Amor Fiel (Monólogo Rute)

      Amor Fiel  (Monólogo Rute)       

Prof. Davi Merkh            

(32-35 minutos)                     

Ah, vocês já chegaram!  Que bom que vocês resolveram visitar nossa pequena vila de Belém!  Meu marido diz que vâo almoçar conosco. Se eu me importo?  De jeito nenhum!  Um trabalhinho a mais nunca matou ninguém--muito menos a mim!  Ah, se vocês soubessem o que um pouquinho de trabalho sério e muita fé fizeram por mim!  Mas essa é uma história à parte. . .  O que?  Querem ouvi-la?  Bem, acho que dá o tempo certinho.  

Tudo começou há anos atrás, quando eu era adolescente em Moabe.  Nâo, como vocês provávelmente já advinharam, nâo sou judia . . . quer dizer, nâo nasci judia.  A verdade é que o povo judeu e o meu sâo inimigos há séculos, a ponto de certa vez seu Deus Adonai ter proibido que qualquer um de meu povo entrasse no Tabernáculo de Israel, até a décima geração. 

Foi em Moabe que conheci uma família interessante--estrangeiros--a família de Elimeleque.  Nunca me esqueço do dia em que chegaram!  Que grupo abatido de imigrantes!  Elimeleque e sua esposa Noemi, seus dois filhos Malom e Quiliom, e uns poucos empregados.  Era óbvio que vinham de uma longa jornada--estavam cobertos de pó, suados, cansados, com sede.  Tinham vindo lá de Israel, de fato, daqui de sua cidade natal de Belém.  Quando uma seca muito grande arruinou sua safra, Elimeleque juntou tudo que tinha e partiu para Moabe.  Era um homem ambicioso--líder na vila, que simplesmente ficou "por aqui" com as condiçôes de vida em Israel.  Esses foram dias difíceis em sua terra--os dias dos Juízes.  Mas essa realmente é outra história. . .

 

A família logo se integrou em nosso vilarejo.  Elimeleque gastou toda sua poupança na compra de um terreno, e  ele e os rapazes plantaram cevada.  Mas nada parecia dar certo.  Primeiro uma praga de gafanhotos e depois uma estiagem inesperada ameaçaram arruinar a colheita.  Elimeleque deu pra ficar nervoso, daí ficou doente.  Ele nunca se recuperou.  Naquele inverno Malom e Quiliom sepultaram seu pai, enquanto Noemi observava e chorava.   

Alguns meses mais tarde, pouco antes da semeadura da primavera, encontrei-me com Malom no mercado.  Quando trocamos olhares ele corou, e eu lhe dei um sorriso de cumprimento, mas nâo pensei mais nisso--até algumas semanas depois.  Foi quando meu pai declarou que tinha uma notícia importante para mim: ia casar-me com Malom, filho de Elimeleque o Israelita, na próxima noite de lua cheia. 

É claro que era assunto encerrado.  Eu sabia mesmo que era hora de casar, que meu pai precisava do dinheiro do dote.  Minhas irmâs e irmâos mais novos levariam facilmente minha carga de serviço em casa.  E confesso que achei que Malom daria um bom marido e pai.  Parecia que os maridos israelitas tinham maior consideraçâo com as esposas que os homens do nosso povo.  Quem sabe se, com o tempo, eu até aprenderia a amar Malom! 

Nossos primeiros anos juntos foram bons, se bem que difíceis.  Malom e eu fomos morar com a mâe dele, Noemi, lá no sítio.  Meu cunhado Quiliom também casou-se, com outra moça de nossa vila, a Orfa. Todos trabalhávamos muito e dava pra sobreviver. Até cconseguimos fazer umas economias e pensamos em encomendar um nenê.  Infelizmente nâo parecia ser possível. . . 

Um dia os homens estavam ocupados com a remoçâo de algumas grandes pedras de um canto do nosso campo.  Noemi, Orfa e eu estávamos preparando o almoço quando de repente um dos empregados entrou correndo.  Enquanto procurava recuperar o fôlego, conseguiu dizer que tinha havido um terrível accidente.  Deixamos a casa e corremos para o campo.  Chegando perto, dava só para ver uma carroça virada e um dos nosso bois caido ao lado.  Daí Orfa correu para a figura prostrada de Quiliom, mortalmente pálido e imóvel.  Ele já se fora. 

Encontrei Malom ainda parcialmente coberto de cascalho.  Sangrava muito e respirava com dificuldade.  Entendi que estava morrendo.  Mas em meio á sua dor, ele tentava dizer-me algo.  Com sua cabeça em meus braços e lágrimas a escorrer pelo rosto, aproximei-me e o ouvi sussurrar quatro palavras que nunca esquecerei:  "Rute . . . cuide de mamâe."  Entâo ele deu uma estremecida e ficou inerte.  E eu me tornei viúva aos 25 anos de idade. 

Éramos um trio mórbido--três viúvas: uma sogra e duas noras--todas sem filhos e quase que sem um tostâo.  Nâo foi pra menos que Noemi, quando ouviu que em Israel os campos tinham voltado a produzir, resolveu que era hora de voltar pra casa. 

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Desde o início tornou-se óbvio que ela pretendia viajar sozinha.  Insistimos em peregrinar com ela.  Mas quando chegamos à estrada que nos levaria a Judá, Noemi voltou-se para nós e, com lágrimas nos olhos, suplicou que buscássemos estabelecer lares entre nossa própria gente.  Recusamos, mas Noemi fez questâo de insistir:  

"Minhas filhas," ela disse, "vocês serâo estrangeiras em terra hostil.  E nâo adianta esperar outros maridos de meu ventre.  Adonai esvaziou-me de toda esperança, e vocês também levarâo vidas sem esperança ao meu lado.  Voltem às suas famílias, à sua gente, ao seu deus Quemose, e a maridos que talvez ainda tenham." 

A essa altura, Orfa entregou os pontos.  Soluçando, beijou Noemi, abraçou-a, virou-se e correu de volta à cidade.  Nunca mais tivemos notícias dela. 

Mas eu nâo consegui deixá-lá.  As últimas palavras de Malom ecoavam em cada fibra do meu ser.  Noemi precisava de mim.  Eu precisava de Noemi.  Por isso supliquei-lhe:  

"Nâo insista que eu a deixe ou que retorne sem você. onde você for irei eu, e onde você ficar tamém ficarei.  Seu povo será meu povo e seu Deus o meu Deus.  Onde você morrer, morrerei, e ali serei sepultada.  Que Adonai me puna, até mesmo severamente, se outra coisa que nâo seja a morte me separar de você." 

E com isto selei meu sigiloso voto a Malom.  Abraçamo-nos, e nossas lágrimas se misturaram ao pó da estrada que nos conduzia ao ocidente--em direçâo à terra da promessa. 

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Nossa viagem levou vários dias.  Tivemos a sorte de encontrarmos uma caravana de peregrinos a caminho de Jerusalém para a Páscoa judaica, e assim fomos bem protegidas dos ladrôes que espreitam naquelas bandas. 

Ao nos aproximar de Belém, um turbilhâo de emoçôes agitava-se em mim.  Sentia expectativa, nervosismo e um pouco de medo.  Vendo campo após campo de cevada cultivada, nâo pude evitar a pergunta:  Como viveremos?  O que comeremos? Onde moraremos?  Será que alguém nos ajudará? 

Poucas vezes havia deixado minha vila, quanto mais viajado a um outro país.  E eu estava bem ciente das hostilidades entre Israel e Moabe.  Vinham desde o tempo do rei Balaque e seu profeta-fantoche Balaâo.  E nâo fazia tanto tempo que Eude de Israel tinha assassinado o gordo rei Eglom e subjugado nosso povo.  Fiquei a me perguntar como seria tratada. 

Arrepiei-me com as histórias de horror que ouvira recentemente.  Uma mulher daqui mesmo de Belém tinha sido violada e abusada a noite inteira numa cidadezinha vizinha por um bando de moradores.  E quando seu marido a encontrou morta, cortou-a em doze pedaços e a fez viajar por todo o país.  Por mim, preferiria outro tipo de excursâo! . . . 

Mas eu também estava empolgada.  Empolgada por pisar na terra que mana leite e mel.  Empolgada por poder dar ao menos uma olhadinha no Tabernáculo de Adonai, mesmo que talvez nunca me fosse permitido entrar ali. 

Daí chegamos.  Tâo logo passamos pelos portôes da cidade, parecia que pessoas de toda parte vinham correndo ao nosso encontro.  Noemi era o foco da atençâo de todos, e confesso que me dei por satisfeita em ficar no anonimato.  Foi entâo que percebi o desgaste dos anos sobre a minha sogra.  Os habitantes quase nâo reconheceram aquela que no passado havia sido sua amiga e irmâ.  Também ficaram um tanto espantados pelo seu pedido de ser chamada "Mara"--amarga--em vez de Noemi, que é "cheia."  "É porque o Senhor tem tornado amarga a minha vida" disse ela. "Saí cheia, mas o Senhor me afligiu, me trouxe infortúnio, me trouxe de volta vazia." E assim chegamos afinal a Belém--a "casa de pâo".  Mas eu no fundo me perguntava se no dia seguinte encontraríamos mesmo pâo em nossa mesa. 

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Naquela noite Noemi tornou a me explicar muitos dos costumes e leis do seu povo.  Achei fascinante esse Deus que preferia obediência a holocausto, e misericórdia a dinheiro.  Foi entâo que soube da lei sega, uma provisâo no código civil de Adonai.  A lei proibia os proprietários a colherem por completo o que crescia em seus campos.  Aos pobres era concedido o privilégio de segar os cantos dos campos e as espigas que caíssem das carroças de recolhimento.

 

 "Ó, Noemi", exclamei, "Será que Adonai vai suprir o nosso pâo desta maneira?" 

"Minha filha, nâo é assim tâo fácil como você pensa.  Há muitos pobres lutando por cada grâo, e sâo poucos os proprietários verdadeiramente piedosos.  Além disto, você é estrangeira, e uma linda jovem.  Você estaria se arriscando muito." 

"Mas mâe Noemi, se eu nâo colher, morreremos de fome.  Nâo terá Adonai poder para me proteger e ao menos suprir o suficiente para sobrevivermos?" 

Prevaleci, afinal, e o assunto ficou resolvido.  Bem cedo no dia seguinte, eu buscaria nosso sustento entre os feixes de Israel. 

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Estava frio e o céu ainda apagado mostrava apenas traços do sol da manhâ quando peguei a estrada.  Talvez devesse ter-me sentido muito só, muito temerosa.  Mas eu sabia que Deus estava comigo.  "Ó Adonai" orei, "mostra-me onde queres que colha hoje." 

Prossegui pelo caminho, passando um campo depois outro.  Nâo sei bem por que nâo parei em nenhum desses; simplesmente senti inquietaçâo quando me aproximei do portâo de cada um.  Finalmente no terceiro campo aproximei-me do homem que evidentemente era o supervisor dos ceifeiros. -Com licença, senhor.-Pois nâo, minha jovem.-Por favor, senhor, deixe-me segar e colher entre os feixes depois dos ceifeiros. 

Ele parou por um instante, aí vi brilhar reconhecimento em seus olhos. -Você nâo é a moabita que voltou com Noemi? Senti minhas mâos começarem a suar e meus lábios tremiam, mas respondi com firmeza: -Sim, senhor.  Ela é a minha sogra e precisa de minha ajuda. Após nova pausa ele simplesmente respondeu: -Está bem, vá com os outros ceifeiros.  Mas cuide para nâo mexer no que ainda nâo for colhido.  Meu senhor Boaz é uma pessoa excelente--dos melhores em Israel-e nâo permitirei que alguém se aparoveite dele. -Ó, agradeço, senhor, muito, mas muito mesmo! 

E quase tropecei na corrida ao campo para unir-me aos demais ceifeiros. 

A sega nâo é tarefa fácil.  Os primeiros empregados derrubavam os feixes do cereal, e as servas seguiam atrás, colhendo os ramos e amarrando-os para serem colocados na carroça.  Nós que vínhamos atrás colhíamos aqui e ali um ramo isolado.  Era trabalho árduo, exaustivo.  Mas trazia ao menos alimento suficiente para a sobrevivência, caso o ceifeiro perseverasse na tarefa. 

E eu perseverei.  Somente uma vez parei, assim mesmo só para fugir um pouco dos raios do sol e descansar no pequeno abrigo ao lado do caminho.  E fui amplamente recompensada pelo meu trabalho.  Perto da hora do almoço já havia colhido o suficiente para nosso jantar e também para o desjejum da  manhâ seguinte. 

Enquanto refletia sobre essa bênçâo, uma voz grave e sonora do outro lado do campo chamou-me a atençâo.  Parecia lembrar-me da fonte da minha prosperidade: "O SENHOR seja convosco!" proclamou aos empregados.  "O SENHOR seja contigo!" responderam, como se num côro orquestrado. "Esse deve ser o dono do campo" eu pensei.  "É impressionante como seus servos o respeitam.  Este é um lugar maravilhoso de se trabalhar!" 

Enquanto continuava a colher, percebi que o homem--forte e formoso, um pouuco grisalho nas têmporas--fez questâo de falar com cada um de seus empregados pessoalmente: uma palavra de encorajamento aqui, uma palmadinha nas costas ali, uma pergunta a respeito de alguma esposa ou criança.  Ele finalmente chegou ao meu lugar de trabalho.  Meu coraçâo quase parou enquanto se aproximava. 

"Moça, escute-me" ele disse.  "Nâo vá a nenhum outro campo para colher.  Fique com minhas servas.  Siga-as no campo onde os homens estâo segando.  Nâo se preocupe com os trabalhadores.  Já os avisei todos que nâo a perturbem.  E quando tiver sede, sirva-se das jarras de água que os homens encheram." 

Era demais para mim.  Com o rosto em terra respondi, "mas senhor, por que me abençoas assim, a mim que sou de longe, estrangeira, a quem nem sequer conheces?" 

"Ah, mas eu a conheço.  O bastante para ssaber que voltou com Noemi após a morte de seu marido.  O bastante para saber que você deixou tudo que conhecia e amava para peregrinar entre um povo que antes nâo conhecia.  O bastante para saber de seu amor leal por um membro da casa de Israel.  Que o Senhor a abençoe por tudo que tem feito.  Que você seja ricamente recompensada pelo Senhor, o Deus de Israel, sob cujas asas você buscou refúgio." 

Era óbvio que ele fizera a pesquisa completa.  Com o coraçâo regozijante, eu o agradeci da forma mais graciosa que pude.  "Que eu continue a achar mercê diante de teus olhos, meu senhor.  Tens me tratado com tanta bondade, mesmo sem ter ao menos a posiçâo de uma de suas servas." 

Um pouco mais tarde eu me sentei na sombra e começei a desembrulhar os pâezinihos que preparara como lanche, quando o capataz me chamou.  Deixei  meu lugar e fui informada de que o senhor havia mandado chamar-me. 

"Venha para cá" disse ele, "Aceite este pâo e mergulhe-o no molho." 

Aceitei de bom grado o que me ofereceu, entâo ele indicou-me um lugar entre os ceifeiros e ali me assentei.  Aí passou-me uma porçâo generosa de cereal recém assado.  Comi até me satisfazer, e ainda sobrou bastante.  Isto embrulhei cuidadosamente com o lanche que nâo tocara, e voltei para o campo. 

Se de manhâ achei que tivera sucesso, a tarde foi uma festa.  Parecia que por onde eu andasse havia ramos soltos ou espigas no châo.  Trabalhei até que quase nâo agüentava levar minha carga de cereal.  Mal podia crer no que viam meus olhos: recolhera quase meio cesto de cereal aproveitável--coisa que normalmente levaria uma semana de sega!  "Louvado seja Adonai!" exclamei, ao levar minha preciosa carga de volta para Noemi. 

Minha sogra nâo se conteve de alegria. Queria saber de tudo.  Contei-lhe a história e entâo, finalmente, citei o nome do homem com quem trabalhara.  "Foi Boaz" eu disse. 

Os olhos dela brilharam.  "Boaz!  Que o Senhor o abençoe!  Ah, o Senhor continua a mostrar Sua bondade para com os vivos e os mortos!" 

"Por que?  Há algo especial nele?" 

"Rute, você nâo sabe?  Esse homem é nosso parente chegado--é um dos nosso remidores!" 

Entâo compreendi.  Noemi havia falado da lei do remidor em Israel.  Era ainda outra expressâo da bondade de Adonai para com os menos afortunados.  É que quando um marido morria sem ter dado filhos à sua viúva, o parente mais próximo devia casar-se com a viúva.  Por que?  Para dar-lhe um filho para preservar o nome do falecido em Israel.  Também tinha obrigaçâo de resgatar qualquer propriedade que corresse o risco de sair da família, entregando-a ao herdeiro.  Assim como na lei da sega, muitos em Israel nâo cumpriam a letra da lei, e eu, sendo maoabita, tinha pouca esperança de usufruir plenamente dos seus benefícios.  Mas entendi o que Noemia dizia.  Ao menos poderia encontrar favor aos olhos deste remidor e ser abençoada como fora hoje. 

"Rute" disse minha sogra, "faça exatamente como Boaz disse.  Nâo se atreva a colher em outro campo!" 

Como se eu precisasse de uma ordem dessas! 

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As segas da cevada e do trigo passaram rapidamente.  Cada dia cedinho eu trabalhava nos campos de Boaz, e cada dia eu trazia frutos de uma farta colheita. 

Certo dia, enquanto Noemi e eu peneirávamos os restos de minha sega e juntas nos maravilhávamos em vista da bênçâo divina, seu semblante ficou mais sério. 

"Rute, nâo será esta a hora de eu tentar achar-lhe um lar onde você será bem cuidada?" 

Mas Noemi, sou tâo feliz aqui, com você.  Adonai está suprindo todas as nossas necessidades.  Somos uma família." 

"Nâo, Rute, nâo somos uma família.,  Posso ser-lhe uma mâe, mas nâo posso ser-lhe marido e filho.  Mas há alguém que pode dar-lhe as duas coisas--Boaz.  Nâo é nosso parente?  Nâo tem ele já demonstrado admirável bondade para com você?  Escute meu plano . . ." 

Ouvi suas instruçôes, escutando como nunca antes.  Naquela noite, vestindo minhas melhores roupas e o perfume mais agradável, dirigi-me silenciosamente à eira onde Boaz e seus homens limpavam a cevada.  Permaneci nas sombras e escutei suas risadas enquanto trabalhavam, comiam, bebiam, cantavam, e finalmente se recolheram para dormir.  Cada homem posicionou-se perto de um monte de cereal, Boaz perto do maior, para proteger a safra.  Quando todos estavam profundamente adormecidos dirigi-me em silêncio até o monte de Boaz.  Ali, com o coraçâo batendo tâo forte que temi  com ele acordar o grupo inteiro, removi o cobertor dos pés dele e  me deitei.  Pensei que na certa acordaria de imediato,  mas nâo foi até bem mais tarde que ele despertou, sentou-se de repente, e perguntou em sussurro severo, "Quem é você?" 

Numa voz pequenina respondi, "Sou tua serva, a Rute.  Estende pois a tua aba sobre a tua serva, porque és o remidor." 

Esperei à luz da lua, corpo trémulo, rosto ardendo, sentindo-me ousada e envergonhada, atrevida e tímida tudo ao mesmo tempo.  Era a primeira vez que fazia um pedido de casamento!   

Ele afinal respondeu-me: 

"Bendita sejas tu do Senhor, minha filha: melhor fizeste esta tua última beneficência do que a primeira, pois após a nenhum mancebo foste, quer pobre quer rico.  Agora, pois, minha filha, nâo temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa.  Porém agora é muito verdade que eu sou remidor: mas ainda outro remidor há mais chegado do que eu.  Fica-te aqui esta noite, e será que, pela manhâ, se ele te redimir, bem está, ele te redima; porém, se te nâo quiser redimir, vive o Senhor, que eu te redimirei, casando-me contigo." 

Mal podia crer no que estava ouvindo.  Mas deitei-me e esperei quase até o raiar do dia.  Entâo levantei-me para sair em silêncio.  Boaz também assentou-se (achou que ele também nâo dormiu quase nada!).  Instruiu-me cuidadosamente a que nâo dissesse a ninguém que estivera ali.  Entâo pediu meu xale e ali colocou 6 medidas completas de cevada--acho que podeiam ser consideradas meu anel de noivado!  Entâo mandou que voltasse a Noemi. 

Mal conseguia me conter ao entrar na casa.  Noemi estava à minha espera. Podia sentir minha empolgaçâo. 

"Como foi, Rute?" 

Contei-lhe tudo, entâo mostrei-lhe a cevada. 

Noemi simplesmente sorriu e disse, "Espere, minha filha, até ver o que acontece.  Pois aquele homem nâo descansará até que conclua hoje este negócio. 

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Ela tinha razâo!  Mais tarde soube de toda a história através de um dos vizinhos, cujo marido era anciâo de plantâo no portâo da cidade naquele dia.  Boaz foi aparentemente o primeiro a chegar ao portâo.  Quando o parente mais chegado apareceu para fazer negócios em Belém, Boaz convidou-o para assentar-se por um tempo.  É claro  que ele entendeu que era uma questâo de negócios oficiais, e sendo um astuto mercador imediatamente tomou seu lugar e esperou que 10 anciôes se congregassem.   

Era de fato astuto, mas Boaz estava ainda mais à frente!  Começou com uma referência a uma propriedade que pertencera a Elimeleque.  Como parente mais chegado, era o direito deste parente de Noemi comprar a terra da mâo de Noemi para evitar que saísse  da família.  E o preço era ótimo.  Qual bom negociante desprezaria tamanha oferta?  Certamente nâo este. 

claro" continuou Boaz, depois que o outro concordara com a compra, "que você entende que o resgate desta propriedade também o obriga a suprir um herdeiro para a propriedade, ou seja, um filho para Rute a moabita."  Foi aí que a mâo do parente ficou presa na bolsa.  Nâo contara com este desenrolar das circunstâncias.  Suas motivaçôes ficaram expostas pelo que de fato eram--financeiras e nâo redentivas.  Assim Boaz o pegou. 

"M-m-m-mas eu nâo posso fazer isso" ele gaguejou.  "Assim eu teria que comprar a propriedade, cuidar das mulheres, alimentar uma nova família, e finalmente entregar tudo ao herdeiro.  Talvez até prejudique a herança de minha própria família!" 

"Entâo você se recusa a ser remidor?" 

"Nâo tenho condiçôes.  Seja você em meu lugar, Boaz!" 

E com isso ele removeu sua sandália na presença dos anciôes e o deu a Boaz, assim indicando sua desistência do direito e responsabilidade da redençâo.  Boaz ficou com a sandália--e comigo--nada mau para uma única manhâ de trabalho.  (Gosto de brincar com Boaz, perguntando qual tinha o melhor cheiro--a sandália, ou eu!) 

Os anciôes expressaram sua aprovaçâo da questâo sem demora e ficou tudo resolvido. 

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E eu achava que lá em Moabe as notícias corriam!  Acho que Boaz e eu fomos assunto discutido na mesa de lanche de cada lar da vila durante aquela semana.  Amigos vinham dar-me sua bênçâo, comparando-me com Raquel e Lia, as matriarcas de Israel.  E desejavam a Boaz a prosperidade de Perez, seu tetra bisavô, que fora resultado do casamento do remidor Judá com Tamar. 

Tá aí--a nossa história!  Quem poderia imaginar que Adonai faria tanto por uma pobre viúva moabita que nâo tinha mais em quem se refugiar? 

Sinto ter tomado tanto tempo seu.  Preciso providenciar nosso almoço. Boaz chegará a qualquer momento. . . . 

Ah, mas quase me esqueço, há mais uma parte nesta história. E um capítulo que ainda está sendo escrito. Suponho que já perceberam.  Adonai resgatou meu ventre!  Depois de todos estes anos, temos um filhinho! 

Sabem, depois de tudo que Deus tem feito por nós, confesso que acho que Adonai tem-nos reservado algo muito especial.  Freqüentemente me pergunto que plano Ele terá para esta criança tâo especial . . . 

(Voz masculina):"Estas sâo pois as geraçôes de Perez: Perez gerou a Esrom.  E Esrom gerou a Arâo, e Arâo gerou a Aminadabe, e Aminadabe gerou a Naassom, e Naassom gerou a Salmom, e Salmom gerou a Boaz, e Boaz gerou a Obede, e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi . . .  " rei de Israel, de quem vem o messias, o remidor do mundo!