdão (“Pai, pequei contra Deus e contra o senhor”)

   3)      Tristeza genuína (não por que foi pego; a ficha precisa cair da seriedade da ofensa) 

   4)      Submissão à disciplina estabelecida pela liderança local 

Quando há dúvida, devemos errar ao lado da restauração, sem ser cínicos ou céticos, mas também sem ser bobos. 

Entenda que Paulo não dá a opção de um meio termo aqui.  O pecador não arrependido deve ser totalmente margenalizado, tirado do meio da igreja para não continuar sujando o nome da igreja.   

Cautela: Mas uma vez restaurado, ele não dá a opção de ter o homem na igreja mas ainda tratado como publicano.  Francamente, não vejo espaço para essa posição nas Escrituras.  Se está fora, está fora mesmo.  Se está dentro, deve ser recebido, acolhido, perdoado e abraçado, mesmo que seu pecado ainda implique em limitações quanto ao envolvimento nos ministérios da igreja.  Na família, recebemos o filho arrependido de volta, com braços abertos, com carinho e afirmação de amor.  Mas também há conseqüências.  Perde certos privilégios por um tempo.  Talvez não possa brincar fora; ou assistir tal programa; ou passear com o amigo.  Continua filho, não deve ficar “de castigo” e afastado, mas perde certos privilégios. 

Conclusão:

Lepra espiritual . . . uma doença fatal se não tratada.  Insensibilidade ao pecado acaba destruindo a igreja local de dentro para fora.  Torna-se uma igreja desmembrada, deficiente, insensível, paralítica. 

Idéia:

Disciplina bíblica é uma questão famíliar que visa restaurar a reputação de Jesus e o pecador ao Senhor.